Nascido numa área pobre do bairro de
Santa Ifigênia, em Belo Horizonte, em 23 de maio de 1957, Marinho era o sétimo
filho de uma lavadeira que, ao invés de roupas, lavava cadáveres no necrotério
da polícia mineira. O garoto passou fome, passou frio, foi catador no
lixão de Belo Horizonte, começou a andar com más companhias, até ser internado
num reformatório da polícia em Pirapora.
A vida de sofrimentos só começou a melhorar
quando um massagista do Atlético Mineiro o levou para treinar nas categorias de
base do “Galo”. Não havia a certeza que Marinho daria certo como jogador, mas
era uma esperança de livrá-los das ruas, dos bares e do cigarro, que já
começava a usar com 12 anos. Com a bola nos pés, o garoto logo agradou. Galgou
espaço no clube alvinegro e em 1975 – com 18 anos – era transformado em
profissional, pelas mãos do técnico Telê Santana.
Em 1976, foi convocado para a Seleção Brasileira
de amadores que iria disputar os Jogos Olímpicos de Montreal. A carreira deslanchava,
mas Marinho começava a se perder na fartura, nos prêmios, nos bichos. Com farra
todos os dias, natural que o seu futebol fosse decaindo, ficando assim na
reserva do timaço que o Atlético tinha montado e, em 1979, fosse vendido para o
América de São José do Rio Preto, onde teria que, praticamente recomeçar a
carreira. Atuou em 118 jogos e marcou 21 gols com a camisa do Galo.
No interior paulista, Marinho brilhou. Foi
vice-artilheiro do Campeonato Paulista de 1980; foi convocado para a Seleção
Brasileira de Novos de 1981 e regressou para o Atlético Mineiro em 1982, por
empréstimo de cinco meses.
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AMÉRICA (SP) - 1981
EM PÉ: PAULO CÉSAR, BRÁS, BETO, LACERDA, JORGE LIMA E BERTO;
MARINHO, ROTTA, PAULINHO CASCAVEL, SERGINHO ÍNDIO E RÔMULO |
Marinho era cobiçado por grandes clubes. Grêmio,
Internacional, Santos, Cruzeiro, Flamengo queriam o passe do ponta-direita, mas
o presidente do América (SP) não liberava o jogador por quantia
nenhuma. Até que o Patrono do Bangu, Castor de Andrade, foi até São José
do Rio Preto e fechou a negociação, pagando 40 milhões de cruzeiros e mais o
passe do ponta-direita Dreyfus. Em janeiro de 1983, Marinho chegou ao Rio com
300 mil cruzeiros no bolso e hospedagem no Hotel Plaza, por ordem do
“homem”.
No Bangu, Marinho demorou um tempo para se
adaptar e deslanchar. Estreou durante o Campeonato Brasileiro da 2ª Divisão de
1983 e passou em branco. Só foi marcar o seu primeiro gol com a camisa
alvirrubra num amistoso contra o Botafogo da Paraíba, em João Pessoa. Mas,
depois que se adaptou ao clima, ao grupo, foi um dos grandes nomes do time na
campanha do Campeonato Carioca naquele ano. O time chegou em terceiro lugar,
Marinho fez partidas incríveis, principalmente uma contra o América, no Maracanã,
quando marcou dois gols. A vida começava a melhorar.
Em 1984, fez um péssimo Campeonato
Brasileiro da 1ª Divisão. No Carioca, foi o herói de uma vitória por 2 a 1
sobre o Vasco, ao anotar os dois gols. Com boas apresentações, Marinho era todo
sorriso, tido como o jogador mais irreverente do futebol carioca. Soma-se a
isto os bichos gordos de Castor de Andrade, que propiciaram a Marinho morar em
um casarão no bairro de Jacarepaguá.
Seu grande ano foi realmente 1985, quando foi
eleito o melhor jogador do Campeonato Brasileiro, ganhando a Bola de Ouro da
revista Placar. O hábil ponta-direita colocou o time nas costas durante a fase
final e levou o Bangu até a decisão contra o Coritiba. Antes disso, tinha
acabado com o Brasil de Pelotas, nas semifinais, anotando dois gols
belíssimos. O craque tinha a certeza do título, assim como as 91 mil
pessoas que lotaram o Maracanã naquela noite de quarta-feira. Autor de 16 gols
naquele Campeonato, Marinho era o vice-artilheiro do Brasileirão. Em campo, jogou
tudo que sabia. Com o placar final em 1 a 1, a decisão foi para a cobrança
de pênaltis. Marinho ainda converteria
sua cobrança na hora das penalidades, mas o título fugiu do Bangu.
Mesmo valorizado, com o Flamengo
tentando comprá-lo, Marinho continuou no Bangu para o Campeonato Carioca. Fez
outra grande campanha até chegar à final contra o Fluminense. O ponteiro fez 1
a 0, gol de cabeça logo aos 4 minutos. O tricolor virou. No último minuto,
Marinho fez um lançamento de um campo a outro para Cláudio Adão aproveitar. O
centroavante foi derrubado dentro da área e o árbitro José Roberto Wright não
marcou o pênalti.
