segunda-feira, 8 de junho de 2026

FIORI GIGLIOTTI: ASSIM TUDO COMEÇOU...

 


Transcrevo a seguir alguns tópicos da entrevista concedida por Fiori Giglioti ao João Areosa, da revista Placar, em 1977.

 

O gol de Parafuso, num remoto e acirrado jogo do interior, foi o começo de tudo. Depois, a voz anasalada passou a varar as ondas radiofônicas, conquistando audiência e uma comovente amizade entre locutor e ouvinte.

 

E como foi o seu começo? Como você sentiu que dava para o rádio?

- Bom, eu tive que me virar muito cedo, pois tinha 12 anos quando perdi meu pai, a quem era muito ligado; eu tinha loucura por ele. Passei a engraxar sapatos, a vender jornal, a trabalhar em casa de tecidos. Fui parar no jornal Correio de Lins, limpando a sala, fazendo cobrança, ajudando o pessoal de lá na luta pela sobrevivência do jornal. De repente, me vi fazendo notinhas sociais e entrando aos poucos nos assuntos esportivos.


E como nasceu o locutor?

- Faço questão de apontar o apoio que recebi do Ramiro Vieira. Esse acreditou de imediato, me deu apoio: “Vai em frente que tudo dará certo”. E no dia 26 de maio de 1947, com 19 anos, eu estreei como locutor, na vitória do Linense sobre o São Paulo de Araçatuba por 1 a 0, gol de um crioulão comprido chamado Parafuso.

 

Você imitava algum outro locutor famoso, sofreu influência na sua forma de narrar?

- Ah, sofri sim. Do Rebelo Junior e do Pedro Luís. Então, o meu gol sempre foi ao estilo do Rebelo, um gol comprido. E a forma de irradiar também. Ao passo que o Pedro Luís corria demais atrás da bola, sua preocupação era muito mais a bola do que qualquer outro detalhe. Além do mais, o Rebelo era o locutor da época, pois a onda da Tupi penetrava muito mais do que a da Gazeta. E veja você que depois, por ironia do destino, eu vim trabalhar com o Pedro na Bandeirantes, indo para a Pan-Americana ocupar um lugar que era dele, retornando à Bandeirantes para uma vaga que também pertenceu ao Pedro Luís.

 

E a vinda para São Paulo, como aconteceu?

- Em fevereiro de 1952 fui chamado, através do Edson Leite, para um teste. Jogavam Santos e Seleção Paulista, na Vila Belmiro, um jogo treino. Graças a Deus, tive sorte e fiz contrato, mas para começar a trabalhar só em julho, pois não podia abandonar de repente meus compromissos particulares e a rádio de Lins. Mas, antes disso, fiquei nove meses na Rádio Cultura de Araçatuba e trabalhei dois anos na fase de montagem da Rádio Clube de Birigui, sempre apresentando também programas sertanejos.

 

E como surgiu o seu próprio estilo de narração, ou seja, como você foi se libertando das imitações e das influências dos locutores mais famosos?

- À medida que fui ganhando alguma projeção, senti que tinha de jogar uma cartada, pois se continuasse a imitar o Pedro Luís e o Rebelo Junior, eu seria apenas um locutor entre tantos outros que faziam o mesmo. Então, mudei completamente a terminologia do rádio esportivo. Por exemplo, todo mundo falava: “Amigos ouvintes ou senhoras ou senhores”. Então, passei a falar “torcida brasileira”. Você pode reparar que, quando o goleiro pegava na bola, todo mundo dizia: “Abraça, pega firme”. Mudei para “seguuura com firmeza”. Quando há um levantamento de bola, o locutor normalmente fala: “Prepara o centro, vai centrar, olha o chuveirinho, atenção...” Mudei para “balão subindo, balão descendo”. Digo “amortece no peito e põe na grama”. A maioria diz: “Mata no peito e baixa na terra”, como era o caso do falecido Geraldo José de Almeida. E tem aquele tratamento carinhoso que dou prestigiando as cidades do interior, prestigiando os amigos, prestigiando principalmente os estudantes, pois cheguei à conclusão de que a narração esportiva não pode ser exclusivamente a preocupação do locutor em correr atrás da bola. Honestamente, acho que isso maltrata o ouvinte. É preciso suavizar o impacto que o futebol provoca em quem estiver ouvindo uma transmissão.

