sábado, 20 de abril de 2019

A DIÁSPORA DA FAMÍLIA DE MARTINO – POR MAURÍCIO MONTEIRO (2ª PARTE/FINAL)



continuação... 

Francisco inicia uma grande empreitada: dotou o então distrito de Miracema da maior fábrica de tecidos do norte do Estado. Já no alvorecer do século XIX, ele encomenda nove teares da Holanda movidos à lenha. O locomóvel produzia o vapor, o apito, símbolo da industrialização. Vieram também operários italianos especializados. Em 1906, a Fábrica de Tecidos São Martino começou a funcionar.

Em 1905, foi batizado seu filho Bruno de Martino, a enteada Olava casou-se com Rodolfo Rodrigues e o governador Nilo Peçanha e o deputado federal Themístocles de Almeida vieram prestigiar o início da obra e voltaram para inaugurar a Fábrica.

Em 1907, a Fábrica de Tecidos conquistou o título de Campeã Nacional de Tecelagem numa exposição no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Era uma fábrica tão produtiva que, ao morrer de colapso aos 55 anos, em 1918, Francisco de Martino deixou para “Sinhá Dona”, como Brasileira era chamada, duzentos contos de réis em algodão estocado, três fazendas (Baú, Ubá e Conde) e mais de 60 casas de operários à beira da linha férrea.

Francisco de Martino não realizou seu último desejo: instalar uma filial da São Martino em Juiz de Fora. Mas foi por sua iniciativa que a Sociedade Operária de Miracema foi fundada. Ele era amigo de Ricardo do Valle, de ideias socialistas e dono de uma Olaria nos arredores da cidade.

Com a morte de Francisco, a Fábrica passou a ser dirigida por seu irmão Miguel de Martino, que iniciou uma nova fase, com mais 20 teares, graças à instalação da luz elétrica em 1915. A indústria recebeu novas máquinas para fiação e passou a chamar-se Fiação e Tecelagem São Martino. Miguel convidou o desenhista Francisco Lemos Junior para projetar a efígie de São Martino – um antigo Bispo francês, que era protetor dos pobres.

A Revolução Industrial promovida na Inglaterra por James Watt, que inventou a máquina à vapor, se espalhou para o mundo; o Brasil chegou a ter a segunda malha ferroviária da América Latina. Depois, veio Henri Ford fabricando carros em série e provocou uma nova revolução industrial no mundo.

Francisco de Martino é um nome gravado para sempre na história de Miracema e do Estado do Rio, por ser o homem visionário que implantou uma grande fábrica no então distrito de Miracema, na época dos lampiões belgas. Na ocasião, Miracema tinha duas ruas mal traçadas e apenas a via férrea como marca de civilização. Sempre zelou pelo conforto de seus empregados. Construiu para eles uma vila residencial e a Sociedade Operária, oito anos após a Revolução Russa.

Por esse passado de lutas, trabalho e glórias, Francisco de Martino deve ser reverenciado como um benemérito do município, pois foi um dos grandes impulsionadores do progresso de Miracema. Poderia ter realizado muito mais se a morte não cortasse as suas asas tão cedo.



quinta-feira, 18 de abril de 2019

A DIÁSPORA DA FAMÍLIA DE MARTINO – POR MAURÍCIO MONTEIRO (1ª PARTE)


Nota: transcrito de uma edição do jornal “O Tempo”, de maio de 2004. Por ser um texto grande, dividi o mesmo em duas partes.

San Guivan Piro, uma pequena cidade situada na Província de Palermo, na Itália, e de lá que são oriundos os de Martinos, que imigraram para o Brasil no século XIX. O primeiro deles foi o padre Francesco de Martino, que chegou a ser responsável pela Capela de Santo Antônio dos Brotos, em 1867. O outro, Bruno, continuou em Piro. Sustentava a família como pescador. Seus quatro filhos adolescentes passaram também a seguir os passos do pai no comércio de peixes, em pequena embarcação que deixava a sua esposa aflita, quando se distanciava muito da terra com os filhos menores.

Francisco, o filho mais velho de Bruno, aconselhado pela mãe, resolve deixar o povoado, vindo para o Brasil em companhia dos irmãos menores: Geraldo, Miguel e Pepito. O primeiro, com 15 anos, fica com o pároco da Capela e os outros dois se dirigem para o Uruguai. Francisco inicia a sua vida em Miracema como camareiro da Pensão Braga, uma pequena hospedagem. No resto do dia faz entregas nas casas com uma pequena carroça. Depois, comprou mais uma e outra mais. Era conhecido como “Chico Carroceiro”.

