segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A FERROVIA EM PÁDUA E NO NOROESTE FLUMINENSE (1883) – POR JOÃO BAPTISTA FONSECA.


Em meados do século XIX a produção agrícola crescia. A população também. Os transportes existentes, primitivos e arcaicos, já não bastavam à região. Era necessário que os trilhos da estrada-de-ferro chegassem a Pádua.

O engenheiro inglês George Stephenson inventara a locomotiva, que foi posta em funcionamento no dia 25 de julho de 1814. A vulgarização desse meio de transporte usado, a princípio, só para fins comerciais e mais tarde, também para passageiros, deu-se depois que Stephenson aplicou à sua locomotiva o princípio do aquecimento tubular, inventado por outro engenheiro inglês, Mark Seguin. 

A locomotiva assim construída tomou o nome de Rocket, espalhou-se pela Europa e, depois, pelos demais continentes. A primeira estrada-de-ferro do mundo foi implantada igualmente por Stephenson, ligando Manchester a Liverpool, na Inglaterra. Limpa, vencendo distâncias com rapidez, a estrada-de-ferro difundiu-se no planeta. O Brasil precisava de igual melhoramento. O engenheiro Irineu Evangelista de Sousa construiu a primeira estrada de ferro brasileira sendo também a primeira da América do Sul. Foi inaugurada em 1850, ligando a capital do país, Rio de Janeiro, à cidade serrana de Petrópolis. Foi criada nessa época, a Companhia de Estrada de Ferro a qual D. Pedro II, Imperador o deu o nome de Leopoldina, em homenagem à sua mãe, a Imperatriz Maria Leopoldina, esposa de D. Pedro I.
 
Por este feito o engenheiro recebeu das mãos do Imperador o título de Barão de Mauá e, mais tarde, o de Visconde, passando, assim, a ser conhecido como Visconde de Mauá.


O Barão de Mauá projetou e construiu ainda as duas primeiras estradas de ferro do Nordeste, ligando o rio São Francisco - grande escoadouro da produção dos Estados de Pernambuco e Bahia - às suas respectivas capitais. Recife e Salvador. Eram as regiões ricas do Ciclo do Açúcar e do Ciclo cacau e mais, construiu também as três primeiras estradas de ferro que transpuseram a Serra do Mar, além da ligação do Rio a Petrópolis, ligou também o Rio de Janeiro a Friburgo, e São Paulo a Santos. As máquinas locomotivas, como todo o material usado, eram importados da Inglaterra que mantinha o trust.

A estrada de ferro ramificou-se, ampliando-se. De Friburgo um ramal foi levado a São Fidélis, porto do rio Paraíba do Sul, por onde se escoava a produção agrícola do norte e noroeste do Estado do Rio de Janeiro. São Fidé
lis foi, portanto, a primeira cidade do Noroeste a receber os trilhos, só que na outra margem do rio, fora da cidade. A estação chamou-se Luca, em homenagem a Frei Ângelo Maria de Luca, o fundador da cidade de São Fidélis junto com o Frei Vitório de Cambiasca.
 
Mais tarde, uma companhia inglesa conseguiu a concessão das linhas férreas dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. Não mudou o nome da companhia. Apenas acrescentou a palavra Railway que quer dizer caminho reto, isto é, estrada-de-ferro. Assim, passou a se chamar Estrada-de-Ferro Leopoldina Railway.

Se esse melhoramento tão grande já estava em São Fidélis, sem dúvida deveria chegar a Pádua. Paduanos de projeção social, econômica e política uniram-se e resolveram o problema. Seria criado um ramal férreo que se ligaria ao de São Fidélis e, por esse, já ligado à ferrovia, em Friburgo, se chegaria ao Rio de Janeiro, a capital do país.

Para tanto, fundou-se a Companhia de Estrada de Ferro de Santo Antônio de Pádua e, eleito seu presidente, o Tenente-Coronel Joaquim de Araújo Padilha, fazendeiro e político que, por intermédio de um sobrinho, advogado no Rio, conseguiu, em 1876, a concessão para a implantação do ramal. O engenheiro Vieira Braga ficou com a responsabilidade de traçar e executar o projeto.

A companhia foi organizada com o capital de 300 contos de réis, integrado por ações de 200 mil réis. O interesse dos proprietários e dos locais por onde a estrada-de-ferro passaria foi grande e diversos fazendeiros daquelas localidades também colaboraram.

Em Pádua, entre muitos, encontravam-se os Barros, o Visconde Figueira, a família Leite, Mathias Ney (meu avô), os Schimit, os Olivier e outros. Havia também grande número de acionistas de Cambuci, Monte Verde, São Fidélis e Itaocara, naquele tempo denominada, ainda, São José de Leonissa da Aldeia da Pedra.

A ferrovia teria início no município de São Fidélis onde se construíra a primeira estação, Luca. Esta ferrovia foi implantada pelo Barão de Nova Friburgo sob contrato feito com a Diretoria de Obras Públicas da Província, assinado em 17 de janeiro de 1880, ligando São Fidélis a Friburgo. O traçado original da ferrovia para Pádua seguiria pela margem esquerda dos rios Paraíba e Pomba, terminando em Miracema, sem cortar o leito do Pomba. Só em Luca seria feita a travessia da mercadoria, através de barca.

Por imposição de alguns fazendeiros, acionistas da margem direita, entre eles os Leite, os Parreira, os Melo, Mathias Ney, Olivier e outros com grande produção em suas fazendas, o traçado foi modificado fazendo-se uma ponte de ferro em Funil, arraial próximo de Aperibé, que atravessaria o rio Pomba, passando, assim, os trilhos para a margem direita. Ao chegar a Paraoquena, na época denominado Barra do Pomba, novamente teria de voltar para a outra margem, a fim de chegar a Miracema, ponto final da linha férrea. Além disso deveriam ser construídas duas pontes de madeira, uma dentro da cidade, em Pádua e outra na localidade de Baltazar. 

À proporção que a estrada ficava pronta até determinado local, a estação era construída e o trem corria nos trilhos, mas as pontes, feitas de ferro, atrasaram e oneraram a construção da estrada. Além disso a burocracia também contribuiu para os atrasos. A ponte de Paraoquena ficou pronta bem antes e ficou esperando até o dia 8 de agosto de 1883, quando a Diretoria de Obras Públicas da Província recebeu, afinal, a autorização para transpor o Pomba, e só então o tráfego ficou aberto até Miracema, distrito de Pádua, ponto final da linha. Na inauguração, em Miracema, no dia 10 de agosto de 1883, houve uma grande festa. O trem chegou apitando e com o sino batendo debaixo de fogos e aplausos. O povo todo na rua comemorava a chegada do grande progresso. O Dr. Francisco Antunes Ferreira da Luz, médico respeitado e político de prestígio em Pádua, fez o discurso inaugural.