 

Antes de cada partida você faz questão de criar as mais diversas imagens, chegando inclusive a detalhes, notadamente os meteorológicos.

- É verdade (e Fiori demonstra como abriria um jogo numa tarde de sol). Torcida brasileira, carinhosamente boa tarde. Esta é uma tarde azul, uma tarde de festa, sol brilhando, algumas nuvens brancas desfilando na passarela do céu, enfeitando o cenário, dando-nos exatamente a imagem mais bela para um acontecimento maravilhoso, misturado com as emoções do futebol. Agora, quando o tempo não está bom, quando o céu está meio trancado, todo mundo diz “tarde feia”. Aí eu mudei: “Céu carrancuuuuudo, torcida brasileira”.

 

Já que é hora de demonstração, como você abriria um jogo decisivo entre Corinthians e Palmeiras?

- Torcida brasileira, carinhosamente boa tarde. Hoje é dia de festa. Hoje é dia de emoção, hoje é dia do coração bater mais forte. Palmeiras e Corinthians, dois gigantes do futebol paulista, dois gigantes do futebol brasileiro, outra vez se encontrando no campo de luta. O Corinthians perto da realidade, o Palmeiras simplesmente transformando em verdade mais um dos sonhos de sua torcida que tantas alegrias têm experimentado ao longo destes últimos anos. Mas o corintiano que espera, o corintiano que sofre, o corintiano que vai somando a cada jogo que passa, o corintiano mais fiel, o corintiano que procura esquecer um passado tão triste e que tanto o tem maltratado; o corintiano vem para campo com a certeza de desabafar, com a certeza de viver hoje, finalmente, o seu dia de colher, neste palco maravilhoso, neste jardim de tantas emoções, as flores que efetivamente hão de perfumar , hão de adornar o seu largo sofrimento. Vive o Morumbi uma das suas mais belas, mais lindas, temos plena certeza, mais inesquecíveis jornadas , porque assim quis o destino.  

 

E como você encerraria essa entrevista?

- Já está escurecendo? (Fiori olha pela janela e pega um microfone que andava jogado na mesa do estúdio). Então, vamos lá: “Boa noite torcida brasileira. A tarde vai morrendo e a noite vem chegando para abraçar carinhosamente a cidade grande”.

 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

LEIVINHA: UM DOS SÍMBOLOS DA ACADEMIA PALMEIRENSE

 


João Leiva Campos Filho nasceu em Novo Horizonte-SP, em 11 de setembro de 1949. Meia/atacante muito hábil, inteligente nas deslocações e lançamentos, ótimo cabeceador. Subia com estilo e cabeceava forte e certeiro. LEIVINHA foi criado na cidade de Lins, também no interior paulista, e iniciou sua trajetória no futebol pela Linense, em 1965. E não demorou para aparecer oportunidade na equipe principal.


A capital paulista logo foi seu destino e a Portuguesa de Desportos sua nova casa. No entanto, a afirmação definitiva veio no Palmeiras. O jovem não sentiu o peso de atuar ao lado de craques como Luís Peereira, Dudu, Ademir da Guia e acabou como um dos destaques do Verdão no início da década de 70. Vestiu a camisa do Palmeiras em 263 jogos e marcou 105 gols (campeão paulista em 1972 e 1974, e bicampeão brasileiro em 1972/73). Leivinha também foi personagem em uma das decisões mais lamentadas pelos palmeirenses. No Campeonato Paulista de 1971, o árbitro Armando Marques anulou um gol do meia que tiraria o título do São Paulo.


