Nota: transcrito na íntegra da revista Placar edição 47, página 6, de
05/02/1971, com matéria assinada por José Maria de Aquino.
Ele era um “Rei” em Santos. Em 1956 a
camisa 10 do Santos pertencia a Vasconcelos, ídolo da torcida. Até quebrar a
perna em uma disputa de bola. Aí foi substituído por um crioulinho de 16 anos,
calado e de pernas finas, chamado Gasolina. Hoje conhecido por Pelé.
Suas pernas finas, valentes,
carregando seu corpo um pouco arqueado, brigavam o tempo inteiro, buscando
vitórias, marcando gols, ajudando a fazer do Santos o time famoso, até hoje
respeitado no mundo inteiro.
Valter Vasconcelos Fernandes, mineiro
de Belo Horizonte, criado no Rio de Janeiro, craque, boêmio, ídolo,
irresponsável, hoje um homem esquecido. O Vasconcelos que em 1956 era dono absoluto
da camisa 10 do Santos. O jogador maravilhoso, tão importante para o time que
fazia dos diretores quase escravos de suas vontades, tirando-o de prisões,
dando-lhe bichos dobrados, aceitando, sem castigo, suas fugas da concentração.
Até 09 de dezembro de 1956, quando
quebrou a perna disputando uma bola com Mauro, zagueiro do São Paulo, ninguém
teria a ousadia de pensar em substituí-lo. Ninguém podia admitir ver aquela
camisa em outro corpo. Nem no negrinho calado, de pernas finas, que chamavam de
Gasolina e que hoje é Pelé, o Rei dos mil jogos. Boêmio, tinha um lema: “Façam
o que digo, não o que eu faço”. Nunca convidou um colega para acompanhá-lo nas
farras que fazia, mesmo em véspera de grandes jogos. Pulava janela, ia sozinho,
bebia, dançava, voltava de madrugada, jogava, fazia gols. O Santos ganhava.
No dia 24 de maio de 1956 alguns
jogadores do Santos estavam na casa do goleiro Manga, comemorando seu
aniversário. Lá pelas tantas foram contar a Vasconcelos que Pelé estava com um
copo de bebida na mão. Vasconcelos largou seu copo, foi até onde estava Pelé,
ficou olhando sério e acabou dando um tapa na mão do companheiro, jogando o
copo longe. Ele se considerava um dos responsáveis por aquele garoto que apenas
começava como seu reserva.
Boêmio, não gostava de admitir
trapaças com sua pessoa. Quando era ainda um garoto, jogando no time de
aspirantes do Vasco, vendo a torcida gritar para que jogasse no time de cima,
soube que a Portuguesa Santista queria comprar seu passe. O técnico só permitiu
quando Vasconcelos concordou em lhe dar uma comissão sobre as luvas. O negócio
foi feito e até hoje o técnico deve estar esperando o dinheiro.
APLAUDIDO POR TODOS
Da Portuguesa foi para o Santos,
ameaçando engrossar se não vendessem seu passe. Na estreia deu a primeira
demonstração de tudo o que seria. Contra a própria Portuguesa fez três gols em
quinze minutos e, logo em seguida, fingiu uma contusão, saindo de campo. Era um
teste (que deu certo), foi aplaudido pelo público e elogiado pela diretoria. Daquele
dia em diante já era o Vasconcelos com dinheiro e fama, vivendo intensamente,
esquecendo-se do carinho que devia à mulher e à filha, acabando por ser
abandonado.
Boêmio, não tinha medo da polícia e
zombava dos diretores que tentavam vigiá-lo nas suas noitadas. Muitas vezes foi preso por brigas e minutos
depois estava livre. Um simples telefonema e toda a diretoria do Santos corria
para socorrê-lo. Uma noite estava sentado num cabaré, de costas para a rua, quando
o diretor Augusto Saraiva entrou e rapidamente apanhou seu copo, provando para
ver o que ele bebia. Vasconcelos estava de ressaca e bebia água tônica. Não
pôde conter o riso vendo a expressão de surpresa no rosto do diretor.
