segunda-feira, 30 de abril de 2018

OBRIGADO, DR. NEY MENNA GUTTERRES!

Foto do Instagram de Ricardo Tostes 

HOMENAGENS EM VIDA SÃO MARCANTES E INESQUECÍVEIS PARA O HOMENAGEADO; HOMENAGENS PÓSTUMAS SÃO APENAS LEMBRANÇAS PARA OS FAMILIARES.

Um amigo é alguém que sabe a canção de seu coração e pode cantá-la quando você tiver esquecido a letra. 

Sem palavras para descrever o que presenciamos no encerramento do desfile cívico escolar no último domingo de abril (29), quando o Dr. Ney foi ovacionado do início ao fim da Rua Marechal Floriano, reconhecimento esse por todos os serviços prestados em prol da medicina. O seu nome, Dr, Ney, está escrito e gravado com letras douradas em nossos corações! Chega a ser difícil conseguir as palavras certas para traduzir o agradecimento que o senhor merece. As lágrimas que derramamos durante a homenagem foram de alegria por compartilhar da sua “alegria” ao lado de seus familiares e de seus amigos.

Ser médico, não é simplesmente fazer uma opção. Ser médico, não é uma profissão como outra qualquer, pois você vai cuidar de um ser humano, você tem que salvar vidas, e para isso tem que trabalhar com o coração. A sua área específica tem o dom único e o prazer de ajudar a trazer novas vidas a esse mundo. Há médicos do corpo e médicos da alma. Felizes são aqueles que, como o senhor, conseguem reunir as duas profissões. 

Muitas vezes o remédio mais importante para o tratamento de seu paciente não se encontra nas farmácias. Ele é composto por respeito, carinho, dedicação e pode ser oferecido a cada consulta. Essas três palavras mágicas, “respeito”, “carinho” e “dedicação”, tão ausentes no mundo que vivenciamos, fazem parte de sua trajetória na medicina.

AVANTE MIRACEMA!


quinta-feira, 26 de abril de 2018

MINHA RUA - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Passamos a vida fazendo as mesmas coisas todos os dias. Às vezes em minha rua, fico reparando os meus vizinhos. Bem cedo, antes do amanhecer, escuto o barulho do varredor começando a sua lida diária. O barulho do cilindro da padaria já deixamos de ouvir há tempos, hoje são mais modernos.

Às seis da manhã chega o jornaleiro, entrega seus exemplares e na volta passa recebendo. O Altair passando assobiando baixinho e balançando a cabeça ao fazer seu cooper diário. Antes das sete, vejo o primeiro a abrir sua loja, o Chiquinho Alfaiate, que abre, pega a mangueira e molha a rua todos os dias, invariavelmente. Quando chega a noite, após a varredura, pega a vassoura, esfrega-a na árvore para eliminar a poeira e tira com as mãos alguma coisa que ficou agarrada na mesma.

Abaixo um pouco, o Thiara com seus badulaques a ornamentar a calçada, com bolas, calcinhas, óculos, cintos e muitos outros objetos que são protegidos do sol por uma lona azul. Mais acima, o Garibalde, sempre sentado numa cadeira de praia, onde fica por várias horas durante o dia. A Cilene, todas as manhãs a jogar água em frente ao Supermercado Real. A Tânia com sua barraca de bijuterias com relógios, carteiras, fitas, brinquedos e muitas outras coisas a mais, na calçada do Wilson há mais de dez anos.

A Cecéia coloca todos os dias na calçada os seus artigos para expor: pias, canos, arame farpado... mostruários para atrair os seus fregueses, de onde as mercadorias são levadas pelo seu caminhão.

As empregadas domésticas a descer todos os dias, carregando as suas bolsas, para o trabalho. O movimento dos alunos em direção à escola, o locutor da Rádio Princesinha que chega à porta para apreciar a paisagem enquanto a fita está rodando. O caminhão do lixo sempre ao meio-dia.