Ao passar por Pádua, apitando e batendo o sino, o trem fez uma parada na estação, construída em terreno, da Fazenda Santa Afra, doado por Mathias Ney. O povo, esperando-o com ansiedade, saudou-o com palavras, fogos e banda de música. Inesperadas circunstâncias, levaram a Companhia Estrada-de-Ferro de Santo Antônio de Pádua a não terminar a obra por ela idealizada e iniciada 10 anos antes. Por vários motivos, foi encampada pela Companhia Macaé & Campos, que a terminou. As primeiras locomotivas eram pequenas. Depois veio uma maior, a Rocket, denominada pelo povo de maria-fumaça. Por ter a estrada desviada do seu primeiro traçado, que seria todo à margem esquerda do rio Pomba, prejudicando, assim, muitos dos fazendeiros daquela margem, a companhia assumiu o compromisso de construir as duas pontes, uma dentro da cidade de Pádua e a outra no distrito de Baltazar.

Assim foi como Pádua ganhou a sua primeira ponte de madeira dentro da cidade, facilitando, dessa forma, o acesso do povo e das mercadorias da margem esquerda à estação, construída na margem direita. Depois de pronta, a companhia entregou à Diretoria de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro que a passou à Câmara Municipal, em ofício datado de 9 de janeiro de 1884.
 
A ferrovia, de bitola estreita, da estação de Luca, em terras de São Fidélis onde teve início, até o ponto final, em Miracema, media 92 quilômetros de extensão e muitos benefícios trouxe ao noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
 
Antes disso, havia muitas dificuldades nas viagens. Quem quisesse ou precisasse viajar para o Rio de Janeiro tinha duas alternativas. A primeira, Estrada de-Ferro D. Pedro II, que havia chegado a Além Paraíba. Minas, em 1871. Mas tarde, Palma e Pirapetinga, também em Minas, receberam seus trens. Portanto o viajante teria de ir, então, a cavalo a uma dessas localidades onde pegaria o trem. 
 
A segunda, que seria por Campos, teria de enfrentar baldeações e travessias de balsa ou canoa sobre o Rio Paraíba do Sul. Campos só teve ligação direta com Niterói 17 anos depois, em 1888. Dormia-se em Campos e, no dia seguinte, seguia-se para Niterói ou Rio, de trem. Dois dias de viagem, de Pádua ao Rio.

Em Itaocara o trem chegou em 1885. A viagem também levava dois dias, pernoite e baldeações, andando-se de trole ou a cavalo até chegar a Itaocara a margem direita, atravessando-se o rio Paraíba de balsa ou canoa. As viagens melhoraram quando foi inaugurada a estação de Portela em 12 março de 1890, construída pela concessionária Macaé & Campos. Saía-se de Pádua de trem às 6 e 15 da manhã, chegava-se à estação de Três Irmãos atravessava-se o Rio Paraíba do Sul em canoa ou balsa e tomava-se de novo o trem na estação de Portela, seguindo-se até Friburgo, onde se almoçava. Descia-se a Serra dos Órgãos, chegando-se ao Rio de Janeiro às 7 das da noite. Foi um avanço extraordinário e a viagem, embora levasse o dia inteiro, ficou mais suave. Fiz o percurso até Friburgo, ainda menina com minha mãe, algumas vezes. Íamos visitar Maria, minha irmã mais velha, que lá estudava - Colégio Nossa Senhora das Dores, das Irmãs Dorotéias. 

Em 30 de julho de 1890 chegou a Campos o engenheiro Dr. Joseph Lynch com pessoal técnico e os subempreiteiros que construiriam as linhas férreas de ligação da Companhia Leopoldina, entre Campos, no Estado do Rio, e Itapiruçu, no Estado de Minas Gerais. Assim, os dois estados ficariam ligados. Itapiruçu um distrito pertencente ao Município de Palma, já tinha trem que vinha de Belo Horizonte, passava por Palma, dirigia-se a Três Rios, onde atravessava o rio Paraíba do Sul em ponte de ferro, chegando a Petrópolis, descendo a Serra da Estrela, alcançando a capital federal, o Rio de Janeiro.
 
Assim, Pádua ligou-se ao Rio por dois caminhos que se uniram às duas primeiras linhas férreas feitas pelo Barão de Mauá, a de Petrópolis e a de Friburgo.

A ferrovia de Campos a Itapiruçu teve na região, em São Fidélis, a primeira ponte férrea sobre o rio Paraíba, medindo 430 metros de extensão e ligando as duas margens do rio Paraíba, alcançando, então, o total de 70 quilômetros de trilhos. Em 25 de agosto de 1891, às três horas da tarde, o povo teve a felicidade de assistir à passagem do primeiro trem sobre a ponte, ligando a estação de luca à margem direita do Paraíba, à cidade de São Fidélis, à margem esquerda. Foi uma vitória espetacular e uma imensa alegria para todos, celebrada com grandes festejos, já que o rio Paraíba do Sul era a grande barreira entre o norte e o sul do Estado do Rio de Janeiro.

O ramal ligando São Fidélis a Campos ficou pronto dois anos mais tarde, em 1892. A viagem, embora longa, por fazer um grande percurso, indo a Campos para, só depois, descer para o Rio de Janeiro, melhorou consideravelmente por não se fazer baldeação e não se atravessar o rio Paraíba de balsa ou de canoa. Mesmo assim, muitos passageiros naquela época, preferiam passar por Friburgo, via Portela, atravessando o Paraíba de canoa ou de balsa para chegar mais cedo, à capital do Estado, Niterói, ou à capital federal, Rio de Janeiro. Só no ano seguinte, 1893, Paraoquena se ligou a Itapiruçu, completando o percurso traçado.


A estrada de ferro avançava e em 1895, Bom Jesus do Itabapoana foi ligada a Três Irmãos com 66 quilômetros de trilhos. Assim, a Província do Rio de Janeiro, depois Estado do Rio de Janeiro, foi-se interligando graças à ferrovia, facilitando o transporte não só de passageiros como de mercadorias provenientes dos grandes centros para o interior, bem como de toda a produção agrícola da região para os grandes centros.

A nova estação da Estrada de Ferro Leopoldina Raílway, feita em terreno doado por João Xavier Rodrigues, pai de Edvaldo Xavier, o Dodô, foi construída na década de 1930 pela firma inglesa H. Glaizer, de Friburgo, a mesma que, mais tarde, construiria o Hospital Manoel Ferreira, em Pádua. 

A estrada de ferro — implantada pelos ingleses em todo o país — trouxe para o Brasil na ocasião, um grande progresso. As regiões norte e noroeste do Estado do Rio de Janeiro evoluíram muito, fazendo a produção agrícola aumentar, a população crescer e o comércio tomar grande impulso! 