Prosperou e abriu uma pequena venda. Suas carroças traziam produtos da lavoura para o comércio no povoado. Abriu uma barbearia e com sua tesoura Solingem melhorava o visual de nossos antepassados e tosava cabelo dos índios puris. Deixa de ser conhecido como Chico Carroceiro e torna-se Chico Barbeiro. Nesta época que chega ao distrito uma senhora com a filha Brasileira Lídia Souza Lobo, menor de idade, acompanhada por duas escravas e se instala no final da Rua da Capivara, dedicando-se a criar perus.

Deodato Mendes Linhares era dono da Fazenda Cachoeira Bonita e de muitos escravos. Vinha ao povoado fazer compras e passava em frente à casa de Brasileira, que vivia com sua mãe, a senhora Lobo. Prestava atenção à moça, que ajudava a mãe no comércio de aves e ia ao centro comprar na venda de Francisco de Martino. Daí nasceu um flerte, platônico.

Brasileira acabou aceitando o convite de Deodato para morar na Fazenda Cachoeira Bonita com ele, um quase cinquentão, enquanto ela, uma menina-moça. Deodato tinha hábito de usar um lenço na cabeça, o chamado “lenço quatro pontas”, sob o chapéu.

Da união de Brasileira e Deodato nasceram quatro filhos: Olava, Homero, Antônio e Altivo, o caçula dos Linhares, que era o “barulho”. Deodato e Brasileira viam com os filhos até a Estação Ferroviária, onde embarcavam para visitar os parentes em São Fidélis e Pádua.

De Martino não conseguiu casar-se com seu flerte, Brasileira, mas deixou esses versos:

Debalde o mundo me chama
E eu para o mundo já morri
Perdi o gosto das festas
Desde o dia em que te vi.
Triste a vida de quem ama oculto
Dobrada pena padece
Passando por seu bem,
Fingindo que não conhece.

Ele, então, casou-se com Angélica da Silva Vidal. Ela morreu pouco depois do casamento. Não deixou filhos. Quase dez anos após quem falece é Deodato e seu casamento com Brasileira foi feito às pressas para que os filhos herdassem a Fazenda Cacheira Bonita.

Viúvos, Francisco de Martino e Brasileira finalmente consolidam o antigo namoro e casam-se, ela, então, com 28 anos. Tiveram quatro filhos: Orlando, Maria Itália, Bruno e Maria Emília.

continua... 

domingo, 14 de abril de 2019

UMA VIAGEM NO TEMPO (1953) – POR MAURÍCIO MONTEIRO (3ª PARTE/FINAL)



continuação... 

Dois meses após a memorável festa, houve a comemoração da Proclamação da República, com alvorada e desfiles pelas ruas da cidade com o TG 217 e a Banda XV de Novembro à frente.

Naquele distante ano de 1953, João Ivonette encerrou o ano letivo do TG 217 em grande estilo, convidando para patrono dos formandos o general Alberto de Matos e Silva, juntamente com o professor Euclides Armando da Silva, presidente de honra do TG, e o major Sérgio Delgado que, no Cine Sete, encerrou as festividades em noite de gala. Foram convidados a subir ao palco: Lauro Lemos Montra e a menina Ivane Soeiro Pinto declamando “A Pátria” de Olavo Bilac; Bruno de Martino, Dr. Otávio Tostes, Antônio Antunes de Siqueira e o primeiro presidente do TG, Dr. Euclides Armando da Silveira, que, em 1910, foi escolhido como o seu primeiro dirigente do país; e, como orador do TG o então simples atirados Maurício José Corrêa.

Euclides Armando falou que, depois de 43 anos, Ivonette foi busca-lo em Niterói para receber essa homenagem. Emocionado, agradeceu a lembrança de seu nome pelo instrutor do TG. A seguir, discursou o então deputado Melchíades Cardoso, saudando o seu ex-instrutor, general Matos, pelos reais serviços que o Tiro de Guerra presta à nação, como uma escola de civismo, fundado pelo professor Armando Amaral.