Em 1975, ao lado do zagueiro Luís Pereira, Leivinha foi jogar pelo Atlético de Madrid. E a Europa continuou sendo um palco do vistoso futebol do meia. Ajudou o seu time a acabar com uma sequência de duas conquistas seguidas do rival Real Madrid, sendo campeão espanhol em 1977. Ficou conhecido na Espanha como “Príncipe”. Retornou ao Brasil em 1979 para jogar no São Paulo, onde fez apenas 11 jogos e marcou 2 gols. Encerrou a carreira precocemente, aos 30 anos, devido aos sérios problemas no joelho.  


Vestiu a camisa do Brasil em 26 jogos, sendo 21 oficiais e 7 gols marcados. Participou da Copa do Mundo de 1974.


Leivinha faleceu em 04 de junho de 2026, aos 76 anos, na capital paulista. O ex-jogador enfrentava sérios problemas em consequência de um Alzheimer.

domingo, 17 de maio de 2026

RILDO: LATERAL DE BOTAFOGO E SANTOS DOS TEMPOS ÁUREOS

 


RILDO da Costa Menezes, pernambucano de Recife, onde nasceu em 23 de fevereiro de 1942, foi um lateral-esquerdo muito técnico, forte na marcação, bom no apoio e com grande poder de recuperação. Deixou o seu nome marcado na história do Botafogo e do Santos.


Rildo começou sua carreira no Íbis e passou pelo Sport, antes de jogar no Botafogo por cinco anos – 298 jogos e 3 gols (bicampeão carioca em 1961/62, e campeão do Rio-São Paulo em 1962 e 1964). Saiu do Glorioso para brilhar no Santos – 325 jogos e 10 gols (tricampeão paulista em 1967/68/69, e campeão do Roberto G. Pedrosa em 1968). Em seguida, o ex-lateral vestiu a camisa do ABC e Ceub (DF), antes de se transferir para o futebol dos Estados Unidos, onde defendeu o Cosmos (campeão nacional em 1977), California Lazers, Cleveland Force, California Sun e Cleveland Cobras.


Participou da Copa do Mundo de 1966. Pela Seleção disputou 49 jogos, sendo 39 oficiais e um gol marcado.


Residiu em solo americano até o final de sua vida. Faleceu em Los Angeles, em 17 de maio de 2021, aos 79 anos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

FUTEBOL DE BOLA MURCHA

 


Definitivamente não é uma distração acompanhar os jogos no futebol brasileiro. Todos os envolvidos, sem exceção, têm a sua parcela de culpa.

 

Os árbitros são ruins e as regras (mal) interpretadas, cada um à sua “maneira ou interesse”; o VAR é uma VARgonha! Os narradores (salvo raras exceções) estão mais para animadores de auditório; alguns comentaristas – principalmente os ex-jogadores – incorporaram palavras difíceis (ataque posicional, amplitude, entrelinhas, verticalidade, entre outras) para corroborar suas análises táticas; e os comentaristas de arbitragem corporativistas.

 

Os técnicos querem chamar toda a atenção do espetáculo para si e estão mais preocupados com a arbitragem do que orientar seus comandados. Chegam ao absurdo de reclamações estapafúrdias sobre cobrança de lateral. Não está muito longe e vão reclamar até da cor da cueca do quarteto de árbitros. Os componentes do banco de reservas apitam o jogo durante os 90 minutos e quase adentram em campo; dentro das quatro linhas, os “artistas do espetáculo” (parece mesmo um circo), tentam de toda forma ludibriar a arbitragem em lances bisonhos, mesmo sabendo que o VARgonha está de “olho”. Ficam mais tempo cercando o árbitro do que marcando seu adversário. Levam uma trombada na barriga e caem no chão rolando com as mãos no rosto. Fazer cera, ao que parece, deve ser parte integrante do “treinamento tático e secreto”. São cenas ridículas de um futebol que se diz profissional. Os atletas não colaboram dentro de campo para o bom andamento do jogo.

