sábado, 10 de novembro de 2018

A BORBOLETA E SUA NATUREZA – POR BEBETO ALVIM



A borboleta negava-se a voar.
A natureza, porém, insistia que ela o fizesse;
Afinal, voar era a sua prerrogativa.
Mas, relutante, a borboleta dizia não,
Privando a todos do seu voo de majestade asas,
Multicoloridas, em tons e nuances.
Arrebatava suspiros,
Atentos olhares,
Bocas entreabertas.
A admiração se espalhava,
Tomava conta pela magia de sua beleza,
E todos pediam, rogavam e até choravam,
Conclamando que ela realizasse o tão esplêndido voo.
Mas ela dizia não.
E o impasse começou.
E continuou perpetuando pelo tempo de seu arbítrio.
E a alegria de sua alegoria sumiu das pessoas, que,
Em histeria geral, entravam em terrível desespero.
E a revoada nos ares,
Quais efemérides, desapareceu do céu e deixou todo mundo triste.
Ela própria amuou.
Dizia estar exausta, por tanto voar.
Alegava velhice e doença.
Mas o certo era que, além da cadeia alimentar,
Que a natureza se houve por bem administrar,
A terrível mão Homem
Encarregava-se da execução
Da pior e mais nociva parte.
Provocando impactos letais aos aspectos finais.
Privando o Mundo de esfuziante beleza.
Até que um inesperado dia...
A borboleta novamente alçou voo.
E voou, voou, voou...
Dias e dias sem parar.
Apesar da admiração que causou
Parecia estar se punindo tal o incessante voar.
Mas, assim como voltou a voar,
O belo inseto voltou a parar,
Como se sua vida esvaísse.
Fixou-se em uma parte do tronco
Em que seu mimetismo melhor funcionava
E lá ficou... até secar.
Por que a borboleta parou de voar?
Por que a borboleta voltou a voar?
Por que a borboleta voou até morrer?


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

HELENO DE FREITAS: UM GÊNIO DA BOLA, UM CRAQUE TEMPERAMENTAL



Um dos atacantes mais clássicos e brigões que o futebol brasileiro já teve, faleceu em 08 de novembro de 1959, ainda muito jovem, aos 39 anos, na Casa de Saúde São Sebastião, na cidade mineira de Barbacena, onde estava internado desde 1954 tratando de uma enfermidade mental – sífilis cerebral. Paralisia geral progressivo foi a causa de sua morte, constatada no óbito. Ele foi enterrado em São João Nepomuceno - MG, sua cidade natal. 

Atacante impetuoso e artilheiro nato, deixando-se conduzir pelo entusiasmo, eram constantes os atritos que provocava em campo, até mesmo com seus próprios colegas, porque não gostava de conhecer o sabor da derrota. Não aceitava passe errado de companheiros e cobrava-os a todo momento. Era um profissional com alma de amador e espírito de menino brigão. Anjo e demônio no futebol.

Quando começou no juvenil do Fluminense, como médio esquerdo, Heleno já mostrava seu espírito irrequieto, sendo expulso pela primeira vez. Não chegou a atuar no time principal do Tricolor, mas conquistou o Campeonato Carioca Juvenil de 1939. Em 1940 decidiu ingressar no Botafogo, e por lá ficou até 1948, marcando 206 gols em 234 jogos. Faz parte da história do Alvinegro e está na galeria dos maiores artilheiros do clube. Estreou no selecionado brasileiro em 1944, atuando em 18 partidas e marcando 11 gols, todas oficiais. O seu melhor momento na Seleção foi no Sul-Americano de 1945, no Chile. O Brasil ficou em segundo lugar, mas o futebol mostrado pelo atacante foi suficiente para despertar a atenção dos dirigentes do Boca Juniors, que mais tarde vieram buscá-lo. Em abril de 1948 vestiu pela última vez a camisa do escrete, seguindo para o exterior. Pela Seleção foi campeão da Copa Roca (1945), e da Copa Rio Branco (1947).

Saiu do Botafogo para o Boca Juniors, na maior transação do futebol brasileiro até então, onde atuou ao lado de vários nomes respeitáveis e deixou a marca de sua personalidade contraditória. Voltando ao Brasil, Heleno de Freitas ingressou no Vasco, em 1949, então sob as ordens de Flávio Costa. Seu futebol ainda era de qualidade e fez ótimas partidas, ajudando o clube na conquista do Campeonato Carioca daquele ano. Mas a sua condição de brigão não foi esquecida. Depois de várias tentativas, deixou São Januário após 24 jogos e a excelente marca de 19 gols, desgastado com o treinador, e mais uma vez seduzido por uma proposta do exterior. Jogou no Atlético de Barranquilla, da Colômbia, tornando-se um verdadeiro ídolo da torcida, como demonstra o fato de ter uma estátua em praça pública na cidade.  Ganhou muito dinheiro dos argentinos e colombianos. 

Quando foi contratado pelo Santos, em 1951, vestiu a camisa na apresentação e não fez sequer um jogo oficial. As confusões se tornaram corriqueiras e acabou sendo demitido. Ninguém mais acreditava no seu retorno ao futebol, quando recebeu e aceitou um convite para jogar no América. No clube rubro, Heleno fez uma única partida, sendo essa a primeira (e última) vez que jogou no Maracanã. O América perdeu por 3 a 1 para o São Cristóvão, Heleno não conteve o seu nervosismo, que chegou ao extremo, foi expulso mais uma vez e nunca mais apareceu no clube. Mais tarde, assim descreveu Heleno sobre esse fatídico jogo: “Eu não podia morrer sem jogar no Maracanã”.

Essa sua fama de brigão era somente dentro de campo. Invariavelmente procurava os companheiros que tinha ofendido para desculpar-se. Heleno era boêmio e frequentador assíduo dos bares e dos bordeis. Ele gastou a bola, mas também teve vida social intensa, embora não fosse de beber. Preferia as mulheres, que conquistava com seu charme e com a elegância que não abria mão de apresentar. Por conta dessa vida tão desregrada, acabou contraindo a sífilis, doença altamente contagiosa.

