segunda-feira, 24 de setembro de 2018

PESCADORES - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Quando eu era garoto pescava no ribeirão Santo Antônio, que naquela época ainda tinha peixe. Depois de adulto jamais pesquei, mas convivi entre amigos que são pescadores, e quando estavam preparando para a pescaria eu via como lidavam com aquelas parafernálias para levar: gasolina, fogareiro, molinete, anzóis, varas, ferramentas diversas, várias caixas de cerveja, material de cozinha, isopor, pinga, rede, remédio, barraca, gás, lampião, repelente, poita, puçá, garatéias, canecão...

Os barcos eram adaptados em cima das carretas ou caminhão, com uma Brasília em cima, e sempre havia bate coca. Um ou outro estava fazendo a coisa errada, mas no final todos se entendiam. Entre esses pescadores, podemos destacar: José Heler, Manoel Badeco, Dimas, José Osvaldo, Woninho, Altair, Amim Amim, Juicy Bereta, Benedito Simem, Dr. Sebastião Miguel, Dr. Luiz Silva, Darcy Aníbal, José Torres, Dr. Reginaldo Rizzo, Jésus, Manteiga, Amadeu Poly, Tasso, Pedrinho, Lauro Quintal, Robson Bereta, Sérgio Salim, Márcio Menezes, Samuel, Caliça, Aragão, Duduca, Vicente Toscano, Sebastião Apolinário, Márcio Tostes e Joffre Salim, entre outros.

Muitas vezes viajavam em carro próprio ou alugavam um caminhão. A demora era mais ou menos de 15 dias entre a ida e a volta. Na chegada descarregavam os apetrechos e dividiam os peixes. Após dois ou três dias, reuniam-se outra vez para comentar a pescaria a base de cerveja e tira gosto.

Os rios preferidos eram sempre do Coluene, Paracatu, Jauru, Araguaia, Paraguai, Urucuia e São Francisco, e também o Paraíba.

Os motoristas de caminhão eram o Chico Lima, Bolinha e Lelei do Pida. Os cozinheiros Giludo, e Caliça com maior frequência e o Coquimam, esporadicamente. Comentava que um bom cozinheiro ou é gay ou tem uma ferida na perna. O Coquimam tinha uma ferida na perna.

Lauro e Vicente Toscano contam que indo pescar em um rio na divisa da Bolívia, resolveram atravessar a fronteira. No posto policial um sargento olhou a placa do carro e viu: Miracema. Oba, eu sou de Laje do Muriaé. Os dois foram ao Banco. O Banco estava aberto e não havia ninguém; era hora da sesta. Os policiais da Bolívia estavam com uniforme caqui e pé no chão.

Às vezes, na viagem, quando não achavam local para pernoitar, dormiam em posto de gasolina ou dentro do carro. Os peixes pescados eram o Dourado, Pintado, Curimam, Piraputanga, Surubim, Jurupoca, Barbado e Piauçú.

Um desses pescadores, ao chegar da pescaria, foi com o filho mais novo para a cama, e começou a contar histórias: que havia saído no barco sozinho e desceu vários quilômetros de ria e avistou uma pedra. Jogou a poita e sentou em cima da pedra, mas ela começou a se mover. Então ele viu que não era uma pedra e sim uma traíra gigante. Tirou o facão, cortou a cabeça dela e a jogou dentro do barco. Os dois olhos da traíra pareciam faróis, os espinhos pareciam costela de boi. Deu para todos do acampamento comer por três dias e ainda sobrou. – Bem, meu filho, vamos dormir que já é tarde. Em seguida disse: - Meu filho, o que você deseja ser quando crescer? – Ora meu pai, eu quero ser um grande mentiroso igual ao senhor.

p

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

POLÍTICA E POLÍTICOS (PARTE 2/FINAL) - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Política é a arte de governar, ou a maneira de agir com o fim de obter o que se deseja.