 

Os “boleiros” se acham o suprassumo da inteligência e, alguns, da beleza. Uma parte deles está mais preocupada com suas tatuagens e com seus diferentes tipos de mechas de cabelo. O “estrelismo e a soberba” quando vestem a camisa da Seleção é o reflexo do pífio resultado dentro de campo. Faz tempo que não somos os melhores e eles, jogadores, ainda não caíram na triste realidade da bagunça generalizada do nosso futebol – dos dirigentes aos atletas. Uma grande parte de todas essas observações ocorre somente no futebol brasileiro.

 

Acrescento que os dirigentes também deveriam participar da entrevista pós-jogo quando seu time for beneficiado com o erro, não apenas quando é prejudicado. É uma hipocrisia descarada.

 

Reconheço que nem tudo era perfeito, cometiam-se erros, mas era muito mais gostoso de curtir e torcer pelo seu time com o radinho colado no ouvido. A emoção da transmissão nos levava pelas ondas do “dial” para dentro do estádio, imaginando lance por lance, detalhe por detalhe. Os locutores nos traziam uma narrativa muito acima da realidade: um lateral próximo à sua área de defesa era um terror, tudo era dramático ao extremo, desligava e ligava o radinho a cada ataque contra meu time, esperava o grito de gol vindo do rádio em alto volume do vizinho que torcia pelo adversário. Era um alívio ao ouvir aquele adorado "silêncio”... hoje, o excesso de jogos transmitidos pelas TVs mostra uma realidade morta. Além dos locutores, tínhamos ótimos trepidantes e comentaristas que tentavam traduzir em 3 ou 4 minutos de intervalo, o que teria acontecido. Até hoje eles tentam, na verdade.

 

O futebol era tão mais bonito e saudável que reverenciávamos até o ídolo adversário, não importando a camisa que vestia. A rivalidade é sadia e importante para qualquer esporte, pois sem ela tudo seria sem graça, mas falo da rivalidade dentro de campo. Fora de campo falta unidade entre os clubes e a classe desportiva em geral.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

HÁ COISAS QUE SÓ ACONTECEM AO BOTAFOGO – POR ROBERTO PORTO

 


Nota: transcrito do Jornal dos Sports, ano 2004, na série especial em comemoração ao centenário do Botafogo.

 

Grande injustiça é perpetrada até hoje contra um dos mais folclóricos times de futebol que já adentraram o Maracanã. Trata-se do Botafogo de 1977, apelidado de Time do Camburão pelo repórter Deni Menezes.

Abatido psicologicamente com a venda da histórica sede de General Severiano para a Vale do Rio Doce, em 76, o Botafogo chegou ao ano de 77 carecido de afirmação. O que fazer diante da verdadeira catástrofe? Marechal Hermes, com todo respeito, assemelhava-se a um desterro. Os inimigos do Glorioso babavam de alegria.

Diante do quadro desolador, o presidente Charles Borer, com a mais elogiável das intenções, tentou mudar o medonho quadro de decrepitude reforçando o departamento de futebol. O fato é que, trocando e comprando, de repente o Botafogo virou uma espécie de refúgio de jogadores talentosos e problemáticos. Passaram a desfilar com a camisa da Estrela Solitária: Perivaldo, Manfrini, Mário Sérgio, Renê, Rodrigues Neto, Gil, Dé, Ubirajara Alcântara e Paulo César Lima, que se juntaram a Osmar, Ademir Vicente, Luisinho Rangel e outros. Foi misturar pólvora com fogo. Botafogo.

Foi então que num belo domingo de sol e de clássico no Maracanã, o repórter Deni Menezes encontrava-se à espera do ônibus que conduzia a delegação alvinegra.  Dotado de rara sensibilidade, Deni, em determinado momento, abriu o microfone e chamou o comando da jornada: “Atenção, José Carlos Araújo: acaba de chegar o Time do Camburão...”