Por fim, falou o paraninfo da turma, general Matos e Silva, que relembrou os seus tempos em Miracema, de 1917 a 1918. “Ausente há 35 anos da cidade, morando em Juiz de Fora (MG), tenho a oportunidade feliz de rever Miracema e os meus velhos amigos que aqui deixei”, afirmou. Em eloquente exortação patriótica, conclamou seus paraninfados ao exato cumprimento do dever em todas as atividades humanas, mirando-se sempre no espelho da Bandeira Nacional para todos os empreendimentos. Solicitou, finalmente, ao prefeito Plínio Bastos de Barros, a construção da sede do Tiro de Guerra 217.


sexta-feira, 12 de abril de 2019

UMA VIAGEM NO TEMPO (1953) – POR MAURÍCIO MONTEIRO (2ª PARTE)



continuação... 

Naquele ano faleceu dona Lídia Brasileira Linhares de Martino e o Colégio enviou um grupo de normalistas para o féretro. Um neto dela, vindo de outra cidade para velar a avó, deparou com Neyse Gabeto, a eterna Rainha dos Estudantes, e teve um impacto. Comentou depois com amigos: “Eu não sabia se flertava com ela ou se chorava a morte da vovó, pois minhas lágrimas secaram”!

Um mês antes, numa discreta cerimônia do Tiro de Guerra 217, foi empossado o novo instrutor, João Ivonette Padilha Ennes, substituindo o subtenente Jacinto Lobo de Medeiros, temido instrutor que a 25 de agosto iria comemorar o “Dia do Soldado” com a devida pompa: hasteamento da Bandeira às 8h, com os atiradores e um desfile pelas ruas da cidade. Às 19h uma sessão cívica com dois oradores: Lauro Lemos Lontra, que falou sobre Maria Quitéria, e Maurício José Corrêa, que lembrou o papel que Duque de Caxias desempenhou na vida brasileira. Esta solenidade foi prestigiada por alunas do Colégio Miracemense.

Ivonette Ennes deu destaque no mês seguinte, comemorando o Dia da Pátria com alvorada pelas principais ruas da cidade, com a Banda Sete de Setembro. Depois do desfile, outra solenidade daria prosseguimento à festa, com a presença das normalistas do Colégio Miracemense, Nossa Senhora das Graças, Grupo Escolar Dr. Ferreira da Luz, Grupo Escolar Prudente de Moraes e o Jardim de Infância Clarinda Damasceno. Estiveram presentes todas as autoridades constituídas de Miracema. Ivonette abriu a festa cívica com discurso, seguido de Celso Bastos de Barros, como vereador e representante do prefeito Plínio Bastos de Barros, e Adumont Monteiro representando o Rotary Club. A seguir, o desfile escolar, precedidos por quatro motocicletas, que abrilhantaram a parada.

Lúcia Gualter e suas alunas dão uma demonstração de ginástica na Praça do Rink. Logo após uma corrida de 1.500 metros em volta do jardim disputadas pelos atletas do Miracema FC, Esportivo FC, Tupan EC e o Tiro de Guerra 217, que levou os três primeiros lugares, com Elísio dos Santos, Getúlio Carneiro da Rocha e Romeu Silva. Logo após, houve uma corrida de bicicletas. Naquele dia, dedicado à Pátria, Farid fora dormir ouvindo os acordes da Banda Sete, que fazia a alvorada, e só acordou com os apitos do Expresso que chegara mais cedo. Do jeito que dormira, de camisa de meia e abrindo e abrindo a porta com um caixote de querosene em uma das mãos, colocou-o na calçada e sentou. Estava anoitecendo e, mesmo assim, avistou o Silvio Felix, o Burú, passar num terno branco e gravata vermelha em direção ao Cine Sete, em passos apressados, sem fazer a tradicional saudação amiga.

Divisou ainda o Belo passar pela Rua das Flores em direção à Estação Ferroviária para apanhar os filmes do Cine Sete e deixar os jornais na banca do Neném Amaral. Via o vai-e-vem do pessoal em trajes domingueiros, encaminhando-se para o cinema, para a sessão cívico-lítero-musical comandada pelo seu vizinho, o professor Ernestino Faria. Pouco depois, passou o Neném Amaral e deixa o jornal em seu colo, com uma leve saudação, antes de chegar em casa. Naquela noite sua casa não abriria. A movimentação estava concentrada na Rua Direita e nos bares Leader e Pracinha, antes do baile no Aero Clube, onde seria coroada a rainha do TG, Magali Siqueira, e as princesas Julieta Amim, Solange Coelho, Nélia Bastos e Aparecida Medeiros.

