sábado, 11 de agosto de 2018

O JARDIM E O “DIA DOS PAIS” – POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Nosso intuito não é ridicularizar os personagens aqui retratados, apenas mostrar aos leitores tipos e fatos que ficaram em nossa memória ao longo de nossa vida.
Rozário Zap era um imigrante italiano. Foi praticamente o responsável pela arborização do nosso jardim. A maioria das árvores foi por ele plantada. Depois de aposentado, já com idade avançada, passou a vender alhos nas ruas da cidade.
O nosso jardim sofreu uma remodelação em 1931, pelo então prefeito Altivo Linhares. Existe um banheiro público em estilo choupana, imitando troncos de madeira que foi desativado há muitos anos. Após sua remodelação foi construída a escada que fica à esquerda, do lado do Jardim de Infância.
Os bancos eram de madeira com pés de ferro. Depois foram substituídos por bancos de cimento com propaganda das firmas que os ofertavam. Com o passar do tempo, dos 43 bancos existentes, 27 já não fazem parte do comércio local: Banco Ribeiro Junqueira, Banco Crédito Real de Minas Gerais, Agência Ford, Agência Chevrolet, Bar Rio Branco, Bar Central, Casa Aguiar, Casa Rainha, Casa Santa Helena, Casa Provinciali, Casa Garcia, Casa das Máquinas, Farmácia Central, Serraria Miracema, Posto Shell, Usina Santa Rosa, Açougue São Sebastião, Fábrica de Móveis São Geraldo, Migramar, Alfredo Crespo, Genserico Câmera Castro, Tipografia Souza, Cia Telefônica Brasileira, Oliveira & Mendonça, Barros & Nacif, Joalheria Siene e A Predileta.
Em um desses bancos estão sentados dois senhores de idade avançada. Neste momento chega um rapaz e diz: - Como é, papai? Vamos embora ou o senhor vai ficar aí? Estou com pressa.
O mais idoso se dirige ao outro e diz: - Eu queria que as pessoas, ou nossos filhos, tivessem mais paciência conosco, que já estamos velhos, no terminal da vida. Já não temos a mesma agilidade que eles; nossas pernas estão trôpegas, a nossa audição está falha. Às vezes pedimos para repetir o que dizem. Às vezes molhamos a roupa pela incontinência urinária. Reclamam por não comermos, não sabem que os nossos dentes são poucos. Às vezes nos sentimos inúteis diante da modernidade atual. Entornamos a bebida ou derramamos a comida sobre a mesa. Eu queria que eles soubessem que muitas vezes, eu trocava as suas fraldas. Que lhes dei comida para os alimentar. Que acordei muitas noites e os embalei para dormir. Que tive paciência em fazer com que andassem. Que suportava seus choros altas horas da noite.
Hoje é o “Dia dos Pais”. Recebemos presentes, recebemos carinhos de nossos entes queridos, mas o que mais precisamos, ao chegar à velhice, é mais compreensão, que não nos desprezem quando não somos mais úteis, que não nos abandone em um asilo no meio de pessoas desconhecidas. Que respeitem a nossa surdez, que desculpem a nossa incompreensão. Que respeitem o nosso andar lento, a nossa pouca visão e as nossas mãos trêmulas.
E saibam que também, um dia, serão pais e que também ficarão velhos.
SETEMBRO/2003



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