Os ingleses mantiveram o contrato da Estrada-de-Ferro Leopoldina Railway até a década de 1930 ou princípio da de 1940, no governo do Presidente Getúlio Dorneles Vargas. 


Estava-se no século XX, tudo modernizava-se no mundo e o Brasil precisava atualizar-se. Getúlio deu o direito de voto à mulher; criou o salário mínimo; nacionalizou o subsolo e, em consequência, o petróleo; fez a lei trabalhista; implantou a indústria do aço com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional; montou a Fábrica Nacional de Motores, (F.N.M.); e agiu em mais outros setores. Ótimas atitudes e ações! As leis trabalhistas, feitas nesse governo, embora justas e necessárias, por um lado beneficiaram e, por outro, sacrificaram vários setores como o ferroviário, por exemplo, porque enquanto os ingleses mantiveram a concessão da estrada, tudo correu muito bem: os horários de saída e chegada dos trens eram cumpridos; as mercadorias não desviavam, chegando intactas; o passageiro era bem servido e atendido. Havia o trem noturno com leito para as viagens mais longas e o trem especial para os presidentes da República e dos estados. Esse trem tinha os bancos estofados de veludo, cortinas de cetim nas janelas, sala de despacho, sala das secretárias — que anotavam tudo que acontecia na viagem — salão de refeições etc. Enfim, tudo era de primeira qualidade, tanto o transporte quanto o serviço. Ao passar para o governo brasileiro tudo mudou. Os horários não eram cumpridos, as mercadorias extraviavam ou minguavam, denotando roubo, e os funcionários faziam greve, parando os trens em qualquer lugar. A população foi, aos poucos, perdendo a confiança no transporte ferroviário, que acabou sem credibilidade.
 
Darei um exemplo. Viajávamos com frequência - não só nós, mas boa parte da população — e tudo sempre se repetia como dessa vez, que passo a narrar. Só que essa foi uma viagem especial, marcando de forma indelével a nossa mente. Casei-me na manhã de 17 de junho de 1944. Os casais, na época passavam a lua-de-mel no Rio de Janeiro. Desde 1942 o Brasil entrara na Segunda Guerra Mundial juntando-se aos Aliados contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). 

Havia racionamento de muitos produtos, inclusive gasolina. Um de meus cunhados tinha um carro adaptado para gasogênio (gás produzido a partir carvão). Teríamos que ir de carro para Itaocara ou Palma onde tomaríamos o trem. Preferimos Palma. Por essa época Itaocara já ganhara, (1936), a sua bela ponte ligando as margens do rio Paraíba do Sul. Embarcamos em Palma às 8 horas da manhã. O horário previsto de chegada a estação Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, era às 19 horas, mas só chegamos 1 hora da madrugada. Razão do atraso de 6 horas: os maquinistas e os funcionários que trabalhavam no trem tinham direito, pela Lei Trabalhista, de receber em dobro as horas de atraso. Em cada caixa d'água que o trem parava para abastecer-se, ali ficava parado uma hora ou mais, sem ter acontecido nada, absolutamente nada! Às vezes ficavam mesmo estacionados em alguma parada ou estação. Assim procediam os brasileiros. E nada era feito não havendo nenhuma punição para um descalabro desses, num acinte total à que necessitava desse transporte. A lei beneficiava a ineficiência e a malandragem e não punia os erros, nem tampouco estimulava a honestidade. Assim constatava-se como procediam alguns brasileiros, mostrando-se ineficientes e incapazes substituindo os competentes ingleses. Pela falta de caráter de uns poucos, os empregados do governo, todos os usuários - que os sustentavam por serem contribuintes - além de pagarem as passagens, padeciam. A lei era justa mas provocava resultado injusto, como sempre aconteceu, e ainda acontece em nosso país. Esse, além de outros fatores, evidentemente, contribuiu para o fracasso da ferrovia no Brasil.

Trecho extraído do livro “A Casa da Águia” de autoria da historiadora Rita Amélia Serrão Piccinini.




quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

BEBETO ALVIM: O PASSARINHO VOOU E NÃO VOLTOU...



LUÍS ALBERTO DA MOTA ALVIM nasceu em Miracema no dia em 02 de abril de 1952. Filho de Juscelino da Motta Couto Filho e Neusa Alvim Couto cresceu como Bebeto e ganhou a alcunha de “Passarinho” em Campos. Cursou do Primário até o Segundo Grau (Técnico em Contabilidade) em sua cidade natal. De quatorze aos dezoito anos, trabalhou em Gráfica. Posteriormente, passou a exercer a função de Escriturário na Secretaria do Hospital de Miracema. Aos vinte e três anos, ingressou no Banerj, de onde saiu aos vinte e cinco, para o Banco do Brasil.

Permaneceu no Banco do Brasil por vinte e dois anos, aposentando-se, aos 47 anos. Resolveu permanecer em Campos, para estar junto de seus quatro filhos que por lá constituíram suas famílias. O início de seu vínculo com Campos dos Goytacazes deu-se em 1984, com a intenção de ficar mais perto de Miracema, de seus parentes e amigos de infância. Assim, nunca passou mais de três meses sem visita-los. Antes de se ajeitar em Campos, Bebeto trabalhou – a serviço do BB – nas cidades mineiras de Varginha, no Sul do estado, e Almenara, no Vale do Jequitinhonha, já próxima do estado da Bahia.

O litoral foi seu destino para morar em paz, utilizar o conhecimento adquirido ao longo de sua vida e fugir das mazelas da cidade grande. Escolheu Atafona, em São João da Barra, cidade próxima a Campos. Três anos após se aposentar, resolveu voltar aos bancos escolares, em curso superior na área de Agronomia (Ciências Agronômicas), terminando o mesmo aos 53 anos.

Irreverente, de espírito extraordinário, sempre se mostrou participativo nos movimentos socioculturais de Miracema (o Festival da Canção era um deles) e, mais tarde, por onde andou. Nas mesas dos bares, sempre participativo e até engraçado como contador de “causos”, qualidades que muitos consideravam ser produto de sua empatia. Era presença sempre esperada.

