segunda-feira, 8 de junho de 2026

FIORI GIGLIOTTI: ASSIM TUDO COMEÇOU...

 


Transcrevo a seguir alguns tópicos da entrevista concedida por Fiori Giglioti ao João Areosa, da revista Placar, em 1977.

 

O gol de Parafuso, num remoto e acirrado jogo do interior, foi o começo de tudo. Depois, a voz anasalada passou a varar as ondas radiofônicas, conquistando audiência e uma comovente amizade entre locutor e ouvinte.

 

E como foi o seu começo? Como você sentiu que dava para o rádio?

- Bom, eu tive que me virar muito cedo, pois tinha 12 anos quando perdi meu pai, a quem era muito ligado; eu tinha loucura por ele. Passei a engraxar sapatos, a vender jornal, a trabalhar em casa de tecidos. Fui parar no jornal Correio de Lins, limpando a sala, fazendo cobrança, ajudando o pessoal de lá na luta pela sobrevivência do jornal. De repente, me vi fazendo notinhas sociais e entrando aos poucos nos assuntos esportivos.


E como nasceu o locutor?

- Faço questão de apontar o apoio que recebi do Ramiro Vieira. Esse acreditou de imediato, me deu apoio: “Vai em frente que tudo dará certo”. E no dia 26 de maio de 1947, com 19 anos, eu estreei como locutor, na vitória do Linense sobre o São Paulo de Araçatuba por 1 a 0, gol de um crioulão comprido chamado Parafuso.

 

Você imitava algum outro locutor famoso, sofreu influência na sua forma de narrar?

- Ah, sofri sim. Do Rebelo Junior e do Pedro Luís. Então, o meu gol sempre foi ao estilo do Rebelo, um gol comprido. E a forma de irradiar também. Ao passo que o Pedro Luís corria demais atrás da bola, sua preocupação era muito mais a bola do que qualquer outro detalhe. Além do mais, o Rebelo era o locutor da época, pois a onda da Tupi penetrava muito mais do que a da Gazeta. E veja você que depois, por ironia do destino, eu vim trabalhar com o Pedro na Bandeirantes, indo para a Pan-Americana ocupar um lugar que era dele, retornando à Bandeirantes para uma vaga que também pertenceu ao Pedro Luís.

 

E a vinda para São Paulo, como aconteceu?

- Em fevereiro de 1952 fui chamado, através do Edson Leite, para um teste. Jogavam Santos e Seleção Paulista, na Vila Belmiro, um jogo treino. Graças a Deus, tive sorte e fiz contrato, mas para começar a trabalhar só em julho, pois não podia abandonar de repente meus compromissos particulares e a rádio de Lins. Mas, antes disso, fiquei nove meses na Rádio Cultura de Araçatuba e trabalhei dois anos na fase de montagem da Rádio Clube de Birigui, sempre apresentando também programas sertanejos.

 

E como surgiu o seu próprio estilo de narração, ou seja, como você foi se libertando das imitações e das influências dos locutores mais famosos?

- À medida que fui ganhando alguma projeção, senti que tinha de jogar uma cartada, pois se continuasse a imitar o Pedro Luís e o Rebelo Junior, eu seria apenas um locutor entre tantos outros que faziam o mesmo. Então, mudei completamente a terminologia do rádio esportivo. Por exemplo, todo mundo falava: “Amigos ouvintes ou senhoras ou senhores”. Então, passei a falar “torcida brasileira”. Você pode reparar que, quando o goleiro pegava na bola, todo mundo dizia: “Abraça, pega firme”. Mudei para “seguuura com firmeza”. Quando há um levantamento de bola, o locutor normalmente fala: “Prepara o centro, vai centrar, olha o chuveirinho, atenção...” Mudei para “balão subindo, balão descendo”. Digo “amortece no peito e põe na grama”. A maioria diz: “Mata no peito e baixa na terra”, como era o caso do falecido Geraldo José de Almeida. E tem aquele tratamento carinhoso que dou prestigiando as cidades do interior, prestigiando os amigos, prestigiando principalmente os estudantes, pois cheguei à conclusão de que a narração esportiva não pode ser exclusivamente a preocupação do locutor em correr atrás da bola. Honestamente, acho que isso maltrata o ouvinte. É preciso suavizar o impacto que o futebol provoca em quem estiver ouvindo uma transmissão.

 

Antes de cada partida você faz questão de criar as mais diversas imagens, chegando inclusive a detalhes, notadamente os meteorológicos.

- É verdade (e Fiori demonstra como abriria um jogo numa tarde de sol). Torcida brasileira, carinhosamente boa tarde. Esta é uma tarde azul, uma tarde de festa, sol brilhando, algumas nuvens brancas desfilando na passarela do céu, enfeitando o cenário, dando-nos exatamente a imagem mais bela para um acontecimento maravilhoso, misturado com as emoções do futebol. Agora, quando o tempo não está bom, quando o céu está meio trancado, todo mundo diz “tarde feia”. Aí eu mudei: “Céu carrancuuuuudo, torcida brasileira”.

 

Já que é hora de demonstração, como você abriria um jogo decisivo entre Corinthians e Palmeiras?

- Torcida brasileira, carinhosamente boa tarde. Hoje é dia de festa. Hoje é dia de emoção, hoje é dia do coração bater mais forte. Palmeiras e Corinthians, dois gigantes do futebol paulista, dois gigantes do futebol brasileiro, outra vez se encontrando no campo de luta. O Corinthians perto da realidade, o Palmeiras simplesmente transformando em verdade mais um dos sonhos de sua torcida que tantas alegrias têm experimentado ao longo destes últimos anos. Mas o corintiano que espera, o corintiano que sofre, o corintiano que vai somando a cada jogo que passa, o corintiano mais fiel, o corintiano que procura esquecer um passado tão triste e que tanto o tem maltratado; o corintiano vem para campo com a certeza de desabafar, com a certeza de viver hoje, finalmente, o seu dia de colher, neste palco maravilhoso, neste jardim de tantas emoções, as flores que efetivamente hão de perfumar , hão de adornar o seu largo sofrimento. Vive o Morumbi uma das suas mais belas, mais lindas, temos plena certeza, mais inesquecíveis jornadas , porque assim quis o destino.  

 

E como você encerraria essa entrevista?

- Já está escurecendo? (Fiori olha pela janela e pega um microfone que andava jogado na mesa do estúdio). Então, vamos lá: “Boa noite torcida brasileira. A tarde vai morrendo e a noite vem chegando para abraçar carinhosamente a cidade grande”.

 

 

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