Em 1952, Heleno é internado pela primeira vez, em uma clínica na Tijuca. A sífilis continuou avançando e consumia a cabeça do jogador, que acabou ficando louco. Declarada a enfermidade de que era vítima, sua família providenciou seu internamento no Sanatório de Barbacena, em 1954. Lá começou a engordar e também a ingressar no time da Casa de Saúde São Sebastião. Mas não esquecera a briga e criava sucessivos casos em campo, tal como fizera muitos anos antes como atleta profissional. Aos poucos foi sendo deixado de lado. Sua mania era guardar recortes que falassem de futebol, assim como discutir táticas e técnica do esporte que sempre o empolgou.

O craque era formado em Direito e falava inglês e espanhol fluentemente. Heleno tinha pinta de ator e ganhou o apelido de “Gilda”, personagem bela e explosiva interpretada pela atriz Rita Hayworth. Vestia-se com ternos sempre bem cortados. O ex-jogador deixou um filho de dez anos.  

Em 12 de fevereiro de 2012, foi homenageado em sua cidade natal, São João Nepomuceno, que fica na Zona da Mata mineira, com uma estátua de bronze de 2,30m na praça Barão do Rio Branco, no centro. Homenagem essa efetuada pela prefeitura municipal, quando seu filho ilustre completaria 92 anos.

Heleno nasceu bem de vida e terminou precariamente em um sanatório, completamente louco. A sua trajetória no futebol foi marcada por lances geniais, mas seu temperamento incontrolável prejudicou e muito a sua carreira.

Resumindo: Heleno de Freitas faz parte do seleto grupo dos maiores atacantes do futebol brasileiro de todos os tempos.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

O BOM VICENTE FEOLA - POR JOSÉ MARIA DE AQUINO




Nota: texto publicado na revista Placar de novembro/1975. 

Um humanista do futebol, tranquilo até na hora da morte. Para o humano Feola, jogador era gente.   

Um campeão discreto, um conhecedor dos homens, um cultor do futebol. Esse foi Vicente Feola que poucos conheceram. Bem mais conhecido foi o folclore que o envolveu – preço pago pelo técnico da primeira Seleção Brasileira campeã do mundo pela sabedoria que o fez estar, quase sempre, à frente de seu tempo – no respeito ao jogador, no sentido humanista que tinha do esporte. É que soube conservar – até a morte.

Para quem nunca privou mais de perto de sua amizade, ouvindo seus conselhos, participando de suas histórias, sentindo em cada palavra que dizia uma ponta de sabedoria, a imagem – falsa – que ele refletia podia ser mesmo aquela do dorminhoco. Do técnico de poucos conhecimentos que abandonava o time em campo e que só conseguia ganhar jogos e títulos porque não complicava.

Uma imagem que não o incomodava e que ele, quase sempre, analisava com boa pitada de ironia. As palavras podiam mudar, mas o sentido da resposta era sempre o mesmo.
- Isso nunca me atingiu. E eu até que podia me dar a esse tipo de luxo, essa falsa impressão. Eu tinha Zagalo no time. Ele foi o jogador de maior percepção que já tive sob minhas ordens. Sempre me perguntam se o mais importante não era o Zito e eu sempre respondo que ele era bom porque não deixava a faísca sumir, a chama se apagar. Mas o orientador, o crânio era, sem a menor dúvida, o Zagalo.

Filho de imigrantes italianos, os pais queriam vê-lo médico famoso e tiveram que se contentar com as glórias de um técnico que só não foi fielmente reconhecido aqui no Brasil. Estranho, mas verdadeiro. Técnico da seleção campeã do mundo em 1958, na Suécia, exatamente aquela que marcou o fim de uma época de desorganização e o início de um período em que um jogo, um título, começou a ser ganho também fora do campo, nunca lhe renderam as homenagens, nunca lhe deram as glórias que, por exemplo, dedicaram a Zagalo, seu discípulo, depois da conquista em 1970, uma conquista evidentemente mais fácil.

Foi o técnico que perdeu a Copa da Inglaterra, em 1966, aquela que antes parecia bem fácil de ser ganha e não foi crucificado, amargurado, quase banido como foi Flávio Costa depois da derrota de 1950. Se depois da primeira não lhe reconheceram todo o valor, na segunda souberam sentir e medir que era bem pequena sua parcela de culpa. Uma dimensão que também ele, sem confundir sinceridade com amizade, fazia questão de não esconder.

O humanista
- Eu também acho que quem perdeu a Copa foi o meu amigo João Havelange. O chefe é sempre o culpado pelo fracasso de qualquer empreendimento. Nunca o funcionário, o pequeno empregado. E o Havelange era o chefe de tudo, aquele que deu as ordens e fez as exigências.

Sua parcela de culpa, dizia sempre, estava resumida ao fato de ter aceitado as exigências do povo e de parte da imprensa. Tinha sentido que seria impossível ganhar a Copa de 66 com os mesmos jogadores de 58 e 62, tentou formar uma base inteiramente nova com Carlos Alberto, Brito, Joel, Gérson, Jairzinho, naquela seleção de 1963, e acabou sendo dobrado pelo amor que o povo cria por seus ídolos. E os ídolos ainda eram Garrincha, Gilmar e outros.

Em 1958 insistiu na convocação de Pelé e brigou para que não o tirassem da relação por estar contundido. Sentia que aquele negrinho podia ser a chave de tudo e correu o risco de disputar a Copa com apenas 21 jogadores. Poucos sabiam, mas foi num papo descontraído, num canto sossegado – como gostava – que convenceu Garrincha de que devia centrar as bolas onde estava Vavá, e nãop chutá-las na rede, como andava fazendo. Preveniu Vavá para que não reagisse se o ponta lhe dissesse alguma coisa e armou seu esquema.
- Mané, você já percebeu que o Vavá está chegando atrasado, perdendo todos os seus centros? Vamos fazer uma coisa: você agora vai centrar um pouco mais para dentro.