Ainda tem o Fernando Chaveiro, que conserta de tudo, amola tesoura e mais, sempre deixa uma placa com o aviso: “Volto já”. O Carequinha dentista, sempre atrasado e sem pressa para atender os seus pacientes. O Beto, no Bar do Pernoca, pintando na tabuleta: “Hoje tem feijoada”. No outro dia: “Hoje tem canjiquinha com costela”. O carteiro, que passa sempre às três horas da tarde há mais de vinte anos. No açougue do Betinho, que fica ao meu lado, começa cedo o movimento. Muita água para fazer a limpeza. Depois chega o caminhão do Matadouro, com o boi abatido, que vai para o gancho para ser desossado. Depois da venda diária, na hora de fechar, toma sua cervejinha no Zé Amim, porque ele não é de ferro. Do lado direito, o Tetinho, sempre cochilando numa cadeira. Quando acorda, queixa-se de uma injeção que tomou há mais de trinta anos. E o vigia noturno, que vejo mais de dia do que de noite. Cinco ou seis sexagenários (brochas) que após fechar a Loja do Marcellino, sentam na porta para falar de sexo e mulheres.

E assim a vida vai continuando sempre a mesma, a repetir dia-a-dia os nossos hábitos, e nessa trajetória diária, vamos vivendo, e junto conosco envelhecendo também as árvores de nossa rua, aonde os pardais, todas as tardes, às cinco e meia, vêm chegando com um alarido em profusão para buscar o abrigo e o agasalho das folhas para passarem a noite. No outro dia bem cedo, no alvorecer, parte em bando com seus trinados a procura de alimento.
Ouço o sino da Matriz bater as horas. E começa tudo outra vez.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

MOTORISTAS E CAMINHÕES - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Quando menino ficava embevecido ao ver passar em frente a minha rua, ainda sem calçamento, aqueles caminhões da época: Chevrolet tigre ano 38 carregado de tonéis de aguardente, escrito em sua traseira, Leão da Serra. Chevrolet Gigante ano 42 carregado de lenha para ser vendida para as padarias.

E foi em um caminhão Chevrolet 38 que João Cláudio levou a mulher e oito filhos em direção ao Paraná, atrás da corrida do ouro verde, que era o café, voltando somente após a guerra, com o dinheiro depositado no bolso da cueca, hospedando-se no hotel do turco José João na Rua das flores.

E tempos depois, já com mais idade, fiz diversas viagens de carona com motoristas meus conhecidos, só para matar meu desejo do passado. Aos 14 anos fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez, na carona do caminhão International que pertencia ao Djalma Candinho, levando quase uma semana para chegar. Pela primeira vez presenciei o sofrimento de um motorista que carregava ajudante, enxada, enxadão e correntes para serem amarradas nos pneus. No Morro do Serrote, era como se chamava a serra em direção a cidade de Leopoldina - MG, onde se pegava o asfalto Rio-Bahia, cinco ou seis caminhões ficavam atolados no barro por dois ou três dias até parar a chuva e desagarrarem. Sebastião Magalhães fornecia comida a todos os motoristas que ali ficavam dias e noites batendo papo, tomando pinga para debelar o frio, comendo feijão tropeiro e arroz carreteiro.

Com o passar dos tempos foi chegando novos caminhões da marca International NV-AC, L160, L180. Ford F6 escrito em sua traseira: adeus pampa mia, F8 Big Job, F600, Dodge, Studebacker. São muitas as histórias dos caminhoneiros que mantive relações de amizade, por motivos outros vou mudar o nome de alguns.

Na época da construção de Brasília, fui de carona com meu amigo Dalton levar pedras para a embaixada da Rússia. Dalton tinha mudado recentemente para Miracema, vindo de Mar De Espanha, lá deixando dívidas com um motorista seu amigo, e, nessa viajem, ao pararmos para jantar num vilarejo chamado Cristalina, terra de pedras coloridas onde os habitantes faziam anéis e outros objetos de adorno. Vejo que o Dalton começou a se esconder. Perguntei o que estava acontecendo. “Que azar, neste fim de mundo o meu credor está justamente onde estamos”. Teve que se desculpar com o credor, só não pagou.

João Bichoca foi parar na fazenda do Chicrala Amim em Rio Doce. Lá chegando, vestiu o pijama do Chicrala, fazendo-se passar por seu sobrinho. Mandou matar um garrote, fez um churrasco, comeu os perus bronzeados, carregou o caminhão de toras e veio vender para o próprio Chicrala para pagar as prestações que devia do caminhão.

Francisquinho trabalhava com aguardente, tinha dois caminhões. Um vermelho, outro branco. Carregava 10 mil litros toda semana para São Paulo, que entregava a uma firma revendedora. Como o gerente não conferia a carga, toda semana ele acrescentava 500 litros d’água, chegando ao ponto de um dia levar somente água. Quando o gerente o chamou atenção, ele se desculpou dizendo que havia levado o caminhão errado, o branco em vez do vermelho.