Não devia tocar neste assunto, pois jamais fui político, mas através dos tempos, presenciei fatos que ficaram inesquecíveis.
Prestamos atenção em pessoas que tiveram um procedimento normal na vida, e, ao ser candidato, a qualquer cargo, nos três meses que antecedem as eleições, transformam completamente a sua identidade, passam a ser mais bem-educadas, a nos conhecer em qualquer lugar que estivermos, tapinhas nas costas, acompanham enterro, coisa que nunca fizeram antes, choram até pelo defunto que não conhecem, frequentam a missa dominical, oferecem seus préstimos após empossado, tudo, menos dinheiro...

O nosso município já teve um senador, que foi Altivo Linhares e cinco deputados estaduais: Humberto de Martino, Melchíades Cardoso, Nicanor Campanário, Sebastião Bruno e Luiz Fernando Linhares, sendo que Nicanor e Bruno foram cassados pela ditadura.

Miracema já teve, como em vários lugares do país, o grupo chamado “Grupo dos Onze”, do qual faziam parte comerciantes, agricultores, gráficos, estudantes, advogados e outros que, por acharem bonito, integravam-se neste grupo, este que seguia a cartilha de João Goulart, e muitos foram presos por ordem da polícia, uns se entregavam, outros caiam no mato e eram perseguidos pela mesma polícia até serem finalmente trancafiados.

E, nessas recordações, vou citar fatos verídicos. Um fazendeiro foi eleito vereador. Após um ano sem nada pronunciar, havendo uma sessão extra, que começou as oito horas da manhã, as 12 horas em ponto ele se levantou e pediu a palavra. Para surpresa dos outros vereadores, ele puxou a calça para cima, levantando os suspensórios, e disse: “É melhor nos sungar a sessão prá mode de nós enchê o bucho”.

Perguntado à mulher de um prefeito que acabou de se eleger, qual o prato preferido dela, respondeu: Pirex. E teve também um vereador que entrou com um projeto para tirar todas as subidas da cidade, só deixando as descidas. Um candidato, que foi policial, deu seu retratinho a um eleitor, e esse mesmo eleitor, ao se encontrar com o outro candidato, que gostava de usar peruca, olhou o santinho do ex-policial e disse: “Desse eu quero volta”.

Júlio Machado trouxe o Manoel Baú para votar. Após as eleições, Dr. Júlio mandou o Belo, motorista, levar o Manoel para a fazenda que ficava a seis quilômetros. Lá chegando, vendo o Manoel que o automóvel ia voltar vazio, disse: “É uma pena perder essa condução”; e voltou para a cidade novamente.

Um comerciante com mais de 100 empregados foi candidato, e os empregados diziam: “Não vou votar no patrão, ele já está eleito”. Não votaram, e nem ele foi eleito. O filho desse comerciante foi candidato a vereador. Deu sua cédula ao Zeca Costa. Daí há alguns dias, volta o Zeca: “Me dá mais oito cédulas porque são eleitores garantidos. ” Ao abrir a urna em Paraíso do Tobias, o candidato teve um voto, e perguntou ao Zeca: “E os oito votos que você garantiu?”. “Eu mandei para os meus irmãos lá em Mimoso do Sul”.

Um médico, muito financista, pretenso candidato, foi até à Padaria do Olegário e encomendou ao Jésus 60 pães e 100g de salame, para fazer sanduíche. O Jésus, com os olhos arregalados, respondeu: “Dr., sou o Jésus, o que faz milagres é o Jesus”. Outro vereador, num seu discurso, pronunciou uma frase que agredia a língua portuguesa. Todos os demais colegas caíram na gargalhada. Ele pediu a palavra ao presidente da mesa, e perguntou: “Sr. Presidente, por acaso estou defecado?”.

Nesta última sessão da Câmara, recebi o diploma de “Pai do Ano”, e, naquela solenidade, verifiquei que Gilda Tostes foi também vereadora por Miracema. Portanto, são quatro mulheres eleitas, e não três, como eu havia escrito.