Um fato curioso de sua história com a cidade campista é no lado esportivo. O Fluminense era o seu time de coração até chegar à planície. Depois disso, o crescente interesse pelo Goytacaz ocupou um espaço de proporções inimagináveis no coração e na vida pessoal de Bebeto. Junto com seu grupo de amigos fundou a “Torcida Desorganizada”, que marcava presença em todos os jogos ao lado do alambrado, abaixo das sociais do estádio Ary de Oliveira e Souza, em um local estrategicamente escolhido: em frente ao bar. E virou uma grande festa durante anos nos jogos no Arysão

Iniciou sua carreira literária com um livreto sobre a rejeição à modernização do Centro Histórico de Miracema, “MIRACEMA – ASFALTAMENTO DO CENTRO HISTÓRICO – CRÔNICAS DE REJEIÇÃO”, cujo trabalho foi divulgado em seu Blog Moinho de Paz, em 2009. Deu seguimento com o livro “UM PASSARINHO ME CONTOU – MEMÓRIAS DE BOTEQUIM”, sobre suas andanças em locais de convivência, principalmente em bares e afins. 

Passando por um período em que conviveu a insônia, sua companheira desde muito novo, resolveu passar o tempo escrevendo textos que surgiam em suas divagações, contadas no livro “SENSAÇÕES NOTURNAS – MOMENTOS DE INSÔNIA”. A quarta publicação, “SENTIMENTOS AO LÉU”, foi constituída de textos mais leves, mais presentes ao cotidiano e com um grau de otimismo. 

Com uma tempestade de ideias, palavras e textos surgiram dando origem a mais dois livros: “MINHAS SUTÍS VIAJADAS” e “FANTASMAS, TABUS E DESEJOS”. Toda a composição, diagramação, impressão e acabamento dos livros foram feitas pelo próprio autor. 

Durante o tempo em que morou sozinho, na praia, nunca se considerou um solitário. O retiro foi uma opção de busca da tão sonhada liberdade. A exclusividade era forma de garantir e até aprimorar o intelecto. 

Esse era o Passarinho, um cara autêntico, de fortes convicções e de uma inteligência acima da média. Conseguiu driblar uma úlcera, que tirou de letra. Mas, o fígado, combalido aos poucos, minou com suas forças e o “Passarinho” voou e não voltou para o seu ninho, aos 64 anos, em 10 de novembro de 2016, deixando uma lacuna difícil de ser preenchida para todos aqueles que tiveram o privilégio de sua amizade e o conheceram mais de perto. Além de um amigo de muitos anos, foi meu padrinho de casamento. A saudade será eterna e a presença não poderá mais ser sentida, mas as lembranças dos bons momentos vividos são um ótimo conforto, que permanecerão para sempre conosco. 

O Passarinho adormeceu... A praia de Atafona, já tão castigada pela força da natureza - que por muitas vezes foi sua fonte de inspiração para os poemas - o mar encontra-se ainda mais revolto pela sua ausência física a contemplá-lo. Como explicar que um de seus maiores admiradores não mais estará no fim de tarde para ver aquele lindo pôr do sol. Não tem como explicar!

Assim ele descreveu o mar em um de seus livros:


O mar está sempre lá!
Isso é ótimo!
Em vim pra Atafona, por... por... ora, em vim pra Atafona!
Fugir do Mundão e me encontrar
Olhar o Mar, imaginar sua imensidão e sentir mais vezes comigo. Conversar mais comigo.
Viver na Natureza e respirar o ar ainda puro e o Amor também assim... imenso,
O mar está sempre lá!
Afinal, se me decidi morar num balneário, é pra ver o mar.
Eu o faço quase diariamente. Se nada obstar.
O carro de frente para o mar, o rádio e a música, as ‘cruzadas’.
Rigor da intromissão, pecado permitido.
Ante a suavidade e a sublimidade do Paraíso.
O mar está sempre lá!
Nada de nado, surfe ou jacaré
Melhor sentar-se à sombra
Fechar os olhos e abrir a mente
Deixar a inspiração flutuar
Como é grande a vontade de viver!






terça-feira, 31 de dezembro de 2019

DR. NEY MENNA GUTTERRES: NOSSO MUITO OBRIGADO!


Foram quase 60 anos de muita dedicação, carinho e atenção a cada um de seus pacientes, que trazem dentro do coração o seu nome guardado em um lugar muito especial.

Formou-se em 1961 e começou a trabalhar no Hospital de Miracema no ano seguinte. Escolheu sua terra natal para trazer ao mundo 14.622 crianças. Isso mesmo, por suas mãos foram realizados esse total de partos. Pode-se dizer que quase a metade da população de nossa cidade nasceu com ele. No entanto, não é demais acrescentar que muitas mães de cidades vizinhas tiveram seus filhos com ele em Miracema.

Dr. Ney é uma história viva e chega a ser difícil encontrar as palavras certas para traduzir o agradecimento que ele merece. Um verdadeiro exemplo de amor e dedicação à medicina, digno de ser seguido por quem abraça essa linda profissão de “dar” e “salvar” vidas.

Ser médico, não é simplesmente fazer uma opção. Ser médico, não é uma profissão como outra qualquer, pois você vai cuidar de um ser humano, você tem que salvar vidas, e para isso tem que trabalhar com o coração. A sua área específica tem o dom único e o prazer de ajudar a trazer novas vidas a esse mundo. Há médicos do corpo e médicos da alma. Felizes são aqueles que conseguem reunir as duas profissões. 

Muitas vezes o remédio mais importante para o tratamento de seu paciente não se encontra nas farmácias. Ele é composto por respeito, carinho, dedicação e pode ser oferecido a cada consulta. Essas três palavras mágicas, “respeito”, “carinho” e “dedicação”, tão ausentes no mundo que vivenciamos, fazem parte de sua trajetória na medicina.

É uma simples homenagem que faço a um miracemense muito especial e merecedor de nosso agradecimento e respeito. Obrigado por tudo! 

Falando em homenagens, em vida são marcantes e inesquecíveis. Homenagens póstumas são apenas lembranças para os familiares.

No dia 29 de abril de 2018, no encerramento do desfile cívico escolar durante os festejos de aniversário de Miracema, o Dr. Ney foi ovacionado do início ao fim da Rua Marechal Floriano, reconhecimento esse por todos os serviços prestados em prol da medicina. As lágrimas que derramamos durante a caminhada foram de alegria por compartilhar a “alegria” dele ao lado de seus familiares e amigos. Sem palavras para descrever o que presenciamos naquele dia. A ideia dessa homenagem começou nas redes sociais e de imediato foi abraçada por todos.


Dr. Ney, o seu nome está gravado com letras douradas em nossos corações!


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

HOSPITAL COLÔNIA DE BARBACENA (MG): O HOLOCAUSTO BRASILEIRO


Sessenta mil mortos. Esse é o resultado do tratamento manicomial executado no Hospital Colônia de Barbacena/MG. Fundado em 1903 com capacidade para 200 leitos, o hospital contava com uma média de 5.000 mil pacientes em 1961 e ficou conhecido pelo genocídio em massa ocorrido especialmente entre as décadas de 60 e 80. Trens com vagões lotados chamados de “trens de doido”, semelhantes aos dos campos de concentração alemães, despejavam diariamente os “dejetos humanos” para “tratamento” no hospital.