Genuíno fez uma sociedade com seu pai Olegário. Bate com o caminhão e pede ao Olegário 300 cruzeiros para o concerto. Diz o Olegário: somos sócios. Vou te dar 150. Mas eu bati do lado do carona, diz o Genuíno, é onde fica a sua parte na sociedade.
O Manoelzinho e o Gonzaga viajavam sempre juntos e todos os dois mancavam de uma perna. Procuravam carga sempre para os mesmos lugares, sempre levando com eles mulheres que apanhavam pelas estradas, e paravam sempre no bar do Antenor. Passando os dias, levaram consigo as esposas, e ao chegar ao bar do Antenor, para as refeições, Antenor chamou-os à parte e disse: vocês sempre trouxeram umas mulheres mais ou menos, mas hoje trouxeram dois bagulhos de dar pena!

E na espera das cargas sempre batem um papo onde um diz Plimouth, o Citroen está uma Mercury. Ninguém tem Dodge da gente, mas eu não Lincol. A gente Nash, Ford, Ford faz Fiat, não sai de Simca nem Kaidelak. E quando os netos nos chama de Volvo, a gente Morris e Reossuscita. Outro diz, quando saí de casa a mulher me disse: deixa 100 reais para eu pagar o Supermercado. Fui à casa da amiga, ela me disse: deixa 200 para eu comprar umas roupas. Passo na casa de minha mãe e ela me diz: toma meu filho, 300, para você comprar o que precisar.

A vida de motorista de caminhão tem horas alegres e horas tristes. Horas alegres ao bater papo, jogar uma porrinha enquanto espera o frete, falando das garçonetes com os colegas quando bebem uma geladinha, ou água que gato não bebe. E as horas tristes em caminhos distantes ao lembrar-se da mulher e dos filhos que há muitos dias não se veem.     

quinta-feira, 12 de abril de 2018

TRIEL: UM ÍDOLO DO FUTEBOL GOIANO



Sebastião Hercules do Nascimento, mais conhecido como Triel, nasceu em Miracema (RJ), em 6 de novembro de 1950. Filho de Milton Pedro do Nascimento e Eva Rocha do Nascimento é mais um miracemense que se aventurou no mundo da bola. 
São Cristóvão 1972
Em pé: TRIEL, Norival, Celso, Jair, Dias e Almir;
agachados: Valdo, Alexandre, Eraldo, Madeira e Ivo.  
Esse ex-lateral-direito começou nas categorias de base do América, junto com o ex-lateral Nelinho, que naquela época jogava de volante, e por um breve período também teve a companhia de um garoto chamado Arthur, ainda muito franzino e que por lá ficou pouco tempo. Esse garoto em questão depois ficou conhecido como Zico. O resto da história todo mundo já conhece.
Botafogo-SP 1972
Em pé: TRIEL, Julio Amaral, Adalberto, Poli, Manoel e Roberto;
agachados: Geraldão, Maritaca, Alexandre Bueno, Jorge Demolidor e Luís Carlos. 
Voltando a falar do nosso conterrâneo, apesar de torcer pelo Vasco, uma de suas grandes decepções no futebol foi não ter assinado contrato com o Flamengo, onde fez testes e não ficou. Do América ele foi para o São Cristóvão e assim iniciou sua carreira profissional. Passou depois por Botafogo-SP (1972), Goiás (1972-1978) e Vila Nova-GO (1979-1981), onde pendurou as chuteiras. Além de ter sido um ótimo marcador, outra de suas virtudes era o potente chute.  
Em pé: TRIEL, Matinha, Marcus, Juci, Milton e Donizete;
agachados: Piter, Luciano, Pastoril, Lincoln e Rinaldo.

Triel foi ídolo do Goiás e um dos grandes jogadores do clube esmeraldino naquele período. Jogou ao lado do goleiro Amauri, outro destaque, nascido em Santo Antônio de Pádua. Transferiu-se para o maior rival do Goiás, o Vila Nova, onde também conquistou títulos e se preparou para encerrar a carreira. Essa transferência foi muito polêmica por se tratar de um jogador muito querido pelos torcedores do Goiás. Com toda sua experiência, Triel soube contornar a situação e também se destacou no Tigre goiano.
Em pé: TRIEL, Timora, Zé Luís, Roberto Oliveira, Valdo e Gabriel;
agachados: Zé Henrique, Erivelto, Roberto, Zé Ronaldo e Paulinho.
Com tudo isso, até hoje goza de muito prestígio no futebol goiano. Chegou a exercer a função de técnico e trabalhou em alguns times do estado de Goiás e da região central. Fixou residência em Goiânia onde curte sua aposentadoria.