Garrincha deu uma bronca enorme em Vavá e nunca mais chutou bolas na rede. Foi o primeiro técnico brasileiro a dirigir um time com humanidade, bondade e sabedoria. Começou assim em 1937, quando chegou ao São Paulo, e era assim até três meses atrás, antes de ser definitivamente internado no Hospital Santa Catarina, vítima de um colapso cardíaco e de complicações circulatórias, proibido de receber visitas, e onde morreu no último dia 6, cinco dias depois de ter completado 66 anos de idade.

Viveu 38 anos ligados ao São Paulo, foi seu técnico várias vezes, ganhou os títulos de 1948 e 1949 e sempre que ficou de fora, na secretaria, nunca negou seu apoio aos técnicos que eram contratados. Olheiro da Seleção Brasileira desde 1949 foi auxiliar de Flávio Costa na Copa de 1950, técnico em 1958 e 1966 e só não foi ao Chile, em 1962, porque na época sofria delicada crise renal.

O pioneiro
Antes dele os técnicos eram mais conhecidos pela quase tirania com que dirigiam o time, não entendendo, como ele, que nem todos podiam ser vistos como marginais. Em 1945 já levava o time do São Paulo para se concentrar em Campos do Jordão antes de jogos mais importantes e nessa mesma época já falava e escrevia sobre a necessidade de se organizar um bom departamento médico, de se cuidar dos dentes dos jogadores, do asseio corporal, do bom preparo físico, feito de maneira científica, e de se fundarem escolinhas de futebol, um sonho que o São Paulo procurou realizar, que concretizou definitivamente no princípio deste ano mas que ele não pode sentir mais de perto.


 Sempre gordo, tranquilo e bom observador, não gostava de meias palavras. Vivia dizendo para Paraná que, se não fosse tão teimoso e se não estivesse tão errado com relação a certas coisas, ainda seria o ponta-esquerda titular do São Paulo. Contratou Leônidas em 1942 e não permitiu que ele parasse em 1947, quando ainda tinha bom futebol para dar. Trouxe Poy da Argentina quando tinha apenas 18 anos, cuidou de Bauer, de Canhoteiro, de Roberto Dias e de quase todo garoto bom de bola que começou o passou pelo São Paulo.

Mais admirado no exterior – foi técnico do Boca Juniors da Argentina em 1959 – do que no Brasil, foi apresentado como o inventor do 4-3-3, mas parecia não dar a mínima importância aos elogios.
- Sabe o que é tática para mim? É reunir uma equipe que se entende bem.A maneira de jogar surge do entendimento do grupo. Depois do WM ninguém inventou mais nada.

Algumas vezes falou dos críticos, dos entendidos.
- Eles sempre ganham os jogos depois que foram realizados. No papel e sem adversário pela frente é muito fácil.

Vicente Ítalo Feola morreu tranquilo como sempre procurou viver e seu enterro foi acompanhado por bom números de amigos. Gente que de alguma maneira ganhou com sua experiência. Dirigentes, jornalistas, jogadores e torcedores. Gente que mais tarde, não apenas porque agora ele morreu, talvez entenda a importância que ele teve para o futebol brasileiro.

Nota: Vicente Feola nasceu em São Paulo no dia 1º de novembro de 1909. Também faleceu na capital paulista em 6 de novembro de 1975.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

AÉRTON PERLINGEIRO: UM COMUNICADOR DE DESTAQUE DA TV BRASILEIRA


Minhas considerações:

Aérton Perlingeiro nasceu em Miracema no dia 28 de dezembro de 1921. O local de seu nascimento foi confirmado por seu filho, Jorge Perlingeiro, conhecido comunicador carioca e que apresenta há muitos anos a apuração dos desfiles das Escolas de Samba. Antero Perlingeiro e Jandira Belizário Perlingeiro são os nomes dos pais de Aérton. Ele foi um apresentador de rádio e TV, e por décadas teve muito prestígio. Lembro-me perfeitamente de seus programas e, naquela época, comentava-se muito por aqui que ele havia nascido em Santo Antônio de Pádua. Já ouvi relatos que ele nasceu próximo ao distrito de Paraíso do Tobias, que faz divisa com Pádua. A família Perlingeiro é muito tradicional na cidade vizinha de Santo Antônio de Pádua.

 

Abaixo transcrevo o texto de Billy Brasil, publicado no Recanto das Letras, em 27/01/2014.

 

Aérton Começou sua carreira artística em 1943, na Rádio Transmissora, no Rio. Sempre como apresentador e locutor. Transferiu-se par a Rádio Tupi, Rádio Fluminense e para a Rádio Clube.

 

No ano de 1956, foi para a televisão. Em São Paulo, o colega Aírton Rodrigues criou o programa “Almoço Com As Estrelas”. E o mesmo fez Aérton Perlingeiro no Rio de Janeiro. Ambos os programas foram um sucesso e tinham o mesmo formato: Uma mesa grande, para um almoço rápido e vários cantores, atores e personalidades nacionais eram entrevistados.

 

No Rio, Aérton era o mestre de cerimônias, além de ser também o produtor. Naquele tempo era assim e por isso ele e Aírton Rodrigues tinham muito trabalho. Mas tinham também muita fama e estima por parte de toda a classe artística, que desejava muito aparecer nesses programas.

 

Tanto o programa de São Paulo como o do Rio, era transmitido na hora do almoço de sábado e ficavam no ar por várias horas. O programa do Rio chamava-se Aérton Perlingeiro Show e existiu de 1956 até 1980, quase 30 anos no ar, só terminando quando a emissora faliu. O programa de Aérton teve 2204 edições. Tinha alguns quadros e o que era dedicado ao Samba, Jorge Perlingeiro, seu filho, apresentava.

 

Aérton foi um recordista da televisão brasileira. Personalidade muito querida pela classe artística foi um grande incentivador dos cantores populares e do teatro brasileiro. No seu programa, marcavam presença gente importante como Fernanda Montenegro, Fábio Junior, Sidney Magal e o proprietário das Emissoras Associadas, Assis Chateaubriand.