A FALTA DE RESPEITO COM O PROFESSOR JÁ PASSOU DE TODOS OS LIMITES ACEITÁVEIS.


O ato abusivo e inconsequente dos alunos de uma escola municipal de Rio das Ostras-RJ,  retrata bem o quanto os professores sofrem dentro de uma sala de aula. É mais um entre os diversos casos de violência contra uma classe que convive há muito tempo com desrespeito e total desvalorização da profissão. Não se pode aceitar em hipótese alguma esse fato ocorrido como isolado. Agressões físicas e verbais, através do uso de palavras de baixo calão, são "problemas recorrentes" que os magistrados enfrentam em seu cotidiano. É uma dura e triste realidade! 

Vejamos:

Se já não bastassem as agruras diárias para aqueles que trabalham em área de alto risco – até de vida –, principalmente nos grandes centros, ainda tem o dissabor de receber um salário que em nada condiz com a importância de sua profissão. Falta de respeito é pouco para tamanho descaso!

Lembro-me que no meu tempo de estudante o “respeito pelo mestre” era igual – ou até maior – ao que tínhamos pelos nossos pais. Hoje, o “respeito” é uma palavra que sumiu de nosso convívio do dia a dia. O respeito permite que as pessoas cultivem o valor da paz, numa convivência saudável em respeitar as opiniões e sugestões dos outros. Somente através do respeito é possível valorizar a qualidade do próximo.  

Ser professor é:

Antes de ser uma profissão, uma das formas mais genuínas do amor. Como já dizia o grande mestre Paulo Freire: “Eu nunca poderia pensar em educação sem amor. É por isso que me considero um educador, acima de tudo por que sinto amor.”


Professor ou docente é uma pessoa que ensina ciência, arte, técnica ou outros conhecimentos. Para o exercício dessa profissão, requer-se qualificações acadêmicas e pedagógicas, para que consiga transmitir/ensinar a matéria de estudo da melhor forma possível ao aluno. É uma das profissões mais importantes, tendo em vista que as demais, na sua maioria, dependem dela.

A palavra professor vem de “professar”, que, além de lecionar, significa “declarar publicamente uma convicção ou um compromisso de conduta”. É muito difícil definir numa só palavra a importância do professor para a humanidade. Um trabalho nobre, sem o devido reconhecimento em nossa sociedade.

Finalizando: punir alunos em nosso país parece coisa de outro mundo. A "proteção" ao DIMENOR infrator está formando jovens delinquentes que assustam a sociedade em todos os níveis.   


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

POLÍTICA E POLÍTICOS (PARTE 1) - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Neste mês de julho começou a campanha política em nosso município, assim como em todo o Brasil, para se eleger prefeitos e vereadores. Esperamos que o clima seja de paz e tranquilidade, que cada candidato venha imbuído do espírito de servir a nossa comunidade e não somente usufruir dos bens materiais e monetários que ela proporciona.

Assistimos em tempos passados cenas que jamais esqueceremos, quando vimos vida sendo ceifadas, confrontos na rua principal entre udenistas e pessedistas, brigas entre irmãos. Vimos um homem enrolado na bandeira do Brasil para não ser espancado pelo adversário, bombas explodindo na Rua das Flores ferindo pessoas e destruindo casas. Miracemenses foram presos na época do integralismo, em 1937, por pertencerem ao partido fundado por Plínio Salgado, cujos participantes usavam camisa verde e gravata preta com um emblema no braço esquerdo (um três ao contrário), desfilavam pela rua e se cumprimentavam levantando o braço e pronunciando a palavra de ordem: anaoê.

Era muito usado naquela época o “curral eleitoral”, onde era servido alimentação para os eleitores e cédulas do partido, levando-os até a urna. Em 1946 tivemos a mudança de quatro prefeitos: Melchíades Cardoso, José Naegle, Homero Padilha e novamente Melchíades. Quando ouvíamos foguetes já sabíamos que o prefeito havia sido trocado.

