quinta-feira, 18 de novembro de 2021

O MILÉSIMO GOL DE PELÉ – POR VALDIR APPEL

 


Nota: transcrito na íntegra de sua página do Facebook.

VALDIR APPEL era o goleiro suplente de Andrada.

 

19 de novembro de 1969

O “gringo” Andrada não agüentava mais as sacanagens dos colegas Moacir e Buglê, e à medida que se aproximava o jogo contra o Santos pelo campeonato brasileiro (na época, chamado de Roberto Gomes Pedrosa), o coro que agourava a marcação do milésimo gol do Pelé em cima do Vasco engrossava.

Na concentração, nas viagens e após os jogos do Peixe, sempre alguém chegava com um jornal para mostrar a evolução dos gols de Pelé.

Na verdade, esta “previsão” da boleirada não tinha respaldo. O Santos enfrentaria ao longo do campeonato e em confrontos amistosos, equipes teoricamente frágeis, e já chegaria ao jogo contra o Vasco com a fatura liquidada.

Era o que imaginávamos.

Mas o tempo foi passando, e com a proximidade de novembro, o goleiro argentino naturalizado brasileiro começou a ficar preocupado.

Pelé chegou à marca dos 999, num amistoso contra o Botafogo de João Pessoa, na Paraíba. Depois, jogou parte do segundo tempo substituindo o goleiro Agnaldo, que simulou uma providencial contusão, impedindo assim que novas oportunidades de gol surgissem.

Palco pequeno, poucos holofotes...

O gol poderia ter acontecido contra o Bahia, no estádio da Fonte Nova, mas um carrinho milagroso do zagueiro Nildon, do tricolor de aço, impediu que a marca histórica fosse alcançada na boa terra.

Curiosamente, a providencial intervenção do jogador foi contemplada com uma estrepitosa vaia da sua torcida, que estava a fim de fazer a festa do Rei em Salvador.

No mesmo dia, jogamos em São Paulo.

No avião da ponte aérea, Moacir falou pro Andrada:

-Eu não falei que você levaria o milésimo? Tu achas que o Rei vai perder a oportunidade de fazê-lo no Maracanã? Tá tudo arranjado, Milongueiro!

Curtimos uma folga e nos reapresentamos em São Januário na terça-feira, quando realizamos leves preparativos rotineiros para o embate de quarta-feira.

A contusão.

A colina já estava às escuras quando Andrada, inexplicavelmente, caiu no gramado sentindo dores no tornozelo.

Perplexidade total. Minha e dos demais colegas. Pensei: vai sobrar para mim esta encrenca.

Na concentração da Lagoa Rodrigo de Freitas, à noite, na ponta de uma longa mesa de jantar, alguns jogadores iniciaram provocações pra cima do Andrada.

Toda hora alguém chamava o massagista Chico, pra renovar o gelo colocado no tornozelo do goleiro.

Beneti insinuava que ele estava pipocando.

Adilson ia mais longe:

“Hei, gringo! Tá com medo? Não tem problema: o Valdir joga, já entrou pra história mesmo, com aquele gol contra. Este não vai fazer diferença!”.

O jogo.

Quarta-feira à noite, nos vestiários do Maracanã, Andrada submeteu-se a um teste, supervisionado pelo doutor Arnaldo Santiago. Era evidente o seu nervosismo.

Falou mais alto o profissionalismo; ele decidiu jogar. E como jogou! O clima no maior estádio do mundo era de festa: quase 70 mil pagantes. Provavelmente uns 30 mil a mais, entre autoridades e caronas.

Os dois times entraram em campo lado a lado, liderados pelos seus capitães, empunhando a bandeira brasileira.

Perfilados, ouviram o hino nacional.

No banco de reservas, ficamos admirados ao ver o diretor Iraci Brandão disfarçar, embaixo dos braços, uma camisa branca do Vasco com o numero 1.000.

Era mais um que torcia pelo milésimo acontecer naquela noite.

O jogo teve início e desde cedo ficou visível a falta de colaboração dos jogadores vascaínos: primeiro Beneti, abrindo o placar na primeira etapa; e principalmente o goleiro Andrada, que pegou tudo e fez a maior defesa que eu já presenciei no Maracanã.

Pelé limpou a jogada pelo lado direito da grande área do Vasco. Andrada deu dois passos à frente, posicionando-se para defender um possível chute forte. O gênio meteu uma curva de fora para dentro, com o lado externo da chuteira, em direção ao ângulo superior direito da meta do arqueiro.