“Lá suas roupas eram arrancadas, seus cabelos raspados e, seus nomes, apagados. Nus no corpo e na identidade, a humanidade sequestrada, homens, mulheres e até mesmo crianças viravam “Ignorados de Tal”; comiam ratos e fezes, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violentados até a morte”.

Estima-se que cerca de 70% dos internados não tinham qualquer diagnóstico de doença mental. O hospital era destinado para a contenção dos indesejáveis, com função de higienização e sanitarismo da localidade, ou seja, sob as bases da teoria eugênica eram enviadas “pessoas não agradáveis e incômodas” para alguém com mais poder, como opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos, epiléticos, alcoolistas, meninas grávidas e violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, entre outros grupos marginalizados na sociedade. Em resumo: era preciso livrar-se da escória, do mal social e do incômodo em um local onde ninguém pudesse ter acesso. Era a barbárie humana.

“Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias os eletrochoques eram tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia e ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, mais de 1.800 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos passaram a ser decompostos em ácido, no pátio da Colônia, na frente dos pacientes ainda vivos, para que as ossadas pudessem ser comercializadas”. E assim, dos ditos “loucos” enclausurados no Colônia, o Estado comia e roia até os ossos! 

O psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro na luta antimanicomial na Itália, esteve no Brasil e conheceu o Colônia em 1979. Na ocasião, chamou uma coletiva de imprensa e desabafou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”.

Os números exorbitantes e silenciados (por mais de 50 anos) das execuções sumárias, frias e violentas que ocorreram no hospital Colônia de Barbacena superam, e muito, as mortes registradas e ocultadas na ditadura militar brasileira (dentre índios, camponeses, perseguidos políticos, etc). Superam inclusive os números das mais sangrentas ditaduras da América Latina, Chile com mais de 40 mil e Argentina com mais de 30 mil mortos. Que Estado de Direito atual é esse? Como se pode permitir a prática e a ocultação desse genocídio por mais de 50 anos sem uma resposta estatal efetiva e humanizada para essas vítimas e seus familiares?

Diante desse cenário nos parece claro o que Michel Foucault chamou de “emergência das técnicas de normalização”. Que são poderes não somente entendidos como efeito de conexão entre saber médico, judiciário e político, mas que se constituiu com autonomia e regras próprias, atravessando e estendendo sua soberania em toda a sociedade, sem se apoiar exclusivamente em nenhuma instituição específica. Os poderes de normalização utilizam um discurso que não se organiza apenas em torno da perversidade, mas do medo, da moralização, da contenção e da hipocrisia.

Hoje restam menos de 200 sobreviventes da Colônia. Alguns deles estão e ficarão internados até o fim da vida porque não conseguem estabelecer vínculos sociais, em decorrência dos excessos de torturas e traumas sofridos no hospício e por não terem mais nenhum contato familiar. Outros sobreviventes foram transferidos para residências terapêuticas em busca de dignidade humana e para reaprender a tomar posse de si mesmos. O certo é que os que não morreram de fato, morreram em essência, em alma, como pessoa humana. Não há muito que ser feito para recuperar essas estruturas já mortificadas.
Nesse quadro esquizofrênico tem-se: um Estado apático, omisso, permissivo, perverso, autorizador e coautor dessa eterna história manchada de muito sangue e horror. A sociedade, por sua vez, em alguns poucos momentos sensibiliza-se com outras tragédias da história mundial, mas desconhece o que ocorreu no seu quintal, às suas vistas. Enquanto micropoderes de normalização, quando sabem da sua história, usam o seu confortável tapa-olho fingindo não fazer parte disso ou pior, seus silêncios aplaudem e validam a eliminação dos indesejáveis sociais (até hoje), afinal, louco bom é louco morto, né?!.

E enquanto isso na sala de justiça… o vazio e a mudez dos inocentes gritam por liberdade e humanidade nas inúmeras masmorras psiquiátricas existentes pelo país afora.

Os 60 mil mortos estão enterrados no Cemitério da Paz, construído junto com o Hospital Colônia no início do século XX, cuja área pertence à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Está desativado desde a década de 80 e a explicação do psiquiatra Jairo Toledo, que respondeu pela direção do centro Hospitalar Psiquiátrico Barbacena até março de 2013, é que o terreno está saturado.

Além do trem muitas pessoas chegavam ao hospital de ônibus ou em viaturas policiais. Várias requisições de internações eram assinadas por delegados, isso porque, antes do Hospital Colônia, muitas pessoas que se achava ter sofrimento psíquico em MG eram colocadas em cadeias publicas ou Santas Casas de Misericórdia.

Ou seja, no caso do Hospital Colônia não havia nenhum interesse em melhoramento da raça brasileira. O que se executava naquela instituição total ia para além da brutalidade humana, tratava-se de extermínio puro e simples, no contexto mais desumano e genocida possível. Inocuizava-se e matava-se pelos motivos mais abomináveis.

Sobre o manicômio de Barbacena, ver o documentário “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton, filmado em 1979, que se tornou o símbolo da luta antimanicomial. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=07p3y- 

Outro documentário mais recente também trata da mesma questão, denominado “Dos loucos e das rosas”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dQMIUqj6tPw

Texto: Thayara Castelo Branco

Thayara Castelo Branco é Advogada. Mestre e Doutoranda em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com área de pesquisa em Violência, Crime e Segurança Pública. 

Leiam o livro " Holocausto Brasileiro " ( Saraiva )
Autora: Daniele Arbex
Prefácio: Eliane Brum

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A VISITA DE JUSCELINO KUBITSCHEK A MIRACEMA – POR MAURÍCIO MONTEIRO



Sete anos e seis meses após a inauguração de Brasília, a cidade mais revolucionária do planeta, uma façanha sem precedente na história da humanidade, três anos e dois meses depois de ter perdido o seu mandato de Senador por Goiás, cassado seus direitos políticos e proibido de editar o seu livro de memórias e de visitar Brasília. Depois de passar dois anos e seis meses no exílio na Europa e na América do Norte, quando decide retornar ao país para responder a vários processos sobre seu período de governo. Depois de visitar sua terra natal, Diamantina, veio a Miracema para dançar num baile beneficente.

O Aeroclube de Miracema estava há vários anos interditado, e os bailes eram realizados no G. E. Dr. Ferreira da Luz, que não poderia ser cedido em virtude de JK estar com seus direitos políticos cassados por dez anos, o jeito então foi improvisar uma cobertura no Clube XV de Novembro.

A notícia da vinda do ex-presidente a Miracema era vista com total descrédito em virtude de não manter relações políticas ou pessoais com o político mineiro, mais do que isso, estava exilado na França, por mais de dois anos e, ao regressar, estava respondendo a vários inquéritos – os I.P.M.S.