Tivemos dois candidatos a prefeito que foram eleitos fazendo sua campanha usando bicicleta, que era o meio de locomoção que os mesmos possuíam: José de Carvalho e Olavo Monteiro de Barros.

Somente três mulheres ocuparam o cargo de vereadoras: Maria Nolasco Tostes (Santa), Sotera Cardoso Cruz e Gicelda Coelho de Oliveira, que em pouco tempo renunciou.

Mas também havia a parte cômica, em que Oscarina, mulher do Gamelão, ao discursar por muito tempo, perguntava se não havia uma mulher à-toa para lhe dar um copo d’água; o Rolando ao ler o discurso dizia: “eu perdi a linha”; outro, ao falar de cima de um caminhão, no distrito de Venda das Flores, fazendo referência ao seu oponente, disse: “eu fui afastando, afastando”, e foi se afastando até cair de cima do caminhão. Havia um negro apelidado Brigadeiro, que andava descalço por ter os pés cheios de cravos, e, ao começar o seu discurso, sempre dizia, com sua voz rouca e um pouco cavernosa: “lá em Volllllta Redonnnda!”.

A energia elétrica sempre faltava em nossa cidade. Na época da Companhia Força e Luz Norte Fluminense, sempre ligavam o microfone numa bateria. A luz faltava e o microfone continuava funcionando. Um candidato a vereador, por sinal advogado, não sabendo que o mesmo estava ligado, ao fazer o seu discurso, a luz apagou, e um gaiato qualquer gritou: “desce daí cachaça”. E ele respondeu, de cima do palanque: “Cachaça é a P.Q.P”.



domingo, 16 de setembro de 2018

DIDA: O MAIOR ARTILHEIRO DO FLAMENGO ANTES DE ZICO


Até o surgimento de Zico, ninguém havia marcado mais gols com a camisa rubro-negra do que o alagoano Edvaldo Alves de Santa Rosa. Camisa 10 do Flamengo entre 1954 e 1963, ele chegou aos 264 gols em 358 jogos. Uma marca que só seria superada pelo Galinho 16 anos depois, em 1979.

Nascido na capital alagoana em 26 de março de 1934, Dida foi descoberto pelos jogadores de vôlei do Flamengo. Aos 17 anos, ele já era conhecido como Dida e já marcava gols pelo CSA quando a delegação do Flamengo fez uma excursão ao Nordeste. Numa folga, a turma resolveu acompanhar um jogo entre as Seleções de Alagoas e da Paraíba. Dida brilhou e marcou três gols.

Na volta ao Rio, passaram os detalhes para o técnico do time de futebol, Fleitas Solich. Um mês depois, o Flamengo foi buscá-lo. Dida desembarcou no Rio em abril de 1954. Foi constatado um problema que o deixou 40 dias de molho antes de começara a ser aproveitado nos aspirantes.  

Em 1955, já no time principal, ainda continuava na reserva, mas era o substituto natural de qualquer atacante titular que se ausentasse. Veloz, driblador, de colocação perfeita na área e chute certeiro, com todas essas qualidades não demorou muito para assumir seu lugar no time. Na dramática decisão do Campeonato do Rio, contra o América, ele não jogou nem a primeira partida (vitória de 1 x  0) nem a segunda (uma humilhante derrota por 5 x 1). No jogo-extra, foi escalado como salvação e não decepcionou. Fez três gols na goleada de 4 x 1 que garantiu o título e nunca mais saiu do time titular.  

O fato é que Dida cravou seu nome na história do Flamengo. Além do bicampeonato carioca de 54 e 55, foi campeão em 1963, ano de sua despedida do clube. Ainda jogou pela Portuguesa de Desportos, onde fez dupla de ataque com o antigo companheiro do Flamengo – Henrique – e pelo Atlético Júnior, da Colômbia.  Fez 54 gols pela equipe paulista e 46 pela colombiana. Pelo CSA, onde iniciou a carreira, fez 42 gols.
 