Só a manhã seguinte saberia o que ocorrera no dia dedicado à Pátria, através do Burú. “O Bruno de Martino discursou muito bem, mexeu mesmo com o civismo da moçada, e um tal de Dr. Walgano Barbosa, de Castelo (ES), que enalteceu o sargento Ivonette, falou bonito e até trouxe um diploma e uma medalha de bronze, ofertada pelo Getúlio Vargas”. “E na Câmara”? – indagou o Farid. “Eu não fui lá, pois começou cedo e tinha muita gente, muitos discursos. Até o estudante de Cisneiros, o Maurício José, discursou”. E arrematou: “Coruja, você sabe que eu ganho uma ninharia para trabalhar a semana inteira, de domingo a domingo, e ainda pinto tabuletas durante o dia, e esse rapaz andou promovendo uma roda boba para ninguém compra ingressos. Os estudantes só pagam meia-entrada e o aumento foi de centavos. Mais tarde, fui ao Rink para ver a Lúcia Gualter fazer uma demonstração de ginástica com suas alunas. Ela é uma das moças mais bonitas de Miracema”, contou Burú.

continua... 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

UMA VIAGEM NO TEMPO (1953) – POR MAURÍCIO MONTEIRO (1ª PARTE)


Maurício Monteiro
Nota: transcrito do jornal “O Tempo”, de setembro/outubro de 2003. Por ser um texto grande, dividi o mesmo em três partes. Aproveito a oportunidade e parabenizo o Dr. Maurício Monteiro, um historiador que retrata fielmente fatos e personagens marcantes de Miracema.


Naquele 1º de agosto de 1953, os jornais (que só chegavam no dia seguinte, à noite, na banca do Neném Amaral) davam notícias da crise do governo de Getúlio Vargas, através da CPI do jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer, que era fustigado por um seu ex-colega, Carlos Lacerda. Estampava também o governador de Minas, Juscelino Kubistcheck, que dizia que era cedo para falar em sucessão presidencial, prevendo que a crise teria fim.

Em Miracema, com o término das férias de julho, os estudantes retornam ao convívio no internato e na pensão da dona Julica e o tradicional passeio das internas, de duas a duas, animam a Rua Direita. Aos sábados, José Ferreira de Assis ligava as luzes de néon do magazine “Ao Reis dos Barateiros”. No domingo, o Esportivo venceu o Miracema por culpa do Jair Polaca, que, ao invés de cruzar a bola para o Parafuso cabecear e marcar os gols, preferiu, ele mesmo, arriscar. Resultado: acabou por erra seguidamente o gol e acertar uma pacata lavadeira do outro lado da rua, jogando-a na cacimba. Socorrida no consultório do Dr. Moacyr Junqueira, lamentava: “Eu não sabia que o Jair jogaria hoje, senão teria ficado dentro de casa”. Chicralla Amim, presidente do Miracema, aborrecido com Polaca, criticou severamente o ponta-direita. Mas Chicralla não podia repreender o Polaca, pois ele, Chicralla, passara a semana toda sem ir em sua concessionária Chevrolet, no centro de Miracema, passando este tempo todo acompanhando o poeta Olegário Mariano em recitais no Aero Clube e no Rotary. E foi o Polaca quem ficou tomando conta da empresa para ele.

No sábado, o temperamental porteiro do Cine Sete, Burú, passou com várias tabuletas na cabeça, anunciando o faroeste estrelado por Charles Starret e o seriado do Perneta. Dizia que o Polaca entraria de graça. Depois da fita, já alegre, de passo rápido, ainda alcança o Farid Felix naquele passo arrastado. Bateu nas suas costas, dizendo: “O Coruja, precisa tomar um banho”. Farid retrucou: “Não amola”. E continuou a conversar com Fernando Moura até o seu botequim. Abriu a porta, que rangia, acendeu a luz e ligou aquele velho rádio RCA valvulado que, cansado de ficar ligado à noite, demorava a começar a falar. Acendeu o fogo e veio aquela cinza nos óculos, o que o tornava ainda mais sujo, cego e surdo. E o Burú continuava falando, rindo. Já não era mais o temido porteiro que dava corrida na garotada.