Mas, ao anoitecer daquele sábado de 25 de novembro de 1967, em face de um desmentido formal de sua vinda e a saída do prefeito José de Carvalho rumo a Cantagalo era um sinal positivo de que viria e a cidade ficou sem nenhuma autoridade, a debanda foi geral. Outros preferiram se recolher em suas casas e não participariam da recepção.

O momento que dominou todo o dia resultou numa noite ameaçadora de muita chuva. À noite, em companhia de alguns amigos resolvi fazer uma visita a Pádua com um carro de propaganda. A viagem já foi em noite negra, fechada, com muitos relâmpagos e trovoadas. Fiz uma pequena parada no bar Tio Patinhas para um cafezinho enquanto o carro dava uma volta pela cidade anunciando a vinda do ex-presidente.  

Não demorou muito, fui informado de que o mesmo estava detido na Delegacia de Polícia e fui chamado para dar maiores explicações. Aí começou o aguaceiro, forte, torrencial. Meia hora depois o carro foi liberado e começamos a viagem de volta, devagar, vez por outra, tínhamos que parar porque o limpador de para-brisa não dava vasão.

Chegando a Miracema, rumamos para a sede do XV de Novembro, descemos e o carro subiu na calçada para melhor iluminar a quadra e o que restava do Barracão – não resistira à chuva e desabara – um monte de lonas e bambus gigantes amontoados na praça de esportes. Fiquei desolado. E a chuva intermitente por toda à noite até o amanhecer.

Só mais tarde é que fui informado que na mesma noite de sábado, depois que a TV informava a sua vinda a Miracema para dançar, uma tensa reunião no apartamento de JK se realizava para traçar os preparativos finais com os seus amigos, que viriam em sua companhia, quando entra em seu apartamento o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, com seu vozeirão, querendo um lugar em seu avião. Depois de muita discussão, finalmente foi aconselhado por JK, com receios fundados de sua fala que poderia gerar constrangimentos.

Pela manhã, bem cedo, procurei o presidente do Aero Club que, ponderou-me, descrente de sua vinda, o que seria uma temeridade realizar o baile pelo estado de abandono que se encontrava o Club. Mesmo assim, depois de uma visita, resolvi prepara-lo para uma eventualidade, já que a chuva tinha cessado.

Foi um tal de procurar eletricista, pedir enceradeiras emprestadas, cera, caminhão para buscar mesas e cadeiras, toalhas para cobris mesas, comandadas por um grupo de senhoras da Casa da Amizade através de Dona Mariza Mercante que, solicitou-me a renda do Baile para a Casa dos Pobres. Acreditava no evento e elevou o preço do ingresso.

Por volta de duas horas da tarde, finalmente foi dado com encerrado o trabalho de encerrar a pista e a colocação das mesas. Retorno e já encontro um grupo de desconhecidos em minha casa, aqueles que vieram de automóvel para dar apoio e mantinham uma conversa animada. Uma hora depois, começo a receber uma série de telefonemas, uns pedindo a confirmação ou não da vinda, até que recebo uma ligação do Rio, possivelmente de sua casa, sabendo se poderia iniciar a vinda. Volta a chover torrencialmente, e a conversa só girava em tornos de políticos, cassações, etc., e muito café para aliviar as tensões pelo tempo que continuava implacável.

Meu pai, muito nervoso, começou a se sentir mal, manifestou o desejo de telefonar para a casa do ex-presidente e ponderar que a visita deveria ser adiada, temia um desastre aéreo: o dia estava escuro, com nuvens muito baixas e seria um pouso de alto risco. “Ninguém o demoverá de vir a Miracema”, foi a advertência do chefe de sua segurança. A esta altura, já devia estar a caminho do aeroporto Santos Dumont para conseguir autorização para levantar voo. Uma última rodada de cafezinho foi servida e começou a movimentação rumo ao Campo de Aviação e o pequeno trecho a ser vencido estava difícil: muita lama, carros enguiçados, outros fora da pista, e o cortejo avançava até o hangar onde já havia muita gente. Fui um dos últimos a chegar e o burburinho era grande dentro do hangar, conversa vai, conversa vem, o tempo ia passando até que se ouviu um barulho surdo do avião que logo desapareceu, teria errado o alvo e seguiu direto para Itaperuna, depois voltou para Muriaé.

O Suísso, Nilson Moreira e outros pilotos discutiam sobre a rota: achavam que estavam à procura do Rio Pomba, em sua cabeceira, para chegar até Pádua e, finalmente, a Miracema. O tempo passava e o pessoal começava a desanimar, iniciando então a descida, já que era quase impossível descer numa pista molhada e com nuvens muito baixas e toda rodeada por montanhas. Muitos carros já estavam na estrada quando o barulho do bimotor se torna mais latente, voando em círculos, a procura de uma brecha para o mergulho final que, não acontecia. Mais era mais consistente o ruído do motor, sinal que estava sobrevoando a cidade.


A manobra arriscada é finalmente executada, eis que surge na cabeceira da pista, fazendo um pequeno giro, para tomada de posição final com a aterrissagem, que foi feito com extrema facilidade, fazendo um pouso tranquilo com a metade da pista. O Cesna, de seis lugares, tinha um motor na cauda que fazia a reversão, era apropriado para pequenas pistas. JK foi sacado do avião e seguidamente ovacionado dentro do hangar, ficando visivelmente emocionado.

JK passa na Casa dos Pobres para uma visita e a seguir se dirige para casa de Adumont Monteiro onde recebe abraços e palavras de conforto por mais de três horas. Às sete horas se dirige para fazenda da Cachoeira para um jantar e ao seu final discursa afirmando: “Devolvendo ao meu coração sofrido, não a esperança, mas a certeza dos meus acertos à frente da presidência da República.

O baile que foi aberto com uma valsa com a Miss Estado do Rio, Maria das Graças Khoury, foi um fracasso com pouca gente e em virtude dos geradores da Rua Matoso Maia não serem ligados, a cidade escureceu. As três horas JK se retirou depois de dançar com todas as moças e senhoras e ficamos a conversar até o dia amanhecer.

OBS: TRANSCRITO DO JORNAL DOIS ESTADOS, EDIÇÃO 03 DE MAIO/2002. AS FOTOS SÃO DO ARQUIVO PESSOAL DO DR. MAURICIO MONTEIRO.