 

Criou o troféu O Velho Capitão, busto de bronze representando a figura de Assis Chateaubriand. Esse troféu foi entregue para mais de 300 personalidades, dentre os quais as cantoras Maysa Monjardim, Elis Regina e Elizeth Cardoso e o próprio Chateaubriand, que foi pessoalmente receber o prêmio no programa, três meses antes de morrer. Homem do rádio e da televisão, Aérton foi incansável na promoção da arte, principalmente música e teatro. Por 23 anos ficou na liderança do IBOPE.

 

Aérton sofria de forte bronquite e veio a falecer no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1992, aos 70 anos.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

ROQUE, O SAPATEIRO - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Roque era um sapateiro italiano, meu vizinho. Andava sempre com as botinas engraxadas e um avental amarrado no pescoço. Morava com a esposa e um filho, Miguel.

Roque era um homem forte, ao contrário de sua esposa, franzina, já com os cabelos brancos, e não era muito boa da cabeça. Usava sempre um xale jogado nas costas, óculos redondos com aros de ouro e chinelos de liga. Seu filho Miguel foi criado até rapaz sem sair de casa, tornando-se um técnico em rádio.

A totalidade dos sapateiros em nossa cidade era descendente de italianos, assim como José Poly, Humberto Poly, Oterige, entre outros. Roque, praticamente, foi quem ensinou o ofício à maioria dos sapateiros em nossa cidade.

Eu, garoto ainda, era quem buscava água na mina para o Roque, ganhando com isso sempre um tostão e passava sempre horas em sua casa e na oficina. Os sapatos eram sempre feitos a mão, bico fino, salto carrapeta, solão, chuteiras, botinas, botas alpino. Às vezes o freguês colocava o pé em cima de um jornal velho e tirava a medida, assim como o João Neguinho, um músico da Banda Quinze de Novembro, que para fazer um par de botinas para ele gastava-se o couro de um bezerro. João Neguinho só calçava as botinas quando ia tocar na Banda (era tocador de baixo) e depois as deixava embaixo da cama. Contam que, certa vez, quando foi calçá-las, a gata tinha feito um ninho, deixando dentro delas 12 gatinhos (!).

Eram poucas as pessoas que possuíam rádio naquela época. Em nossa rua, somente o Roque tinha um rádio, GE, para onde todos nós corríamos a ouvir o Repórter Esso, na época da guerra.

À noite, em sua sapataria, jogava-se baralho, amigos e vizinhos. Roque era um italiano Rico. Possuía duas casas na Rua Paulino Padilha e, nos fundos, que dava para outra rua, mais seis casas geminadas.

Eu ficava admirado por minha rua chamar-se Paulino Padilha, enquanto as outras tinham nomes como Rua do Sapo, Rua do Lixo, Rua dos Prantos ou dos Prontos, Rua do Café, Rua da Laje, Rua da Capivara, Rua do Biongo, Rua das Flores, Beco do Inferno, Rua Direita, da Avenida e Praça dos Boêmios. Meu pai, com a calma que lhe era peculiar, começou a enumerar: Rua do Sapo devido a uma mina d’água, onde os sapos coaxavam e faziam barulho, hoje Francisco Dias Tostes; Rua do Café, onde haviam muitos pés de café nos morros, indo em direção ao Hospital (hoje essa rua é dividida em três: Rua dos Gabriéis, Cláudio Aquino e José Monteiro de Barros); Rua dos Prantos, a que ia em direção ao cemitério, ou dos Prontos, onde os moradores tinham baixo poder aquisitivo, hoje Elpídio Portes Mendes; Rua do Lixo, porque servia de depósito para o mesmo, hoje Francisco Cardoso; Capivara, em direção à cidade de Palma, que antigamente tinha este nome, hoje Rua Cândido Dias Tostes, assim como a Rua da Laje, que seguia em direção à cidade de Laje do Muriaé, hoje Avenida Carvalho; Beco do Inferno, onde moravam diversas mulheres que brigavam todos os dias, precisando sempre da intervenção da polícia, hoje Rua Pedro Elídio; Rua do Centenário, inaugurada em 1922, cem anos após a independência, hoje Rua Barroso de Carvalho; Rua das Flores, por ser uma rua onde quase todas as casas tinham em suas frentes jardins ou jardineiras, hoje Rua José Carlos Moreira; e Rua do Biongo, onde haviam dezenas de pequenas casas cobertas de sapé nas quais ficavam hospedados os integrantes de circos que por aqui passavam, hoje Rua Deodato Linhares; Avenida, hoje Rua Santo Antônio, era onde haviam diversas casas de lenocínio comandadas por uma mulher chamada Japonesa, frequentadas pelos homens da cidade; Praça dos Boêmios, onde os mesmos se concentravam no boteco de um turco chamado Farid, hoje Praça José Giudice; e Rua Direita, única rua onde se pagava imposto predial, tinha os prédios melhores e era a mais organizada, hoje Rua Marechal Floriano.

Roque, após a morte da mulher, ficou morando com a empregada, uma mulata de nome Amélia. A esta altura, o Miguel, já homem feito, se tornara técnico profissional em rádios e TV e os aprendizes do Roque, assim como o Anibinha, o Lecy e muitos outros, já trabalhavam por conta própria. Lecy era especialista em fazer sapatos femininos e o Anibinha em solados finos.

Adoece o Roque com um tumor na cabeça, as casas geminadas são vendidas para fazer face às despesas. Morre o Roque. O Miguel assume a casa e, mais tarde, assume também a mulata Amélia. Morre a Amélia e anos depois morre o Miguel, terminando assim a família Magaldi.