No fim de semana, Sebastião Soares da Costa, naquela “oca” do jardim, ligava o serviço de alto falante no programa de notícias da cidade e do Colégio. Ao som do bolero “assim se passaram dez anos”, lia as notícias fazendo pose e puxando pelos erres. Lia “A Hora do Estudante Faltoso”. Havia alunos que faltavam à aula só para ouvir o seu nome no programa. O Colégio tinha um jornalzinho, fundado por Evandro Freire, intitulado “Avante”, e que tinha como redator um aluno do curso científico, Maurício José Corrêa, que mais tarde se tornou o todo poderoso presidente do Supremo Tribunal Federal. Maurício José, como era conhecido, morador em Cisneiros, distrito de Palma (MG), era magro, alto, narigudo e quem levava o jornal para a gráfica para ser impresso. Na coluna humorística dizia que um aluno, o Edomar Vargas, tentou dar um golpe do baú ao pedir em casamento a filha de um homem rico da cidade.
- O senhor tem emprego para sustentar a minha filha? – perguntou o pai.
- Não, mas acredito que o senhor não vai deixar sua filha passar fome – respondeu Edomar.


Maurício José Corrêa
já presidente do STF. 
Esta outra, quem diria, Maurício José teria vetado. Era um aluno do Ginásio, Reynaldo, que, chamado ao quadro negro para declinar um verbo em latim, respondera: “Não sei”. O professor o repreendeu: “Mas o senhor está há quatro anos no colégio e a sua resposta é sempre a mesma”! O professor, já sem paciência, disse-lhe: “Vá, então, à Loja Marcelino comprar uma caixa de fósforos para mim”. Reynaldo saiu e, quando tocou a sineta, ele regressou à sala, sendo abordado pelo professor que lhe perguntou: “E a caixa de fósforos”? Luiz Reynaldo respondeu: “O Marcelino falou que o senhor não tem crédito para comprar uma caixa de fósforos”. O professor empalideceu. Ele era o juiz da cidade.

continua... 


domingo, 24 de fevereiro de 2019

VOCÊ CONHECE A LINDA HISTÓRIA DO MIRACEMENSE GILBERTO BARROSO DE CARVALHO?

BUSTO DE BARROSO DE CARVALHO NO JARDIM DE MIRACEMA


Gilberto Barroso de Carvalho viveu quase sempre em Miracema, onde nasceu em 23 de abril de 1892, tendo sido seus pais os professores Antônio Firmino de Carvalho e Rosa Barroso de Carvalho. Foi casado com Otília Lisboa de Carvalho,  destacada filha de Pádua. Teve dois filhos: Lenine e Antônio. Faleceu em 24 de fevereiro de 1926. 

De sua curta existência, apenas três ou quatro anos foram passados fora de sua terra natal, isso quando residiu no sul de Minas e no sul do Espírito Santo, desempenhando funções oficiais como o de professor e Diretor Técnico do Ginásio de Alegre (ES) e de elevado funcionário público, em Passos (MG). Barroso de Carvalho foi um eterno e romântico boêmio, que improvisava adoráveis versos satíricos e jocosos os quais, por muito tempo, permaneceram na memória dos seus contemporâneos.

De índole versátil como poeta, como orador, como jornalista e, especialmente, como pensador despretensioso, deixou Barroso de Carvalho renome famoso de versejador perfeito, de tribuno impressionante, de polemista destemido e de filósofo eclético. Era um estilista por natureza, daí o primor corrente de toda a sua produção literária, quer no verso, quer na tribuna, quer nas colunas da imprensa; como orador em todos os acontecimentos cívicos, sociais e políticos nunca foi, em seu tempo, igualado. Era um virtuose da palavra que arrebatava os auditórios. Por falar quase sempre de improviso, seus discursos infelizmente se perderam no tempo e no espaço.

Ficou famosa, no entanto, a frase da oração, por ele proferida em saudação ao então Governador Feliciano Sodré, no auge da campanha separatista: "Miracema! Águia cativa que sofre o martírio dos que vivem sentindo asas nos ombros e grilhões nos pés".

A obra literária de Gilberto é algo que deve ser divulgada com justa ufania pelos miracemenses, não somente pelo encantamento lógico respectivo, como pela conceituação comunicante de sua amargurada filosofia em que flutua sempre um pensamento ilustre invocando o céu, a terra e o destino. Escreveu em jornais dos Estados do Rio, Minas e Espírito Santo, principalmente nos semanários de sua cidade "O Município" e "Nova Fase".