Ficava sem gravatas onde todos
trajavam a rigor. Fez bons contratos e nunca se lembrou de comprar um
apartamento ou um terreno. Para ele a fama e a vida de grande jogador nunca
teriam fim. Não pensou nisso nem mesmo em 1953, quando foi desenganado por uma
junta médica que lhe dizia sofrer de moléstia cardíaca.
Triste, um pouco abandonado, proibido
até mesmo de treinar, acabou encontrando dona Leonor, uma mulher mística, que
numa mesa de toalha branca chamou seus guias para curá-lo com chá de alpiste, agrião,
azeite e outros ingredientes. Dois dias depois de começar o tratamento voltava
aos treinos, assinando um documento que isentava o clube de qualquer
responsabilidade. A pressão caiu de 19 para 12, o normal, e Vasconcelos só
voltou a lembrar do seu coração “fraco” quando entrava numa área, rasgando suas
canelas, enfrentando botinadas.
Profissional, sempre exigiu
tratamento igual ao dos outros. Em 1954, quando foi renovar seu contrato, lhe
deram 130 mil cruzeiros velhos de luvas. Quando soube que Hélvio e Tite haviam
recebido 250, esperou a melhor hora para reclamar. No intervalo de um jogo
contra o XV de Piracicaba (0 a 0), disse que não voltaria a campo. Quiseram
saber por que e ele contou. Pagaram-lhe a diferença e ele fez os dois gols do
Santos (2 a 1). Profissional, nunca fugiu da “briga”. Jogava contra o
Corinthians e Julião já havia rasgado sua meia, de tanta paulada. O juiz
expulsou Vasconcelos de campo e, quando foi perguntado por que motivo, disse
que era por pena, porque não queria vê-lo com as pernas quebradas. O juiz não
podia expulsar ninguém do Corinthians.
CHEGANDO AO FIM
Profissional, estava sempre ao lado
dos companheiros. Em 56 o Santos perdeu para o São Paulo e alguns diretores, no
vestiário, criticavam Válter (que morreu na Espanha). Diziam que ele fizera
corpo mole. Vasconcelos ouviu as críticas, jogou a toalha que enxugava o corpo
no chão e espinafrou todos. Ninguém respondeu.
O técnico Lula também não respondeu
aos chamados de dona Leonor no dia
em que Vasconcelos começava a deixar de ser o dono absoluto da camisa 10 do
Santos. Havia uma onda de suborno, o jogo era com o São Paulo e valia o título.
Dona Leonor telefonou o dia inteiro para dizer que “aquele jogo ia dar cama
para Vasconcelos”. Lula só atendeu o telefone meia hora antes do jogo. Não
entendeu bem o que ela dizia, perguntou se Vasconcelos estava se sentindo bem,
soube que sim e só mais tarde, quando o viu saindo carregado de campo para o
hospital, pôde entender tudo. Era
tarde.
Tarde também para que Vasconcelos
pudesse corrigir todos os erros. Sem mulher e sem filha, sem ter guardado
dinheiro, ia deixando de ser o Vasconcelos, ídolo da torcida, para ser um
jogador marcado, correndo o mundo à procura da posição que deixava para o
negrinho Pelé, muito antes do que qualquer um podia pensar. Pelé, o seu
reserva, estava nascendo para mil jogos, mais de mil jogos.
Minhas considerações:
Depois de muito tempo parado, Vasconcelos voltou aos
gramados, mas já não era o mesmo. Ficou pouco tempo na Vila Belmiro e em
seguida foi transferido por empréstimo para uma rápida passagem pela Sociedade
Esportiva Palmeiras em 1958.
Pelo Santos, entre 1953 e 1958, Vasconcelos atuou em
181 jogos e marcou 111 gols. Jogou ainda pelo Jabaquara Atlético Clube (SP) e
pelo Clube Náutico Capibaribe (PE). Encerrou a carreira no interior do Paraná
jogando no Apucarana.
O ex-craque do Santos acabou dominado pelo vício do
álcool e vivendo de favores dos poucos amigos. Válter Vasconcelos
Fernandes faleceu em 22 de janeiro de 1983, em Brusque (SC).

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