Com um salto fantástico, Andrada saiu do solo para espalmar de mão trocada a bola que parecia inapelável.

No segundo tempo, o zagueiro René, para impedir o gol de Pelé, não teve dúvidas: antecipou-se ao atacante e fez contra (e de cabeça!) o gol de empate do Santos.

Aqui não!Vibrou.

Jogo que segue.

O pênalti.

O Vasco pressionou e o árbitro pernambucano Manoel Amaro, deixou de marcar um pênalti a nosso favor, gerando protestos de todo o time. Mandou seguir a jogada e, no contra ataque do peixe, não titubeou em marcar uma penalidade máxima, aos 32 minutos, extremamente duvidosa, de Fernando em Pelé.

Bola na marca fatal.

O público emudeceu.

Os jogadores do Santos se posicionaram no centro do gramado.

Pelé deu apenas três passos... e fuzilou, com perfeição, o arco do Andrada, que saltou como um felino para o canto esquerdo, roçando os dedos da luva na bola, que foi se aninhar no fundo do barbante, da baliza à esquerda da tribuna de honra do Maracanã.

Seus punhos socaram o chão, inconformado por levar o gol que o colocaria para sempre na história do futebol mundial.

Logo ele, cujo maior desejo era entrar para o hall da fama como o melhor goleiro a vestir a camisa número 1 vascaína.

Pelé buscou a bola no fundo do arco e a beijou.

O jogo parou. O gramado foi invadido por uma legião de repórteres. Pelé dedicou seu gol às criancinhas, e foi carregado nos ombros dos companheiros. Chico vestiu a camisa do Vasco em Pelé que, com ela, deu a volta olímpica no gramado do Maracanã.

Após uma longa pausa para as comemorações, o jogo chegou ao final com poucas emoções.

Aliás, tivéramos muitas para apenas uma noite.

Conseqüências

Assim, naquela quarta feira, entraram para a história: o milésimo gol de Pelé; e Andrada, que ganhou o título de O Arqueiro do Rei.

O atacante Acilino, do Vasco, mesmo derrotado, comemorou o seu aniversário.

O Dia da Bandeira passou em branco.

E poucos deram importância a Apollo 12, que (dizem!) pousou no Mar das Tempestades, quando mais dois americanos (Paul e Ringo, quem sabe?) pisaram o solo lunar.

O árbitro Manoel Amaro declarou que já podia encerrar a carreira porque apitara o jogo mais importante do Século XX.

Chico conseguiu uma das três bolas usadas no jogo (a do milésimo gol, Pelé guardou!) e uma camisa 10 do Santos dadas pelo Rei, devidamente autografadas.

Hoje, o próprio Pelé ignora onde foi parar a camisa 10 do Vasco com o numero 1.000.

30 anos depois

Na comemoração dos 30 anos do milésimo gol, Pelé e Andrada reviveram no Maracanã aquele duelo. Pelé teve que repetir a cobrança do pênalti porque, na primeira, Andrada pegou.

Pelé se queixou:

“Pô, gringo! É para repetirmos o lance!”.

Andrada, muito sacana, emendou:

“Tá difícil, amigo... Agora, eu já sei o canto que você vai chutar!”.

Naquele mesmo dia, falei pro Andrada, no Rio:

“Gringo, tu devias agradecer todos os dias: não por ter levado o milésimo gol, mas porque tu quase defendeste aquele pênalti!”.

“Como assim, Valdir?”.

“Tchê, aquele gol passa toda hora na televisão... Imagina o teu filho, em casa, lamentando:

Carajo, papá! No saliste en la película... Saltaste para el otro lado, mientras la pelota se fué para el lado opuesto”.

 

Ficha técnica

Santos 2 x 1 Vasco

Data: 19 de novembro de 1969

Local: Estádio do Maracanã

Árbitro: Manoel Amaro de Lima

Gols: Santos - Pelé (pênalti) e Renê (contra); Vasco - Benetti

Santos: Aguinaldo; Carlos Alberto Torres, Ramos Delgado, Djalma Dias (Joel Camargo) e Rildo; Clodoaldo, Lima, Manoel Maria e Edu; Pelé (Jair Bala) e Abel.

Vasco: Andrada; Fidélis, Moacir, Fernando e Eberval; Bougleaux, Renê, Acilino (Raimundinho) e Adílson; Benetti e Danilo Menezes (Silvinho).

 

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