E a vida continua... 



quarta-feira, 24 de outubro de 2018

CARLOS ALBERTO TORRES: O CAPITA DO TRI


A jogada foi simbólica, com vários passes precisos e dribles curtos. Pelé recebeu na entrada da área e, sem olhar, rolou a bola para o lado. Carlos Alberto apareceu na corrida e encheu o pé: Brasil 4 x 1 Itália. Foi dele o último gol em uma competição que sintetizou a qualidade do futebol brasileiro. Ao marcar esse quarto gol na final de 1970, o Capitão do Tri também pôs o ponto final numa era de ouro do nosso futebol. O próprio lateral-direito levantou a taça de campeão e trouxe a Jules Rimet em definitivo para o Brasil. A imagem de Carlos Alberto chutando e levantando a taça jamais será apagada de nossa memória.  Também participou da Copa do Mundo de 1974.

Ainda menino, Carlos Alberto Torres já demonstrava sua personalidade forte. Depois de faltar ao trabalho para tentar uma oportunidade no juvenil do Fluminense, seu pai aplicou-lhe uma inesquecível surra. Torres apanhou calado e mais tarde, encarando o pai, disse: “Não adianta o senhor me bater. Quero ser jogador de futebol”. 

Elegante, técnico e de forte personalidade, Carlos Alberto tinha passadas largas e fôlego para atacar e defender com a mesma desenvoltura, coisa raríssima em sua época. Ele é considerado um dos mais completos laterais pelo lado direito que o Brasil já teve. Além das qualidades físicas e técnicas, era um líder nato. Com apenas 17 anos, em 1962, recebeu do treinador Zezé Moreira sua primeira oportunidade para atuar no time principal do Fluminense, onde jogou de 1962 a 1965 e uma breve passagem em 1976 (campeão carioca em 1964 e 1976).


Três anos depois estava no Santos de Pelé, acumulando títulos, de 1965 a 1970, 1972 a 1975 (campeão paulista em 1965, 1967//68/69 e 1973, campeão da Taça Brasil em 1965 e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em 1968). Passou pelo Botafogo em 1971 e pelo Flamengo em 1977. Ainda corria o ano de 77 quando Carlos Alberto foi jogar nos Estados Unidos, pelo Cosmos, de 1977 a 1980 e 1982, ano em que encerrou a carreira, e pelo Newport Beach, em 1981. Foi campeão norte-americano em 1978, 1980 e 1982.

Em 1983 iniciou a carreira de técnico e em seu primeiro trabalho na nova função, foi campeão brasileiro do mesmo ano, dirigindo o Flamengo. Pelo Fluminense foi campeão carioca em 1984 e conquistou a Copa Conmebol, em 1993, comandando o Botafogo. Foi técnico de diversos times aqui do Brasil e do exterior, até 2005, quando se afastou definitivamente dos gramados.  

Carlos Alberto Torres nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de julho de 1944, e nos deixou  em 25 de outubro de 2016, aos 72 anos, após sofrer um infarto fulminante em sua residência, no Rio.

Números da carreira:
Fluminense – 165 jogos e 19 gols
Santos – 445 jogos e 40 gols
Botafogo – 22 jogos
Flamengo – 20 jogos
Cosmos – 100 jogos e 6 gols
Newport Beach – 19 jogos e 2 gols
Seleção Brasileira – 69 jogos e 9 gols, sendo 54 oficiais e 8 gols

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

GARRINCHA: O FUTEBOL IRREVERENTE DE UM GÊNIO QUE DRIBLOU TUDO, MENOS O VÍCIO QUE O LEVOU À MORTE

Antes de ser jogador profissional, Garrincha era operário da fábrica América Fabril e jogava no Esporte Clube Pau Grande. Levado pelo ex-jogador Arati, Garrincha chegou ao Botafogo em 1953, com 19 anos. Arati foi apitar um jogo em Pau Grande, distrito de Magé, e lá descobriu um moleque franzino, de pernas tortas, mas de drible fácil. Gentil Cardoso não acreditou muito na descoberta de Arati, mas deixou o garoto – que tinha como apelido o nome de um pássaro – treinar. Apesar de meio desacreditado – em 1948 tentou, sem sucesso, no Vasco e no Fluminense; e depois estava diante do melhor lateral esquerdo do país, Nilton Santos – Garrincha não se intimidou e seus dribles impressionaram a todos. Aprovado, Garrincha foi contratado.

 

Sobre a tentativa, sem sucesso, no Vasco e Fluminense, seguem os detalhes: o primeiro teste de Garrincha em um time grande aconteceu em 1950, às vésperas de completar 17 anos, quando foi levado ao Vasco por um diretor da América Fabril. Com vergonha de levar a chuteira velha e rasgada, apareceu descalço na peneira e foi impedido de treinar pelo argentino Volante, um ex-jogador. Poucos meses depois, com os amigos Diquinho e Arlindo, tentou o São Cristóvão. Jogaram só dez minutos e foram dispensados sem sequer comerem o sanduíche que os clubes tradicionalmente davam. Depois, tentou o Fluminense e o técnico Gradim nem ao menos o colocou para treinar.

 

Voltando ao assunto em questão, a sequência de sua carreira, dizer o que de quem fez a torcida gritar pela primeira vez “olé” dentro de um estádio de futebol? E nem era a torcida do time dele, o Botafogo, mas sim mexicanos que assistiam a uma das exibições do Glorioso pelo mundo.

 

Como marcar Garrincha? Não havia mesmo nada a fazer diante desse gênio. Assim como não há como defini-lo. Era imprevisível e dono de um futebol que jamais se enquadrou em esquemas táticos. Seu amor pelo espetáculo não significou, em momento algum, que Mané não fosse um atleta obcecado pela vitória. Nenhum outro jogador foi tão querido por todas as torcidas como MANÉ GARRINCHA, O “ANJO DAS PERNAS TORTAS”, como bem definiu o poeta Vinícius de Moraes, foi incomparável.

 

Em quase 13 anos no Botafogo, em que conquistou os títulos cariocas de 1957, 1961 e 1962, e o Torneio Rio-São Paulo de 1962 e 1964, fez 612 jogos e marcou 242 gols. Pela Seleção Brasileira, jogou 60 partidas e marcou 16 gols, sendo 50 oficiais e 11 gols. O detalhe é que perdeu apenas um jogo defendendo o Brasil, que por coincidência foi sua última partida pela Seleção, nos 3 a 1 para a Hungria, na Copa do Mundo de 1966. E quando jogou ao lado de Pelé, o Brasil nunca foi derrotado. Um retrospecto inacreditável.