Publicou em 1925 o seu admirável livro de versos "Pontas de Fogo", todo ele escrito em Miracema, e que foi o repositório de sonhos e realidades, aprimorados no crisol ideal de seu engenho. Sobre sua obra, na ocasião, escreveu o político e literato Nogueira da Gama: "Dentre os que modernamente perpetram o chamado modernismo, nenhum excedeu ainda e, muito poucos, poderão ombrear-se com o bardo miracemense".

Na mesma época, o tradicional jornal "O Friburguense", em especializada seção de crítica literária, a seu respeito, publicou os seguintes conceitos: "A originalidade de Gilberto Barroso de Carvalho, não vai encontrar no Parnaso nacional senão louvores, muitos louvores. O seu livro é encantador... As suas rimas e seus alexandrinos são incomparáveis...".

A intelectualidade brasileira, pelas vozes de Ozório Duque Estrada, Agripino Grieco, Joio Ribeiro, Leôncio Correia e Povina Cavalcanti, não lhe regateou elogios.

Por ocasião de seu falecimento, com apenas 34 anos, Francisco Perlingeiro escreveu no jornal "O Agrário", então existente: "O Município perdeu com Gilberto uma das mais belas esperanças de nossa mocidade", e o Dr. Vicente Moliterno, acatado escritor gaúcho, então residente na cidade, assim se manifestou: "Gilberto era para esse povo como um sol que apagasse de repente e do qual todos sentiam os reflexos de seu talento e dos seus versos, que corriam, transpondo as fronteiras de Miracema...".

Grande batalhador da causa separatista, Gilberto Barroso de Carvalho não assistiu à realização de seu sonho, falecendo antes que Miracema fosse libertada.

FONTE: DOS ESCRITOS DE MELCHIADES CARDOSO ADAPTADOS POR MARCUS FAVER.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

POBRE E TRISTE FUTEBOL CARIOCA...



Um dos campeonatos regionais mais charmosos do Brasil está no fundo do poço, agonizando e sem forças para reagir, pois aqueles que deveriam socorrê-lo, são os primeiros a denegrir a própria competição. Refiro-me aos dirigentes que não estão nem aí para campeonato, só pensam em tirar proveito e vantagens pessoais, deixando os torcedores, que também são parte do espetáculo, à mercê de suas decisões sem o mínimo de bom senso. O Maracanã e a Federação com arrecadações absurdas e os clubes – exceto o Flamengo, que passa por um melhor momento financeiro – envoltos em dívidas astronômicas causadas por anos e mais anos de administrações amadoras e brigas políticas internas que aniquilam a saúde financeira da instituição.

Esse esporte que aprendi a gostar é o de estádios cheios, com as lindas bandeiras tremulando, os gritos de incentivo ao seu time, craques aos montes dentro de campo, ídolos que se respeitavam e jogos e decisões de se tirar o fôlego. Eu reconheço que nem tudo era perfeito, cometiam-se erros, mas era muito mais gostoso em todos os sentidos de curtir e torcer pelo seu time. O futebol era tão mais bonito e saudável, que reverenciávamos até o ídolo adversário, não importando a camisa que vestia. A rivalidade é sadia e importante para qualquer esporte, pois sem ela tudo seria muito sem graça, mas falo da rivalidade dentro de campo, não essa impregnada por esses marginais que se dizem torcedores.

Se já não bastasse tantos problemas, acontece essa tragédia no Ninho do Urubu, ceifando 10 vidas de jovens ávidos por vencer no futebol que tiveram seus sonhos interrompidos de forma abrupta. O clube tem a sua parcela de culpa e pagará por isso. Assim como os órgãos públicos fiscalizadores devem ser responsabilizados por tamanha inércia. O “jeitinho” brasileiro de empurrar os problemas com a “barriga” tem causado danos irreversíveis: Amanhã eu faço! Mais tarde vejo isso! De segunda, não passa! Assim que possível, vou dar uma olhada! Hoje não é um bom dia para isso! Semana que vem eu resolvo!

Para encerrar, o futebol perdeu todo o seu romantismo e o torcedor, no cenário nacional, chegou ao ponto de não mais se interessar até pela nossa seleção. Os motivos são diversos e sabidos por todos. A participação do Brasil no recente Campeonato Sul-Americano Sub-20, não alcançando a classificação para o próximo Mundial da categoria, retrata a nossa triste realidade. Corremos um sério risco de passar mais uma vergonha na disputa da Copa América de 2019, que será realizada em solo brasileiro.