Pelo que me recordo, a Rádio Nacional quase saiu do ar, tantas foram as gargalhadas que a informação provocou. Os mais bem dotados de memória ainda podem escalar o time com Ubirajara, Perivaldo, Osmar, Renê e Rodrigues Neto; Luisinho Rangel, Ademir Vicente, Mário Sérgio e Paulo César; Gil e Manfrini. Na verdade, a essa altura do campeonato o que importa não é exatamente o fato e sim a versão. E o Time do Camburão passou à história do Maracanã como o que reuniu o maior número de nômades que o futebol brasileiro já teve notícias. Nômades meio belicosos esclareçam-se.  

Justiça seja feita, Charles Borer, com toda a experiência de dono de empresa de segurança bancária, fez o possível e o impossível para enquadrar o Time do Camburão. Não houve jeito. Zezé Moreira, respeitável e veterano, abandonou o barco. Telê Santana saiu apavorado de Marechal Hermes. Paulistinha, campeão pelo clube em várias oportunidades, não durou mais do que cinco jogos no comando.

Quando a situação parecia incontornável, Charles Borer decidiu enquadrar o Time do Camburão. E simplesmente contratou o delegado Luiz Mariano para técnico e o então Homem de Ouro Hélio Vígio para preparador físico. Mas os jogadores acabaram atraindo os dois integrantes da briosa Polícia Civil para seu lado. Os treinos eram uma festa.  

Mas, a rigor, o que fez de notório o Time do Camburão? Ao que consta, nada. Pelo que estou informado, os ânimos só ficavam ligeiramente exaltados nas enfadonhas viagens de ônibus para Campos e Volta Redonda.  Para matar o tempo, alguns jogadores viajavam armados. E, tal qual nos filmes de caubói, quando a caravana passava por uma cidade, da janela do coletivo os jogadores disparavam seus trabucos para o alto, numa espécie de saudação às comunidades. Qualquer semelhança com o bando de Jesse James ou da dupla Butch Cassidy/Sundance Kid deverá ser debitada na conta da mera coincidência. Mas que era apavorante, isso era. Sinceramente.

Há gente do maior gabarito que garante que o time era festeiro, nada mais do que festeiro. O bando de Lampião era bem pior.




ANTES DO CAMBURÃO, TIMAÇO FEZ HISTÓRIA A BORDO DE UM TRANSATLÂNTICO.




O Campeonato Carioca de 1954 foi terminar em fevereiro de 1955 e o Botafogo ficara muito mal colocado. E logo após a recontratação de Zezé Moreira, para dar um jeito no departamento de futebol, o clube tinha pela frente um sério compromisso: uma exaustiva excursão à Europa, acertada pelo empresário José da Gama, com nada menos do que 18 jogos a cumprir em curto período. É óbvio que o treinador pouco ou nada pôde fazer. Formou um grupo, convocou alguns reservas imediatos e tomou o rumo do Velho Mundo. A base era a do ano anterior: Gilson (Lugano), Orlando Maia, Gérson dos Santos (Thomé) e Nilton Santos; Pampolini (Danilo) e Juvenal; Garrincha (Neivaldo), Ruarinho, Vinícius, Dino e Hélio (Quarentinha).

A chefia da delegação, estrategicamente, foi entregue ao jornalista e benemérito do clube Sandro Moreyra. Sandro tinha comprovada e amistosa ascendência sobre os jogadores. E a diretoria do Botafogo estava cansada de saber que não bastariam Zezé Moreira e Paulo Amaral, os durões, para controlar um grupo tão heterogêneo.

O avião que conduziu a delegação do Botafogo, um pesado e resfolegante Constelation da Panair, chegou a Madri com horas de atraso. A rigor, pode-se dizer que o Real já estava em campo enquanto os jogadores do Botafogo, no vestiário, tiravam o paletó e a gravata do terno de viagem e vestiam às pressas o uniforme. O resultado: um inesperado empate em 2 a 2 na estréia.