 

Os estragos que fazia com a camisa botafoguense, ele repetia com a da Seleção. Mané foi bicampeão mundial e, para muitos, se não fosse ele o Brasil teria saído da Copa do Chile, em 1962, mais cedo. Com Pelé machucado, coube a GARRINCHA jogar por ele, pelo Rei e deixar o mundo espantado. Foram dribles, passes perfeitos e gols até de cabeça e de perna esquerda. Nas quartas de final, após a derrota de 3 a 1 para o Brasil, o técnico da seleção inglesa desabafou: “Preparei um time quatro anos para enfrentar times de futebol, mas não esperávamos um jogador como GARRINCHA”. Coube, porém, ao jornal chileno El Mercúrio, em manchete, a melhor definição sobre esse Charles Chaplin do futebol: “De que planeta viene GARRINCHA?”.

 

Em 1965, os problemas crônicos com os joelhos já o impediam de jogar e Manuel Francisco dos Santos, que nasceu em Pau Grande, distrito de Magé, em 18 de outubro de 1933, despediu-se do Botafogo e praticamente do futebol. Ainda tentou jogar por Corinthians – 13 jogos e 2 gols, Flamengo – 12 jogos e 4 gols, e Olaria – 10 jogos e 1 gol.

 

Em 1977, cansada de suas farras, Elza Soares abandonou Garrincha, que se entregou ainda mais à bebida. O fim inevitável chegou na madrugada do dia 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos, após mais um coma alcoólico. Congestão pulmonar, pericardite, esteatose hepática e pancreatite hemorrágica. A isso foi reduzido o gênio do futebol pelo atestado de óbito.

 

Esse foi o capítulo final do homem apelidado “Alegria do Povo” que desafiou a medicina para dividir as honras de melhor do país com o Rei Pelé.

 

Nota: após alguns desencontros sobre a data de seu nascimento, a equipe de reportagem do Jornal dos Sports, em 2003, foi fundo na investigação para encerrar de uma vez por todas a polêmica sobre a data correta, no livro de registros do cartório do 6º distrito de Magé, que teve o dia 18 de outubro de 1933 – e não o dia 28 do mesmo mês – reconhecido a sua autenticidade pela titular do cartório.

 


O que eles disseram...

“Garrincha era, à sua maneira, um gênio. Se Pelé personificava a perfeição (chutava, driblava, cabeceava, passava, tudo de forma irretocável), Garrincha era a consagração do imperfeito: tordo, anti atlético, individualista, uma jogada só, mas um gênio a desmoralizar lógicas, a desafiar o imponderável, a transformar o previsível – sempre o mesmo drible – em irresistível. A tragédia está em que sua história não teve o final feliz que merecia. O homem que não podia dar certo – e deu – não teve fôlego para correr os dois tempos de sua curta existência (tinha 49 anos quando a morte o levou). Ao perder o brinquedo, começou a perder o gosto pela vida. Faltaram-lhe pernas para um último arranque pela direita: o drible na própria tragédia.”

 

(João Máximo, jornalista)

 

 






sábado, 13 de outubro de 2018

POLÍTICOS E POLÍTICA: NAQUELE TEMPO - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Estamos há poucos dias das eleições, e no dia primeiro de outubro iremos as urnas para votar em nossos candidatos a prefeito e vereador. Vamos escolher os que são melhores para a nossa cidade, os que têm mais condições de representar a nossa comunidade; votar naqueles candidatos que já deram provas de honradez e honestidade. Estávamos numa roda de velhos amigos e como é bom recordar, quando o assunto for política, corrupção, conte logo uma "estória" que começa, naquele tempo... 

Naquele tempo, são as palavras que às vezes ouço quando estamos em rodas de amigos. Conversando com o Chiquinho Alfaiate, ele diz: naquele tempo do Capitão Altivo Linhares... e ao falar fica nas pontas dos pés e estufa o peito, como se fosse ficar mais alto; “eu lembro que às vezes políticos perseguidos vinham pedir abrigo em sua fazenda, e lá, eram recebidos pelo mesmo, que oferecia todas as garantias como se fosse um asilado político, e eu lembro, continua o Chiquinho, não havia ninguém com coragem de atravessar a porteira para saber se lá estava a pessoa procurada”.

Altivo Linhares foi prefeito de 1937 a 1945 e em sua gestão construiu o Jardim da Infância, Praça Ary Parreiras, hoje Praça das Mães, remodelou a Praça Dona Ermelinda, a estação ferroviária, sendo que o primeiro calçamento foi feito em 1926, da estação rodoviária ao Hotel Braga, quando criaram uma subprefeitura que foi entregue a Ventura Lopes. Posto de saúde na rua Barroso de Carvalho, construção da Praça Getúlio Vargas; e voltou a governar de 47 a 50 construindo o Matadouro Municipal, a Maternidade, hoje Casa de Saúde São Sebastião. Governou novamente de 59 a 63, construindo o Colégio Nossa Senhora das Graças, e muitas outras obras de relevância, como a Prefeitura, de 1947 a 1950, na época gastando duzentos e sessenta e três contos de reis. Havia dois partidos em Miracema, um do Altivo outro contra o Altivo.

Naquele tempo, a primeira câmara foi formada pelos vereadores Dr. Otávio Tostes, gerente de banco e fazendeiro; Melchíades Cardoso, jornalista e industrial; Nicolau Bruno, fazendeiro; Humberto de Martino, advogado; Dr. Antônio Antunes de Siqueira, advogado e professor; Bruno de Martino, fazendeiro e jornalista; Antônio Ventura Lopes, fazendeiro, Bento, da fábrica de tecidos e Canedo, funcionário público.

