Transcrevo a seguir alguns tópicos da
entrevista concedida por Fiori Giglioti ao João Areosa, da revista Placar, em
1977.
O gol de Parafuso, num remoto e
acirrado jogo do interior, foi o começo de tudo. Depois, a voz anasalada passou
a varar as ondas radiofônicas, conquistando audiência e uma comovente amizade
entre locutor e ouvinte.
E como foi o seu começo? Como você
sentiu que dava para o rádio?
- Bom, eu tive que me virar muito
cedo, pois tinha 12 anos quando perdi meu pai, a quem era muito ligado; eu
tinha loucura por ele. Passei a engraxar sapatos, a vender jornal, a trabalhar
em casa de tecidos. Fui parar no jornal Correio de Lins, limpando a sala,
fazendo cobrança, ajudando o pessoal de lá na luta pela sobrevivência do
jornal. De repente, me vi fazendo notinhas sociais e entrando aos poucos nos
assuntos esportivos.
E como nasceu o locutor?
- Faço questão de apontar o apoio que
recebi do Ramiro Vieira. Esse acreditou de imediato, me deu apoio: “Vai em
frente que tudo dará certo”. E no dia 26 de maio de 1947, com 19 anos, eu
estreei como locutor, na vitória do Linense sobre o São Paulo de Araçatuba por
1 a 0, gol de um crioulão comprido chamado Parafuso.
Você imitava algum outro locutor
famoso, sofreu influência na sua forma de narrar?
- Ah, sofri sim. Do Rebelo Junior e
do Pedro Luís. Então, o meu gol sempre foi ao estilo do Rebelo, um gol comprido.
E a forma de irradiar também. Ao passo que o Pedro Luís corria demais atrás da
bola, sua preocupação era muito mais a bola do que qualquer outro detalhe. Além
do mais, o Rebelo era o locutor da época, pois a onda da Tupi penetrava muito
mais do que a da Gazeta. E veja você que depois, por ironia do destino, eu vim
trabalhar com o Pedro na Bandeirantes, indo para a Pan-Americana ocupar um
lugar que era dele, retornando à Bandeirantes para uma vaga que também
pertenceu ao Pedro Luís.
E a vinda para São Paulo, como
aconteceu?
- Em fevereiro de 1952 fui chamado,
através do Edson Leite, para um teste. Jogavam Santos e Seleção Paulista, na
Vila Belmiro, um jogo treino. Graças a Deus, tive sorte e fiz contrato, mas
para começar a trabalhar só em julho, pois não podia abandonar de repente meus
compromissos particulares e a rádio de Lins. Mas, antes disso, fiquei nove
meses na Rádio Cultura de Araçatuba e trabalhei dois anos na fase de montagem
da Rádio Clube de Birigui, sempre apresentando também programas sertanejos.
E como surgiu o seu próprio estilo de
narração, ou seja, como você foi se libertando das imitações e das influências
dos locutores mais famosos?
- À medida que fui ganhando alguma
projeção, senti que tinha de jogar uma cartada, pois se continuasse a imitar o
Pedro Luís e o Rebelo Junior, eu seria apenas um locutor entre tantos outros
que faziam o mesmo. Então, mudei completamente a terminologia do rádio esportivo.
Por exemplo, todo mundo falava: “Amigos ouvintes ou senhoras ou senhores”.
Então, passei a falar “torcida brasileira”. Você pode reparar que, quando o
goleiro pegava na bola, todo mundo dizia: “Abraça, pega firme”. Mudei para
“seguuura com firmeza”. Quando há um levantamento de bola, o locutor
normalmente fala: “Prepara o centro, vai centrar, olha o chuveirinho,
atenção...” Mudei para “balão subindo, balão descendo”. Digo “amortece no peito
e põe na grama”. A maioria diz: “Mata no peito e baixa na terra”, como era o
caso do falecido Geraldo José de Almeida. E tem aquele tratamento carinhoso que
dou prestigiando as cidades do interior, prestigiando os amigos, prestigiando
principalmente os estudantes, pois cheguei à conclusão de que a narração
esportiva não pode ser exclusivamente a preocupação do locutor em correr atrás
da bola. Honestamente, acho que isso maltrata o ouvinte. É preciso suavizar o
impacto que o futebol provoca em quem estiver ouvindo uma transmissão.
Antes de cada partida você faz questão
de criar as mais diversas imagens, chegando inclusive a detalhes, notadamente
os meteorológicos.
- É verdade (e Fiori demonstra como
abriria um jogo numa tarde de sol). Torcida brasileira, carinhosamente boa
tarde. Esta é uma tarde azul, uma tarde de festa, sol brilhando, algumas nuvens
brancas desfilando na passarela do céu, enfeitando o cenário, dando-nos
exatamente a imagem mais bela para um acontecimento maravilhoso, misturado com
as emoções do futebol. Agora, quando o tempo não está bom, quando o céu está
meio trancado, todo mundo diz “tarde feia”. Aí eu mudei: “Céu carrancuuuuudo,
torcida brasileira”.
Já que é hora de demonstração, como
você abriria um jogo decisivo entre Corinthians e Palmeiras?
- Torcida brasileira, carinhosamente
boa tarde. Hoje é dia de festa. Hoje é dia de emoção, hoje é dia do coração
bater mais forte. Palmeiras e Corinthians, dois gigantes do futebol paulista,
dois gigantes do futebol brasileiro, outra vez se encontrando no campo de luta.
O Corinthians perto da realidade, o Palmeiras simplesmente transformando em
verdade mais um dos sonhos de sua torcida que tantas alegrias têm experimentado
ao longo destes últimos anos. Mas o corintiano que espera, o corintiano que
sofre, o corintiano que vai somando a cada jogo que passa, o corintiano mais
fiel, o corintiano que procura esquecer um passado tão triste e que tanto o tem
maltratado; o corintiano vem para campo com a certeza de desabafar, com a
certeza de viver hoje, finalmente, o seu dia de colher, neste palco
maravilhoso, neste jardim de tantas emoções, as flores que efetivamente hão de
perfumar , hão de adornar o seu largo sofrimento. Vive o Morumbi uma das suas
mais belas, mais lindas, temos plena certeza, mais inesquecíveis jornadas ,
porque assim quis o destino.
E como você encerraria essa
entrevista?
- Já está escurecendo? (Fiori olha
pela janela e pega um microfone que andava jogado na mesa do estúdio). Então,
vamos lá: “Boa noite torcida brasileira. A tarde vai morrendo e a noite vem
chegando para abraçar carinhosamente a cidade grande”.