Apesar de tanto drama, Marinho era um
profissional e em 1986 viveu outra frustração. Foi convocado pelo técnico Telê
Santana para os treinamentos da Seleção Brasileira. Estava no grupo que poderia
ir à Copa do Mundo do México. Mas, não foi aproveitado. Fez apenas dois
amistosos, chegou a marcar um gol de cabeça diante da Finlândia, mas foi
cortado pelo treinador. O craque estava acabado. Perdeu a cabeça. Foi aos
jornais e denunciou Telê como “racista”, passou a peregrinar pelos bares,
voltou a beber, a fumar, perdeu a alegria de jogar futebol. Pelo Bangu, fez uma
temporada apagada.
Voltou a jogar seu bom futebol em 1987,
garantindo para o Bangu o título da Taça Rio, referente ao 2º turno do
Campeonato Carioca e ainda ajudou o clube alvirrubro a chegar às semifinais do
Campeonato Brasileiro, perdendo para o Sport. No início de 1988, Castor de
Andrade presenteou” o bicheiro Emil Pinheiro, do Botafogo, com os passes de
Marinho, Mauro Galvão e Paulinho Criciúma. A negociação não envolveu dinheiro e
sim muitos pontos de bicho que eram de Emil passaram a ser de Castor. No
Botafogo, Marinho poderia decolar se não fosse outra tragédia pessoal. Durante
o Carnaval daquele ano, quando dava entrevista a uma emissora de TV em sua
mansão em Jacarepaguá, o filho Marlon, de um ano e sete meses, caiu dentro da
piscina, ninguém viu e o garotinho morreu afogado. A decepção foi enorme.
Em pouco tempo, Marinho estava separado da esposa, tinha largado os treinos,
abandonara a mansão, passara a dormir dentro do Mercedes-Benz que tinha na
época. Vivia bebendo e sequer tomava banho.
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EM PÉ: GILMAR, OLIVEIRA, FÁBIO, MAURO GALVÃO, PEDRINHO E
MÁRCIO NUNES; ARTHURZINHO, MARINHO, PAULINHO CRICIÚMA,
TÓBI E COSME |
No Botafogo, jamais conseguiu se fixar entre os
titulares e durante o título carioca do alvinegro em 1989, Marinho disputou
apenas três jogos. Estava descendo a ladeira. Jamais ganharia os mesmos
salários de antes. O alvinegro não queria mais o “problemático” Marinho e ele
voltou ao Bangu no segundo semestre de 1989. Foi agraciado com uma vaga na
excursão à Europa – sendo reserva de Gilson na ocasião -, mas teve poucas
chances durante o Campeonato Brasileiro da 2ª Divisão daquele ano. Em
1990, voltou para outra paixão antiga: o América de São José do Rio Preto. No
final do ano, retornou ao Bangu para a disputa da Taça Adolpho Bloch. Depois,
foi jogar no desconhecido San José Oruro, da Bolívia, sua única experiência em
clubes do exterior.
O técnico Moisés tentou trazê-lo para o Bangu,
dar mais uma chance ao jogador em 1993, mas aos 35 anos e após uma vida
desregrada, Marinho fez apenas dois amistosos. Em 1994, novamente Moisés tentou
trazê-lo de volta ao mundo do futebol, novamente Marinho decepcionou,
realizando apenas um jogo pelo alvirrubro durante o Campeonato Brasileiro da 2ª
Divisão. A carreira já tinha acabado, mesmo assim, ainda assinou contrato
com o Entrerriense, em 1995 e com o São Cristóvão, em 1996. Em 1997, com 40
anos, fez suas últimas partidas pelo Bangu durante o Campeonato Carioca. Era um
reserva de luxo, que entrava quando o jogo já estava decidido, só para o
deleite dos torcedores mais saudosistas.

O “herói” dos anos 80, o jogador que foi o
melhor do país em 1985 e que tinha enfrentado tantas adversidades na vida,
parava definitivamente. O dinheiro que ganhou nos tempos fartos de Castor
acabara, surrupiado por más companhias e inúmeras bebedeiras. Marinho estava
pobre de novo e passou a treinar times das categorias de base do próprio Bangu,
do Ceres (RJ) e do Juventus (RJ). Ensinava aos garotos que era preciso ter
comprometimento com o futebol, não perder a cabeça como ele e valorizar as
oportunidades que aparecessem. Era o ídolo Marinho, o décimo maior artilheiro
do Bangu, com 83 gols em 227 jogos.
Após vários dias internado em um
hospital de Belo Horizonte, para tratamento de um câncer no pâncreas, mas que
depois se espalhou para outros órgãos, Marinho faleceu no dia 15 de junho de
2020, aos 63 anos.
Fonte: Bangu.net e acréscimos.