Naquele tempo de criança, após as aulas do grupo escolar, encontrava sempre com os companheiros para jogar bola, que era de borracha com um furo feito a ferro quente; e a bola, levávamos no bolso e nós éramos apelidado de time da bola no bolso, apelido dado pelo Neném Brandão. Após o jogo, passávamos pelo Ribeirão Santo Antônio para tomar banho. Naquele tempo tinha água, e hoje fico pensando que os nossos filhos e netos só conhecem água de piscina. Saíamos do ribeirão e passávamos pela ferraria do Netinho, sempre ferrando uma roda de carro de boi, e a nos olhar com um só olho, quando tocávamos a bomba manual para beber aquela água fresca e cristalina, como não havia melhor em lugar nenhum. Naquele tempo de rapaz, ao passar pela praça Dona Ermelinda, ao entardecer, via sempre o Ventura Lopes, da varanda de seu prédio assobradado a olhar para cima como se tivesse perscrutando o céu e inquirindo as nuvens quando viria a chuva para molhar as suas várzeas de arroz. Ventura Lopes foi uns dos políticos que mais trabalhou para a nossa emancipação política e, no entanto, quase não se ouve falar desse homem que foi uma das peças principais do movimento separatista. Foi presidente da antiga UDN e opositor de Altivo Linhares.

E sempre em uma roda de amigos da nossa geração, quando a conversa vai se animando, sempre tem um que começa dizendo: “Naquele tempo não tinha esta facilidade de um rapaz ao começar a namorar já no primeiro dia, entra na casa dos pais, chama logo o futuro sogro de coroa, beija a sogra e por aí vai com as intimidades e acaba não casando”.

Naquele tempo, dizia o outro nosso amigo, quando começaram a fazer o campo de aviação, trouxeram para Miracema mais de trinta presidiários para trabalhar na abertura do campo. Homens que usavam somente calção e camiseta vermelha, sob o comando do Tenente Coracy, que tinha como asseclas o cabo Oto e outro indivíduo apelidado Vassourinha. Cometeram juntos barbaridades com aqueles homens desnutridos, espancados até a morte. Se não fosse a interferência do padre José Nicodêmos, mais mortes teria ocorrido. Hoje, em que o mês de setembro vem terminando, onde vimos e sentimos o cair das chuvas, o florescer dos ipês e as eleições se aproximando, e após o nosso voto, quando alguém vier falar de política ou corrupção, eu direi: Naquele Tempo...




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

RENATO RUSSO: UM ÍDOLO DE TODA UMA GERAÇÃO


Para tristeza de uma imensa legião de admiradores em todo o país, boa parte deles adolescentes, a vida atribulada de Renato Russo chegou ao fim à 1h15 da madrugada do dia 11 de outubro de 1996. O músico morreu aos 36 anos, de complicações pulmonares e renais em consequência da Aids, em seu apartamento em Ipanema. Seu corpo foi cremado na manhã seguinte à sua morte. Não houve cortejo nem velório, e os fãs emocionados que foram ao Cemitério do Caju se limitaram a cantar músicas do Legião.

Renato lutava contra o HIV, que contraíra em 1989. Tendo se manifestado com mais violência em 1996, o vírus o obrigava a tomar doses de um coquetel de remédios, então a última novidade contra a doença e que mereceu dele o seguinte comentário, feito a um amigo: “Quando o tomo é como se eu estivesse comendo um cachorro vivo e ele me comesse por dentro”.

Líder do Legião Urbana, um dos três maiores grupos do rock brasileiro dos anos 80 – junto com Titãs e Paralamas do Sucesso – Renato Manfredini Júnior nasceu em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro.  Criado na Ilha do Governador, dos 7 aos 10 anos viveu em Nova York, acompanhando o pai, alto funcionário do Banco do Brasil. Quando voltou, passou um tempo no Rio e, aos 13 anos, foi morar em Brasília.  Após dar aulas de inglês, montou o grupo Aborto Elétrico, núcleo do Legião e de outra banda importante, o Capital Inicial.  O grupo lançou o primeiro LP em 1984, com canções que marcaram os anos 80, como “Será”, Geração Coca-Cola”, “Teorema” e “Soldados”.   

O álbum “Dois”, lançado em 1986, com clássicos como “Índios” e “Tempo Perdido”, fizeram o disco vender 1,1 milhão de cópias, o dobro do anterior.  Vieram mais seis álbuns e dois discos solo – com músicas em inglês e o outro italiano. O cantor já estava popularizado para além do rock, atingindo mais de cinco milhões de cópias. 

No acidentado percurso de sua carreira, Renato assumiu que gostava de meninos e meninas, teve um filho, lutou contra o álcool e drogas pesadas.  No embate final, a Aids tirou de cena prematuramente o líder do Legião Urbana. 


sábado, 6 de outubro de 2018

ADEMIR DA GUIA E SUA LINDA HISTÓRIA COM O PALMEIRAS




O antigo ídolo corintiano Domingos da Guia entrou em sua casa e foi avisando ao filho Ademir, de 19 anos: “Você vai jogar no Palmeiras”. O pai estava apalavrado com o técnico Renganeschi, que se encantara por Ademir ao vê-lo jogar pelo Bangu. Só faltava assinar o contrato. Ademir da Guia nasceu no Rio de Janeiro, em 03 de abril de 1942, e começou no Bangu a sua linda trajetória no futebol. Trajetória essa que o coloca no seleto grupo dos maiores de todos os tempos. Pelo time banguense foram 59 jogos e 14 gols marcados. Um detalhe até desconhecido por muitos é que o Ademir começou no Bangu como nadador. Saiu das piscinas para o gramado em 1959 e já foi campeão carioca juvenil naquele ano. 

Foi um armador de técnica refinada, inteligência na coordenação de jogadas, precisão nos passes e eficiência nas finalizações. É considerado um dos maiores ídolos da história do Palmeiras – senão o maior entre os torcedores mais longevos, além de ter sido um dos grandes armadores que já surgiu no futebol brasileiro. Também conhecido como “O Divino”, pela excelência de seu futebol, Ademir descende de uma longa linhagem de craques. Seu pai, citado acima, é considerado por várias gerações como o melhor zagueiro do país e um dos melhores do mundo de todos os tempos, e o herdeiro fez jus à frase que “filho de peixe, peixinho é”, e como o pai, também marcou época. Ainda teve três tios, irmãos de seu pai, que também jogaram e se destacaram. O cronista Armando Nogueira dizia que tinha "nome e sobrenome de craque". João Cabral de Melo Neto o transformou em poema e Moacyr Franco em música. 