terça-feira, 3 de abril de 2018

MEU ALFAIATE - POR JOSÉ ERASMO TOSTES




Na década de cinquenta, em Miracema, havia nove alfaiatarias. Isto mostra como os homens se vestiam bem naquela época. Usavam tecidos como casimira Aurora, tropical Inglês, linho S-120, York Strit, Panamá, Caroá e até o brim cáqui. Em todas as solenidades e em todos os bailes os homens sempre se apresentavam de terno e gravata. A vida em nossa cidade era mais calma, poucos carros transitavam pelas ruas. Nas calçadas viam-se famílias sentadas reunidas batendo papo. Tínhamos o nosso médico de família; lembro-me certa ocasião em que meu pai mandou que eu chamasse o doutor Moacyr para uma consulta, e em menos de hora o mesmo estava chegando todo em terno de linho branco e gravata vermelha. Logo após a consulta a conversa descambou para o assunto de uma caçada, já que o mesmo era exímio caçador de paca. Ele começou a contar a caçada que fez junto com o seu amigo Manoel Valeiro, e fazia os gestos com as mãos como atirava, ajoelhava no chão e fazia a pontaria e imitava o cachorro latindo, até que o cachorro caiu numa fenda da pedra e ele teve que sacrificar o animal.

Mas voltando ao assunto dos alfaiates, as nove alfaiatarias eram do Sebastião Samel, Argeu Rangel, Zico Faria, Nilo Caldas na Rua Coronel Josino e outras três na Rua Direita: Amaro Leitão em frente ao Hotel Braga, em que trabalhavam os meus amigos apelidados de Botina e Coelho, a do Ernesto Granato, um italiano, em frente a Força e Luz. O Ernesto transformava em todos os carnavais a sua alfaiataria num bazar para vendas de artigos para o carnaval. Vendia de tudo: fantasias, máscaras, lança-perfume, confete e serpentina. Cem metros dali ficava a Alfaiataria do Dante Barbi, que tinha grande clientela. Às tardes, após o serviço, sempre tinha os jogadores de dama costumas, e nos fundos se jogava pif-paf. As outras duas ficavam na Rua Paulino Padilha, a dos irmãos Mercante, com o Noqueta talhando os ternos num corte mais moderno, como os de hoje. O Argentino e o Tiússa, seus irmãos, como ajudantes, além de diversos oficiais que trabalhavam na oficina e outros que faziam o serviço de acabamento em casa. Em certa ocasião, os Mercantes transferiram a alfaiataria para a Travessa do Ouvidor, no Rio de janeiro, mas depois retornaram. O Noqueta jogava bola no time do Tupã. Fazia ala de beque com o Jaminho.

Mas de todos esses alfaiates o meu era o Pepito. Talvez por ser o meu vizinho e ter ficado viúvo muito cedo. Ás vezes fazia as refeições em nossa casa. Pepito era baixo, meio gordo, pouco cabelo e gostava de usar chapéu, como era costume na época. Sua alfaiataria, que era simples, tinha dois manequins, um espelho, cadeiras de palha de taboa trançada, um ferro de brasa que deveria pesar seis quilos. Gostava de bater papo com ele, apesar de ser mais novo, mas gostava de ouvir as estórias que contava sobre os carnavais, onde ele passava todos os anos no Rio de Janeiro.

Pepito era meio excêntrico, ao mesmo tempo espirituoso, um pouco maldoso, como diziam, do bucho ruim. Tinha um freguês, o Sr. Amim do Cacheado, que pesava uns 150 quilos e era enjoado para roupa. Todo dia mandava ora abrir uma, ora apertar outra roupa, às vezes só passava, e ele ficava satisfeito. Pepito dizia que fazer roupa para o Sr. Amim era o mesmo que colocar lona em um circo. Certa ocasião o Adelino da padaria pediu que fizesse um terno para ser testemunha de um casamento. Diz o Pepito: “Me traz tantos metros”. E o Adelino, para fazer economia, trouxe menos um metro de pano.
 
- Não vai dá.
- Pode fazer que dá.

Pepito fez mais curto. Nas pernas das calças e nas mangas do paletó ficaram faltando pano. E o Adelino não foi ao casamento.