Poderia ter tido uma trajetória igualmente brilhante na Seleção se não fosse contemporâneo de Pelé. Dida começou a Copa de 1958, na Suécia, como titular, mas depois viu do banco de reservas o Brasil ganhar o seu primeiro Mundial e nunca mais teve grandes oportunidades na Seleção. Por isso, os seus números na Seleção são ridículos comparados ao tamanho do seu futebol. Foram 8 jogos e 5 gols, sendo 6 oficiais e 4 gols.


Com a saúde muito debilitada, faleceu em 17 de setembro de 2002, aos 68 anos, no Rio de Janeiro, vítima de insuficiência hepática e respiratória. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

PÁGINA UM - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Sento-me em frente ao computador disposto a fazer mais uma crônica sobre Miracema. Fico pensando. Parece que todos os assuntos já foram por mim abordados.

Escrevi, primeiramente, sobre o Lucas Damasceno e sua fábrica de bebidas, o Quinca Lourenço, um rezador de araque. Balbino Andrade e o Formidável. Os farmacêuticos e médicos, o vigia e o amigo traído. Napoleão pedreiro, um contador de mentiras. Um poeta e suas estripulias e o sonho de minha infância na fazenda Santa Justa. O português David com seus ônibus. O Cícero Bastos e a encomenda do par de sapatos. O bilhete de loteria premiado, o juiz que bebia, o apito do trem que fazia-nos lembrar de personagens de nossa terra. Os jogadores de futebol, os hotéis, as bandas de música e os choferes de táxi. Os gerentes de bancos, os carros antigos, as trapalhadas causadas pelos defuntos. O palmiteiro contador de mentiras, a vinda dos imigrantes e o nosso Ribeirão Santo Antônio. Lembramos do tropeiro Nino Machado levando café para o Departamento Nacional do Café, que de lá, após beneficiado, seguia para a estação da Leopoldina. As enchentes e os inesquecíveis carnavais com personagens como o Zé Faca e muitos outros carnavalescos. Os bares tradicionais com jogadores de sinuca, o Colégio Miracemense e seus professores, os políticos e os emancipacionistas. Os moradores da minha rua e a Voz do Silêncio, estampada na primeira página. Os alfaiates e os sapateiros. A exposição e o Ano Novo. Como economizar e as coisas simples da vida.

Precisaria de mais espaço para escrever tudo que a minha coluna vinha fazendo no PÁGINA UM nestes quatro anos ou mais com o título acima, jornal esse que suas colunas estão paradas por alguns meses, mas todo guerreiro, às vezes, precisa de um descanso para voltar com mais vitalidade, com mais pujança, para a alegria dos seus leitores, que no momento estão sentindo a sua falta, assim também como os cronistas.

O PÁGINA UM, com sua paralisação, fez com que nossa cidade perdesse mais um veículo de informação, principalmente esse jornal que prima por sua seriedade e boa leitura.


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

OS VIGIAS - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Diversos vigias passaram por minha rua, mas dois deles ficaram inesquecíveis. O Senhor Manoel, como era chamado, foi um deles. Já de certa idade, usava um paletó branco e ensebado, botinas que pareciam bem maiores que os seus pés e carregava sempre uma garrafa térmica debaixo do braço, tomava café a noite inteira, mas ficou somente três meses no serviço. Veio reclamar que ia abandonar o emprego porque durante os três meses que trabalhou, roubaram-lhe quatro garrafas. Bom vigia hem?