Ao longo das 18 partidas, o Botafogo jogou na Espanha, França, Dinamarca, Holanda, Suíça, Itália e Tchecoslováquia. Mas não havia lógica: o time atuava na Espanha, viajava para a França, regressava novamente para cumprir um compromisso na mesma Espanha e assim por diante. Foram ao todo 12 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas, uma para o Tenerife (2 a 1) e outra para o Racing de Paris (4 a 2).

Na manhã seguinte à vitória por 4 a 0 do Botafogo sobre o combinado Juventus-Torino, um guia turístico teve a infeliz ideia de levar a delegação alvinegra à Basílica de Superga, numa elevação nas proximidades de Turim. Lá, em 1949, o avião do Torino espatifara-se na montanha, depois de bater de raspão com a asa na torre da igreja. Não houve sobreviventes no acidente que entrou para a história do futebol como a “Tragédia de Superga”. Durante a visita, ocorreu uma surpresa desagradabilíssima: em torno da basílica, com a torre já reconstruída, ambulantes vendiam, como recordação turística aos visitantes, pedaços do avião que conduzira o Torino à morte. Aqui era um pneu, ali um pedaço enegrecido de poltrona, mais adiante parte da fuselagem, fotos dos cadáveres carbonizados dos jogadores, objetos pessoais encontrados nos destroços... Enfim, um lúgubre comércio, digno de filme de terror.

O resultado? Pânico nas hostes alvinegras. Os jogadores, ainda com compromissos a cumprir na Tchecoslováquia, tremiam de pavor com a aproximação da viagem aérea de volta. Já no hotel, depois do jantar, uma comissão formada pelos jogadores mais experientes procurou Sandro Moreyra com um apelo: voltar para o Brasil de navio. Com mais quatro partidas para cumprir na Tchecoslováquia, Sandro cedeu. O Botafogo retornaria da Europa singrando, por duas semanas, o Oceano Atlântico.

Conta o folclore – e às vezes a versão é mais deliciosa do que o fato – que a viagem a bordo do Conte Grande foi uma maravilha. Num navio de luxo, alojados em confortáveis camarotes, os jogadores conviveram 14 longos dias com milionários excêntricos, louras frívolas e desfrutáveis, e muitos drinques. Garrincha, por exemplo, estava sempre com uma garrafa de Coca-Cola nas mãos, sorvendo alegremente seu refrigerante. Só que, após subornar o garçom, a Cola-Cola misturada ao rum se transformava numa saborosa Cuba-Libre.

 

DOIS ANOS LONGE DE CASA

 

Lá pelas tantas, perdidos em viagens de trem, ônibus e aviões, sem a mínima ideia de idiomas, países e atormentado com a diferença do fuso horário, o ponteiro-esquerdo Hélio – que tinha o apelido de Boca de Sandália – perdeu a noção de tempo e espaço. Já não sabia quando havia deixado o Brasil. A história, obviamente, foi contada a este repórter pelo brilhante Sandro. E como tal vou passá-la na íntegra.

Um certo dia, cabisbaixo, Hélio aproximou-se de Sandro e perguntou:

- Chefe, há quanto tempo estamos viajando?

Sandro foi curto na resposta:

- Há dois anos, Hélio.

Simplório ao extremo, o jogador se queixou:

- Olha, seu Sandro, a essa altura minha mulher e meus filhos, lá em Olaria, devem estar pensando que eu morri.

De imediato, o chefe da delegação alvinegra encontrou a solução:

- Escreva uma carta para a família, rapaz...

Foi então que Hélio apresentou um problema insolúvel:

- O caso, seu Sandro, é que nós estamos viajando há tanto tempo que esqueci o endereço lá de casa...