OUTRAS CONSIDERAÇÕES:

Essa visita de Juscelino Kubitschek de Oliveira a Miracema, só foi possível porque Mauricio Monteiro, em término do curso de Direito na Universidade Federal Fluminense, com um grupo de estudantes que, ao invés de participarem das festas de fim de ano, decidiram gastar o dinheiro indo a Paris. Lá, sabendo que Juscelino estava na Capital das Luzes, após a cassação em 8 de julho de 1964, que lhe tirou os direitos políticos por 10 anos, o grupo decidiu fazer-lhe uma visita. Muito cortês Juscelino recebeu o grupo, mas com arguiu (perguntas) sobre o Brasil. Só Maurício fez um relato, inclusive dos acontecimentos políticos, e o ex-presidente disse-lhe que, ao retornar ao Brasil, faria uma visita a Miracema, "para tomar um café". Quando ele retornou do exílio, Maurício foi ao Rio, conversar. E, no trajeto de sua casa em Ipanema até uma clínica em Botafogo, o advogado e o ex-presidente tiveram uma conversa agradável, na qual ele convidou para dançar num baile na cidade.

Maurício Monteiro pediu ao presidente do Rotary local, advogado Roberto Ventura, que formulasse, em nome da entidade, um convite ao ex-presidente. "Peguei o convite e, com Maria das Graças Kouri, Miss Estado do Rio fomos convidar Juscelino”. E ele aceitou. Então, o Rotary assumiu a organização da visita, tendo Maurício sendo alvo até de ironias porque ninguém acreditava que a convite seu um homem daquela projeção visitasse Miracema. Todavia, temendo represálias por parte da ditadura militar e, demonstrando muito medo, o prefeito José Carvalho, os vereadores, o presidente da Câmara, Inácio Pires da Silveira, promotor, juiz e outras autoridades sumiram da cidade. Ao mesmo tempo os geradores que reforçavam a iluminação da cidade foram desligados.

A presença do ex-presidente em Miracema foi vigiada por policiais do SMI e do DPPS, que juntamente com as chuvas tiraram muito do brilhantismo das solenidades e das manifestações populares, sem, no entanto, se constituírem empecilho para a explosão de alegria que dominou os milhares de cidadãos que ali compareceram para homenagear o ilustre visitante.

No intervalo do baile o Deputado Nicanor Campanário, única autoridade do município que não se afastou da cidade, fez um discurso no qual agradeceu o Sr. Kubitschek a honra que concedia a Miracema lembrando que em outras circunstancias já haviam estados juntos e que aquela região e o Brasil eram agradecidos ao ex-presidente. A primeira quando autorizou a encampação da Companhia Força e Luz Norte Fluminense, beneficiando Miracema, a segunda pela desapropriação da Cachoeira do Inferno, um benefício ao estado e a terceira, quando concedeu a anistia aos revoltosos de Aragarças, após ter sofrido uma série de restrições em decorrência do Estado de Sitio em que o país se achava mergulhado, culminando seu Governo com a passagem da Faixa Presidencial, dando à democracia o mais exato sentido, que uma Nação sempre esperou dos homens públicos. O primeiro secretário da Assembleia Legislativa ressaltou que esta última atitude do ex-presidente foi um exemplo à Nação Brasileira. Os deputados José Kezen e Álvaro de Almeida também se encontravam na recepção ao ex-presidente.

Em 1988, Márcia Kubitschek – filha de JK – esteve em Miracema recebendo um título de cidadania Miracemense, em nome de seu pai, ocasião em que ficou na casa de Mauricio Monteiro. Em 1995, Mauricio vai a Brasília e visita o Memorial JK, tendo conversado com a Sra. Sarah Kubitschek e relembrado alguns fatos, que a emocionaram. 

OBS: COM INFORMAÇÃO DE JOÃO BAPTISTA FONSECA, PUBLICADO EM ECOS DO PASSADO Nº 46.  



domingo, 18 de agosto de 2019

JOSÉ MARIA DE AQUINO: UM MIRACEMENSE DE VERDADE


Nota: transcrito do jornal Dois Estados, de 27 de abril de 2006, com matéria assinada por Adilson Dutra.

Miracema é um berço do jornalismo brasileiro? Quem fala sobre este e outros assuntos é um dos mais brilhantes repórteres brasileiros, jornalista por opção, segundo ele a carreira de advogado tinha preferência, e cuja trajetória é conhecida no país inteiro. José Maria de Aquino, nascido na “Santa Terrinha”, como ele gosta de chamar a sua terra natal, está em São Paulo há exatos cinquenta e seis anos. Saiu daqui já rapaz e parou em terras paulistanas porque seu pai achou Paraná longe demais. “Meu pai queria que fôssemos para mais longe ainda, o Paraná, terra jovem 50 anos atrás e pronta para ser desbravada.  Paramos aqui. Eu sentia saudade, mas era longe demais para ir a todo instante. Na época nem ônibus direto havia".

COMEÇO DE TUDO

“Saí em janeiro de 50. Não pensava em ser jornalista. Nunca pensei, até dezembro de 1965. Eu pensava ser advogado criminalista ou promotor público. Fiz direito, trabalhei na promotoria, mas me decepcionei, porém essa é outra história”. Falando sobre a tradição da terra em ter grandes jornalistas, José Maria de Aquino cita alguns companheiros de imprensa, que segundo ele deixaram o umbigo na terra e eram sempre presentes. “Sempre me lembro de que muitos grandes jornalistas – o que não é meu caso – deixaram o umbigo aí. Lembro-me do José Maria Miguel fundando um centro, que batizou Cazuza (nada com o cantor/compositor). E a paixão do Ory por falar no serviço de alto falante com programa esportivo às 18h".

LAURO E POLACA

Sobre a bola, sua outra paixão, José Maria guarda com muito carinho algumas lembranças do Miracema FC, mas dois jogadores em especial, Jair Polaca e Lauro Carvalho, estão sempre em suas crônicas ou comentários. “O Lauro jogava muito. Vi, e vejo cada vez menos, profissionais regiamente pagos com bola igual à dele. Não gostava de correr, é verdade, ou não sentia necessidade, tal a diferença. Polaca não era craque, pelo menos não no meu tempo (ele já era veterano), mas tinha um ideal, manter vivo o futebol de Miracema, e isso me agradava. Pena que não souberam dar a ele o valor que tinha – pelo futebol e, depois, pelo carnaval".

PRÊMIO ESSO

Recebendo o Prêmio Esso
O Prêmio Esso de Jornalismo é um programa institucional da Esso Brasileira de Petróleo criado em 1955 e vem desde então promovendo o reconhecimento do mérito dos profissionais de imprensa através da indicação e escolha dos melhores trabalhos publicados nos jornais e revistas, segundo o julgamento de comissões independentes formadas exclusivamente por jornalistas e especialistas da área de Comunicação. Um desses premiados foi ele, José Maria de Aquino, em 1969, com o trabalho “O jogador é um escravo”, publicado no jornal Estado de São Paulo. O outro, ganho em 1966, foi com a equipe do Jornal da Tarde que cobriu, com um toque acima dos demais, o casamento do Rei Pelé. Ele fala sobre os prêmios. “Os dois prêmios ajudaram bastante. Antes eu já havia ganhado outros dois da Aceesp – Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo. Mas o jornal, revolucionário na época, ajudava bastante. A questão, e não problema, é que sempre fui retraído...”