O segundo vigia se chamava Euzébio, que certa noite, quando fazia a ronda, fora chamado por um morador que lhe disse: “Vou sair, toma vinte mil reis e não deixa ninguém entrar na minha casa, somente eu que sou o marido, posso entrar”. E se foi. Um pouco mais tarde, o Euzébio, tendo que se ausentar, chamou um amigo que estava passando e lhe disse: “Fica no meu lugar, vou lhe dar dez mil reis e você não deixe ninguém entrar naquela casa, somente o marido”. De manhã, chegando o marido, e como o vigia não o conhecia, disse: “Não pode entrar, somente o marido”. E o outro retrucou: “Mas eu sou o marido”. E o vigia: “Com esse negócio de ‘eu sou o marido’, já são três que entraram aí esta noite”.


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

LEÔNIDAS DA SILVA: O DIAMANTE NEGRO

Tim, Leônidas da Silva e Romeu Pellicciari 

Mais do que um craque. Mais do que um ídolo. Leônidas da Silva transformou o futebol em arte com a sua magia de artilheiro. Em campo, executava proezas que pareciam impossíveis aos olhos dos torcedores.  E, com elas, transformou-se num mito dos estádios, o primeiro grande astro do futebol brasileiro. Centroavante técnico, veloz, com grande impulsão e elasticidade, ele logo ganhou o apelido de “Homem Borracha”, devido a seus lances acrobáticos. 

 

Leônidas nasceu no Rio de Janeiro, em 06 de setembro de 1913. Começou no juvenil do São Cristóvão e com 16 anos já se destacava. Marcou 31 gols em 29 jogos. Teve uma passagem pelo Syrio Libanez - 50 gols marcados em 47 jogos -, e chegou ao Bonsucesso em 1930, quando assinou seu primeiro contrato e ficou até 1932, marcando 55 gols em 51 jogos. No ano seguinte atuou pelo Peñarol, do Uruguai, onde marcou 28 gols em 25 jogos. Voltou logo ao Brasil e brilhou por onde passou. Jogou no Vasco – 29 jogos e 27 gols (campeão carioca de 1934), Botafogo - 36 jogos e 23 gols (campeão carioca em 1935), Flamengo – 148 jogos e 151 gols (campeão carioca em 1939) e São Paulo – 210 jogos e 142 gols (campeão paulista em 1943, 1945/46, 1948/49). Foi no time paulista que encerrou a vitoriosa carreira aos 37 anos.

.

Quando o São Paulo comprou o seu passe, pela quantia recorde de 200 contos de reis, muitos criticaram o clube. O atacante chegou a ser chamado de “Bonde de 200 Contos”, mas não demorou a dar a resposta em campo. Foram cinco títulos paulistas em sete anos de clube, feito que o transformou num dos grandes ídolos da história do Tricolor.


Graças ao futebol de Leônidas da Silva, o Flamengo, que já era popular, tornou-se ainda maior. Foi o seu carisma que criou uma geração de rubro-negros nas décadas de 30 e 40. Era o “Diamante Negro” – apelido que originou a marca de chocolate – no auge da sua forma, quando brilhou também pela Seleção Brasileira. Essa denominação veio dos franceses, encantados com seu futebol na Copa de 38.

 

Disputou duas Copas do Mundo. No Mundial de 34, fez o único gol do Brasil, eliminado ao perder na estreia para a França. Foi na Copa de 1938, disputada na França, que o mundo começou a respeitar o futebol brasileiro, e o torcedor tupiniquim passou a idolatrar Leônidas definitivamente. Pela primeira vez, aliás, o Brasil se fez representar por seus melhores jogadores. Sob o comando de Ademar Pimenta chegou em terceiro lugar, e o centroavante  terminou a competição coberto de elogios e como seu artilheiro com sete gols. Um dos gols de bicicleta, a jogada que o marcou para sempre no vasto repertório de Leônidas (ele pode até não ter inventado, mas, no mínimo, foi quem apresentou o lance ao mundo). Vestiu a camisa do Brasil em 37 jogos e marcou 37 gols, sendo 18 oficiais e 20 gols. Foi o primeiro brasileiro a brilhar num Mundial e também a conquistar a artilharia de uma Copa. 