Pelo Verdão atuou em 901 jogos e marcou 153 gols. Gols esses comemorados na maior discrição, chegando a tal ponto de ser confundido como um jogador sem vibração e com falta de garra. Mas tudo isso era resumido apenas na sua humildade e no seu jeito simples de jogar futebol. Durante os quinze anos que defendeu o Palmeiras, Ademir da Guia colecionou os seguintes títulos: cinco vezes campeão paulista (1963/66/72/74/76), bicampeão brasileiro (1972/73), dois Torneios Roberto Gomes Pedrosa (1967/69), uma Taça Brasil (1967) e um Torneio Rio-São Paulo (1965). 

Certa vez, em 1967, o técnico Aymoré Moreira pediu a contratação de um outro meio de campo para o lugar de Ademir. Achava que o jogador era muito frio, sem vibração. A resposta do diretor de futebol Ferruccio Sandoli veio de forma seca: "Aqui, o técnico tem toda liberdade, menos a de ser louco. E querer substituir Ademir e loucura". Aymoré foi demitido e o craque continuaria ídolo por mais dez anos. 

Embora considerado um dos grandes craques brasileiros, sua única participação em Copas do Mundo foram os 45 minutos iniciais da partida contra a Polônia, na disputa do terceiro lugar no Mundial de 1974. Ao longo da competição foi mantido teimosamente na reserva por Zagallo. A sua elegância e desenvoltura dentro de campo, praticando um futebol sem firula, contrastava com toda sua timidez fora das quatro linhas. Essa timidez foi um ponto crucial que o impediu de reivindicar maiores oportunidades no escrete. Pela Seleção foram 11 jogos, sendo 9 oficiais. Fez 6 jogos em 1965 e só retornou em 1974. 

Só os números já bastariam para ilustrar sua importância no período que defendeu com muita dedicação e amor as cores do Palmeiras. Durante 15 anos, Ademir da Guia fez do Palmeiras a sua academia de bola. Já não se faz mais ídolos como antigamente! 


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

PESCADORES - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Quando eu era garoto pescava no ribeirão Santo Antônio, que naquela época ainda tinha peixe. Depois de adulto jamais pesquei, mas convivi entre amigos que são pescadores, e quando estavam preparando para a pescaria eu via como lidavam com aquelas parafernálias para levar: gasolina, fogareiro, molinete, anzóis, varas, ferramentas diversas, várias caixas de cerveja, material de cozinha, isopor, pinga, rede, remédio, barraca, gás, lampião, repelente, poita, puçá, garatéias, canecão...

Os barcos eram adaptados em cima das carretas ou caminhão, com uma Brasília em cima, e sempre havia bate coca. Um ou outro estava fazendo a coisa errada, mas no final todos se entendiam. Entre esses pescadores, podemos destacar: José Heler, Manoel Badeco, Dimas, José Osvaldo, Woninho, Altair, Amim Amim, Juicy Bereta, Benedito Simem, Dr. Sebastião Miguel, Dr. Luiz Silva, Darcy Aníbal, José Torres, Dr. Reginaldo Rizzo, Jésus, Manteiga, Amadeu Poly, Tasso, Pedrinho, Lauro Quintal, Robson Bereta, Sérgio Salim, Márcio Menezes, Samuel, Caliça, Aragão, Duduca, Vicente Toscano, Sebastião Apolinário, Márcio Tostes e Joffre Salim, entre outros.

Muitas vezes viajavam em carro próprio ou alugavam um caminhão. A demora era mais ou menos de 15 dias entre a ida e a volta. Na chegada descarregavam os apetrechos e dividiam os peixes. Após dois ou três dias, reuniam-se outra vez para comentar a pescaria a base de cerveja e tira gosto.

Os rios preferidos eram sempre do Coluene, Paracatu, Jauru, Araguaia, Paraguai, Urucuia e São Francisco, e também o Paraíba.

Os motoristas de caminhão eram o Chico Lima, Bolinha e Lelei do Pida. Os cozinheiros Giludo, e Caliça com maior frequência e o Coquimam, esporadicamente. Comentava que um bom cozinheiro ou é gay ou tem uma ferida na perna. O Coquimam tinha uma ferida na perna.

Lauro e Vicente Toscano contam que indo pescar em um rio na divisa da Bolívia, resolveram atravessar a fronteira. No posto policial um sargento olhou a placa do carro e viu: Miracema. Oba, eu sou de Laje do Muriaé. Os dois foram ao Banco. O Banco estava aberto e não havia ninguém; era hora da sesta. Os policiais da Bolívia estavam com uniforme caqui e pé no chão.

Às vezes, na viagem, quando não achavam local para pernoitar, dormiam em posto de gasolina ou dentro do carro. Os peixes pescados eram o Dourado, Pintado, Curimam, Piraputanga, Surubim, Jurupoca, Barbado e Piauçú.

Um desses pescadores, ao chegar da pescaria, foi com o filho mais novo para a cama, e começou a contar histórias: que havia saído no barco sozinho e desceu vários quilômetros de ria e avistou uma pedra. Jogou a poita e sentou em cima da pedra, mas ela começou a se mover. Então ele viu que não era uma pedra e sim uma traíra gigante. Tirou o facão, cortou a cabeça dela e a jogou dentro do barco. Os dois olhos da traíra pareciam faróis, os espinhos pareciam costela de boi. Deu para todos do acampamento comer por três dias e ainda sobrou. – Bem, meu filho, vamos dormir que já é tarde. Em seguida disse: - Meu filho, o que você deseja ser quando crescer? – Ora meu pai, eu quero ser um grande mentiroso igual ao senhor.

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