 

 

domingo, 19 de outubro de 2025

DARÍO PEREYRA: RAÇA E TÉCNICA A SERVIÇO DO FUTEBOL

 


Alfonso DARÍO PEREYRA Bueno é uruguaio de Sauce, onde nasceu em 19 de outubro de 1956. Zagueiro voluntarioso, técnica refinada, raça acima da média, forte espírito de liderança. Jogava de cabeça erguida, com muita firmeza e seriedade. Ótimo na cobertura e na antecipação, sempre bem colocado e um gigante no jogo aéreo. Se fosse preciso atuava em outras posições. Um dos mais completos zagueiros que vi jogar.

 

Entrou para a história do São Paulo, sendo considerado um dos seus melhores zagueiros. Chegou ao Tricolor para jogar como apoiador, sua posição de origem, para resolver os problemas do meio-campo do São Paulo. No entanto, acabou como mestre da defesa.

 

Quando o zagueiro Oscar desembarcou no Morumbi, vindo do Cosmos de Nova York, em 1980, estava formada uma das mais perfeitas duplas defensivas de todos os tempos na história do São Paulo. O talento de Darío e a garra de Oscar se completavam, conforme descrito no Almanaque do São Paulo, por Alexandre da Costa, em 2005.

 

Sua adaptação ao futebol brasileiro não foi imediata, e o uruguaio não conseguia repetir as boas atuações que o consagraram pelo Nacional e pela seleção do seu país. O problema foi resolvido quando, numa emergência, o técnico Rubens Minelli decidiu improvisar o apoiador como quarto-zagueiro. Ele se saiu muito bem e não deixou mais a posição até 1988, quando saiu do São Paulo.

Atuou no Nacional (campeão uruguaio em 1976), São Paulo – 451 jogos e 38 gols (campeão paulista em 1980/81, 1985, 1987, e do brasileiro em 1977 e 1986), Flamengo – 12 jogos, Palmeiras – 32 jogos e 1 gol, e Matshushita/Japão (campeão da Copa do Imperador), onde encerrou a carreira em 1992.

 

Disputou a Copa do Mundo de 1986 e vestiu a camisa da Celeste em 34 jogos e marcou 14 gols.

 

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

DULCE ROSALINA: PRIMEIRA-DAMA DAS ARQUIBANCADAS

 


DULCE ROSALINA Ponce Leon nasceu na capital carioca em 07 de março de 1934. Começou a frequentar os estádios desde nova, e por sua assiduidade, foi convidada, em 1956, para comandar a Torcida Organizada do Vasco (TOV), na época um fato inédito, tornando-se a primeira mulher a chefiar uma torcida. As histórias mostram que Dulce, realmente, cumpriu bem a sua missão no comando de uma organizada. Apesar do preconceito, aceitou o desafio e caracterizou sua participação pela presença nos estádios, independentemente do lugar, e pelas brincadeiras sadias que a faziam sempre respeitada pelos torcedores de outros clubes.


Em 1976, deixou a Torcida Organizada do Vasco, já que o grupo apoiava, na eleição presidencial do clube, o candidato Agathyrno da Silva Gomes, enquanto ela apoiava Medrado Dias, o candidato da oposição. Ao deixar a TOV criou a Renovascão, outra torcida organizada.


Folclórica, uma de suas mais saborosas histórias dava conta de que, seu marido, o ex-jogador Ponce Leon, na época de jogador de Bonsucesso, Botafogo e São Paulo, não poderia vencer o Vasco, sob pena de apanhar quando chegasse em casa. 


A mais antiga chefe de torcida do país, conhecida como a “primeira-dama das arquibancadas”, morreu aos 69 anos, de insuficiência cardíaca, em 19 de janeiro de 2004, no Rio de Janeiro. O Vasco perdeu a sua torcedora símbolo.


A prefeitura do Rio de Janeiro decidiu homenageá-la ao dar seu nome a uma rua próxima ao Estádio de São Januário. Ela foi um exemplo de pioneirismo na luta das mulheres por espaço e voz dentro do futebol.