 

Leônidas regressou aclamado por críticos de todo o planeta, especialmente da Europa. Raymond Thourmagen, do "Paris Match", sintetizou: "Existe, entre os brasileiros, uma centopéia,  capaz de desequilibrar qualquer partida", disse. 

 

Sobre a famosa "bicicleta", ele não foi o primeiro a executá-la. A primazia coube a Petronilho de Brito, que defendeu o Ypiranga e Independência, ambos de São Paulo, e o San Lorenzo de Almagro, da Argentina. Petronilho nasceu em 1904 e morreu em 1983 na capital paulista Leônidas foi responsável, apenas, pela popularização da mesma. Nos tempos de Petronilho, não existiam transmissões esportivas. Cronistas da época, como Max Valentim e Mauro Pinheiro, no entanto, fizeram questão de registrar seus feitos. Leônidas também não teve a TV como aliada, mas os locutores de rádio sempre caprichavam na descrição de suas jogadas, especialmente quando ele executava o lance que ajudou a torná-lo famoso. 

 

Leônidas da Silva teve pouco de sua obra documentada. Quando surgiu a primeira emissora de TV no Brasil, em 1950, o craque estava pendurando suas chuteiras. Quando iniciou a carreira, nos anos 20, o futebol sequer era profissional, e ainda não se dava, ao esporte, a importância que ele já merecia. Restaram, por isso, poucas imagens. Apenas raros registros de algumas publicações especializadas, e a memória dos que testemunharam o craque desfilar o jogo elegante e marcar gols em profusão. É um personagem de grande importância para o período de transição entre o regime amador e o profissional, e é impossível compreender o futebol brasileiro sem conhecer um pouco da história deste atacante. 

 

Leônidas foi um dos principais responsáveis pela elevação da popularidade do futebol no Brasil. Primeiro, pela perfeição com que dava uma bicicleta; segundo, por ter sido o maior astro da Seleção Brasileira de 1938, terceira colocada na Copa do Mundo da França. No fim da década de 30, costumava-se dizer que o Brasil tinha três ídolos: Getúlio Vargas, o Presidente da República, que se notabilizou por sua política populista; Orlando Silva, o “Cantor das Multidões”; e Leônidas da Silva, atacante do Flamengo, campeão carioca em 1939. 

 

Durante muitos anos Leônidas foi comentarista esportivo do rádio paulista. Sofreu por um longo período de mal de Alzheimer. Tinha câncer de próstata e morreu aos 90 anos de insuficiência respiratória numa clínica geriátrica, em Cotia, interior paulista, em 24 de janeiro de 2004.

 

 

 


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

OS IMIGRANTES - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Em minha rua havia três famílias de imigrantes italianos: Roque Magaldi, sapateiro, Alfredo Mercante, agricultor e Otéria Utrine Tancredi, que mantinha uma padaria, construída com esteio de braúna, as portas e os portais feitos de madeira bruta, assim como o assoalho e forros. Tinha as vitrines de madeira com vidros brancos, um balcão grande e largo, com uma fenda em cima da gaveta, onde se jogavam as pratas dos pães vendidos. Por essa fenda, o Zé Capetinha roubava as notas, amarrando uma formiga cabeçuda pelo meio e puxando a linha com o dinheiro pego pela formiga.

Dona Otéria trabalhou na padaria por muitos anos, foi casada com Nicolau Tancredi, que a deixou viúva com quatro filhas e um filho, que vive até os dias atuais. Após muitos anos de trabalho, deixou a direção da padaria para sua filha Hilda, e com o passar dos anos víamos sempre sentada em uma cadeira na calçada, com aqueles cabelos brancos, óculos de aro de ouro, sempre a tricotar.