MOMENTOS MÁGICOS E ETERNOS

Foram muitos, a começar pela Copa do México em 1970, quando cobriu pela Revista Placar. Os Jogos Olímpicos de Montreal, no Canadá em 76, também é indescritível segundo José Maria de Aquino. Moscou em 80, foi especial. “O assédio aos brasileiros era incrível, tínhamos sempre que ter em mãos algo sobre Pelé, e felizmente levei algumas revistas e pôsteres do Rei e pude abrir algumas portas”. Olimpíadas de Los Angeles, em 84, um grande evento promovido pelo mega país americano, foi outro grande momento vivido pelo jornalista miracemense.
“Mas gostoso mesmo, diz José Maria, é ser cercado em uma cachaçaria em São Paulo, por quase duas dúzias de jovens estudantes, todos sóbrios e ávidos por um autógrafo e um bate papo sobre futebol e a vida. Bom mesmo é saber que mesmo depois de deixar o Sportv, oito meses atrás, os jovens não se esqueceram de mim”, completa.

AMIGOS E COMPANHEIROS

Junto aos netos e de sua tia Antônia Aquino Lomba
“Amigos são poucos, infelizmente. Sou exigente para considerar alguém amigo. A menor mancada e, pronto... O Jobinha é do peito. Adilson Dutra, embora bem mais moço, que só fui conhecer anos depois – 1979 –, embora desconfiado no início está na pequena relação. Aqui mais perto? O Deco, o povo de Miracema não conhece. O Seco, meu cunhado. O Pedro Rocha – uruguaio e ex-craque do São Paulo – que é mais que um jogador. Na selva de pedras tem lugar para companheiros, mas não para muitos amigos. E, como já vim criado, com os “defeitos” de interiorano, não consegui fazer muitos, mas por aí deixei alguns. O Foguete, que me inventou no Miracemense Ausente. O Joãozinho Moreno, gente fina, o Ory, que não vejo há tempos. O zangado do Chapadão. Um especial: o Jofre Salim. Jofre foi, e ainda é, um tremendo incentivador. Acho que como ele, só meus filhos. E olhe que ele é bem mais velho que eu.”


COPA DA ESPANHA DE 1982

Miracema abriu o coração para homenagear seu filho famoso. As ruas da cidade, principalmente aquelas em que os parentes mais chegados residiam, estenderam faixas de aplausos a José Maria de Aquino e a Globo, por ter levado um miracemense para comentar os jogos da Copa do Mundo. José Maria, na sua simplicidade, fala sobre o assunto: “Só soube da faixa depois da Copa, quando recebi umas fotografias. Emocionei-me. Acho que chorei um pouco".

AMOR POR MIRACEMA...

“Gosto de Miracema. Vivemos, eu e meu irmão, lembrando os casos da nossa época, contando para as pessoas daqui, que não acreditam em muitos. Não passa uma semana sem que contemos os casos da Batuquinha, da Nestorina, do Zé Colado. E eu, estou sempre forçando um jeito de falar da terrinha. Meus filhos (Paulo e Cecília) conhecem as histórias e a filha as repete tão bem quanto eu. Nunca me afastei. Apenas vim para muito longe. Como não tinha deixado namorada... Por isso lembro-me, que terminei meu agradecimento pelo título de Miracemense Ausente (fui apanhado de surpresa, não sabia que havia uma solenidade), disse que era ausente de corpo, porque de espírito estava sempre brincando nos jambeiros do jardim.”

OS CRAQUES

“Além do Lauro? Achei que o Zé Souto faria carreira – era bom goleiro – mas fez bem em seguir primeiro os estudos. O Vadeco era bolão. Talvez se tivesse sido levado... Estou falando de gente que jogaria em time principal e de primeira linha – não hoje, mas naquele tempo. Vadeco era um Dequinha, aquele médio volante do Flamengo." 









sexta-feira, 16 de agosto de 2019

ZICO E ROBERTO: ÍDOLOS QUE SE RESPEITAVAM


Ainda como revelações formadas, respectivamente, na Gávea e em São Januário, Arthur Antunes Coimbra e Carlos Roberto de Oliveira se enfrentaram pela primeira vez como profissionais em 7 de maio de 1972, quando Flamengo e Vasco empataram em 2 a 2 em jogo do Carioca. O equilíbrio marcou a disputa particular. Tantos nos resultados como no comportamento dos atletas. Apesar da rivalidade entre os clubes, os dois ídolos sempre se respeitaram dentro e fora de campo. 

Em 41 partidas com Zico vestindo a camisa rubro-negra de um lado e com Roberto a Cruz de Malta no peito do outro, cada um saiu vitorioso em 12 oportunidades. E ocorreram 17 empates. Roberto fez mais gols que o maior artilheiro da história do Maracanã. Dinamite balançou a rede rubro-negra 21 vezes. O 10 da Gávea marcou 14 gols no Vasco. 

Mas no confronto geral com o maior rival de seus clubes, Zico teve mais motivos para comemorar do que Roberto. Em 54 partidas contra o Vasco, o rubro-negro registrou 20 vitórias, 19 empates e 15 derrotas, marcando 19 gols. Roberto, em 67 clássicos, ganhou 19, perdeu 22 e empatou 26, assinalando um total de 26 gols.

Na seleção, os dois tiveram a alegria de estar do mesmo lado. Como parceiros no time titular, o Brasil ganhou o Torneio Bicentenário dos Estados Unidos em 1976. Também estiveram juntos nas Copas de 78 e 82.


Acervo particular 
Cada um em sua função, eles fizeram por merecer todo o prestígio que conquistaram dentro de campo. Zico foi um jogador mais completo, mais versátil, e teve o privilégio de fazer parte de uma geração de ouro no Flamengo que ganhou todos os títulos possíveis, entre os anos de 1978 e 1983. Em 1993, Zico vestiu a camisa do Vasco no jogo de despedida do amigo Roberto, em um amistoso contra o La Coruña, da Espanha, onde jogava o Bebeto.

Roberto foi um artilheiro nato e o que ele fez dentro de campo, marcando centenas de gols e conquistando diversos títulos, sendo o maior artilheiro e ídolo da história do Vasco, não pode ser esquecido em razão de sua passagem como presidente do clube que o revelou. É nosso dever ter consciência para separar os fatos e julgá-los de uma maneira imparcial.