E, ao fazer referência à Dona Otéria, presto uma homenagem aos imigrantes italianos que aqui aportaram nos idos de 1880 até 1922, em busca da terra prometida.
Muitos deles se destacaram, assim como Francisco de Poly, construtor que foi o responsável por vários prédios construídos e hoje tombados pelo patrimônio histórico, por sua imponência de beleza. José Giudice, atacadista e comprador de café nos áureos tempos, que trouxe um surto de riqueza e fez com que Miracema crescesse com a vinda de Estrada de Ferro, a Usina de Açúcar, a Cerâmica, o Cinema Sete e Quinze, o Hospital, o Aeroclube, a Fábrica de Tecidos São Martino, calçamentos de ruas e outros empreendimentos da época.

Rozário Zaap, pessoa humilde, mas que fez com que o nosso jardim tivesse a beleza que vemos nos dias atuais, pois foi o responsável pela plantação de quase todas as árvores e palmeiras existentes até hoje.

E, ao terminar esta crônica, queremos aqui enumerar as famílias de imigrantes italianos que para aqui vieram e fazem parte do nosso convívio: Mercante, Granato, Jacuzi, Utrine, Zacarias, Rizzo, Escotelaro, Perlingeiro, de Poly, Rossi, Derossi, Magaldi, Senra, Giudice, Ciufo, Malagris, Bruno Benedito, Andreosi, de Martino, Berardi, Letiere, Gripa, Cava, Aversa, Montes, Maioli, Provinciali, Barbi, Tancredi, Fravoline, Pelegrine, Sentinele, Titoneli, Sardela, Spinoso, Bereta e outros que talvez tenha deixado de mencionar.



sábado, 1 de setembro de 2018

OTTO GLÓRIA: UM TÉCNICO DE RESPEITO INTERNACIONAL


Otaviano Martins Glória nasceu no Rio de Janeiro em 9 de janeiro de 1917. Veio a falecer também na cidade carioca em 4 de setembro de 1986, aos 69 anos, não resistindo a uma infecção renal aguda. 

Otto Glória começou sua carreira de esportista como jogador e técnico de basquete, sendo levado para o futebol pelo amigo Flávio Costa. Oto foi um dos primeiros treinadores a adaptar alguns fundamentos de outros esportes nas suas táticas, como sentido de coletividade. A atitude revolucionou o futebol brasileiro.

Apesar de dirigir com sucesso clubes brasileiros, destacou-se e tornou-se referência no futebol europeu. Porto, Benfica, Sporting, Belenenses, todos de Portugal, e Olympique de Marseille, da França, foram alguns dos clubes que Otto Glória comandou. O ápice de sua carreira aconteceu na direção da seleção portuguesa na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Conquistou o terceiro lugar.

Seleção de Portugal na Copa do Mundo de 1966

Esse permanece como o melhor resultado de Portugal na história das Copas até hoje. No mesmo Mundial, Portugal derrotou o Brasil por 3 x 1, e sepultou nossas esperanças de classificação. Oto foi o primeiro técnico brasileiro a dirigir uma seleção estrangeira em Copas. Também foi o último técnico a ser campeão paulista com a Portuguesa de Desportos, em 1973.



Seu lugar está reservado entre os grandes estrategistas, estudiosos e frasistas do futebol brasileiro e mundial. Duas frases que ouvimos até hoje e foram criadas pelo saudoso Otto Glória:

- Quando o time ganha, o técnico é bestial. Quando o time perde, o técnico é uma besta
- Não posso fazer uma omelete sem ovos

Clubes como treinador:  

1948 – Botafogo
1951, 63, 79, 83 – Vasco da Gama
1954-59, 1968-70 – Benfica
1959-61 – Belenenses
1961, 1965-66 – Sporting
1962 – Olympique de Marseille
1964-65 – Porto
1966-68 – Atlético de Madrid
1971-72 – Grêmio
1973-75 – Portuguesa
1977 – Santos
1978-79 – Monterrey