domingo, 4 de abril de 2021

GENTIL CARDOSO: UM FILÓSOFO DO FUTEBOL

 


Gentil Alves Cardoso nasceu na capital pernambucana, em 5 de setembro de 1908. Ficou mais conhecido pelas suas frases de efeito do que pelos títulos conquistados como técnico. Passou a maior parte da sua carreira dirigindo equipes do Rio (América, Bonsucesso, Bangu, Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense). Mas treinou também o Corinthians, Ponte Preta, Sport Recife, Santa Cruz e Náutico.


Em 1946, assumiu o Fluminense e logo soltou uma das suas frases de impacto: "Deem-me Ademir (na época jogador do Vasco) e lhes darei o título". A diretoria apostou na promessa e contratou o atacante. O resultado é que o Fluminense foi o campeão carioca daquele ano. Assim ele descreveu esse fato em 1958:

- Sempre acreditei em Ademir como um jogador decisivo. Ele estava, então, na plenitude de suas condições físicas e técnicas. Quantas partidas ele decidiu num lance de estupenda clarividência? Ademir tem um lugar definitivo na história do futebol brasileiro.


No Vasco, Gentil Cardoso foi dispensado pela diretoria, após conquistar o título carioca de 1952, por "falar demais.”


Gentil Cardoso foi o primeiro técnico profissional a treinar o Mané Garrincha. A contratação do atleta rendeu uma história curiosa. No dia em que Mané realizou seu primeiro treino no clube, Gentil não compareceu a General Severiano. Quem comandou a prática foi o filho do treinador, Newton, que não tinha poder algum para oficializar a negociação. Mas, para sorte dos botafoguenses, o treinador apareceu no vestiário quando os jogadores já estavam trocados. Diante da insistência de Nilton Santos, que tomou um passeio de Garrincha no treino, voltaram para o campo para que Mané fosse avaliado novamente. Depois de entortar a todos, o ponta foi contratado imediatamente com o aval de Gentil.


Comandou a Seleção Brasileira no Campeonato Sul-Americano Extra, de 1959, em que o Brasil foi representado por uma seleção formada com jogadores que atuavam no futebol pernambucano. Morreu na capital carioca, aos 62 anos, em 8 de setembro de 1970.

 

São de sua autoria várias pérolas que já fazem parte do folclore do futebol brasileiro, como:


"Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência"; 

"O craque trata a bola de você, não de excelência";

"Só me chamam para enterro, ninguém me convida para comer bolo de noiva" (em alusão ao fato de raras vezes ter sido chamado para treinar equipes bem formadas, quase sempre só era lembrado para assumir o comando de times em crise);

"Se a bola é feita de couro, se o couro vem da vaca e se a vaca come capim, então a bola gosta de rolar na grama e não ficar lá por cima; portanto, meus filhinhos, vamos jogar com ela no chão".

 

sábado, 3 de abril de 2021

AIRTON PAVILHÃO: UM NOME MARCADO NA HISTÓRIA DO GRÊMIO

 


Airton Ferreira da Silva nasceu na cidade de Porto Alegre-RS, em 31 de outubro de 1934. Zagueiro de classe exuberante, que jogava com a cabeça erguida, apresentando um futebol vistoso e seguro. Recusava-se a dar chutões e fazia lançamentos precisos. Foi um jogador excepcional.

 

Teve o seu passe adquirido em troca de um pavilhão de arquibancada de madeira e parte em dinheiro, por isso ficou conhecido como Airton Pavilhão. É um dos grandes nomes da história do Grêmio, sendo considerado o seu melhor zagueiro.

 

Em 1960, o jornalista carioca Geraldo Romualdo da Silva, do Jornal dos Sports, qualificou Airton como um zagueiro inferior apenas a Bellini. Isso nos dá uma noção do tamanho da qualidade desse jogador. Nesse mesmo ano recebeu propostas milionárias do Santos e Botafogo, mas optou por renovar com o Grêmio. Ficou no clube gaúcho até 1967.

 

Atuou no Força e Luz (RS), Grêmio (campeão gaúcho em 1956/57/58/59/60, 1962/63/64/65/66/ 67), Santos (apenas um jogo), Cruzeiro (RS), São José (RS) e o Nacional, de Cruz Alta-RS, onde encerrou a carreira em 1971. Pela Seleção disputou 6 jogos, todos oficiais, ao longo do ano de 1960. Esteve entre os 41 pré-convocados para a Copa do Mundo de 1962, o único jogador fora do eixo Rio-São Paulo, mas acabou não fazendo parte da relação final.

 

Faleceu na capital gaúcha, aos 77 anos, em 03 de abril de 2012, vítima de infecção generalizada dos órgãos.

 

Ainda em vida recebeu uma homenagem marcante do Grêmio, em 2007. Foi inaugurado no centro de treinamentos do clube o Pavilhão Airton Ferreira da Silva.

 

quarta-feira, 31 de março de 2021

FÉLIX: UM ÍDOLO DA LUSA E DO TRICOLOR CARIOCA

 


Félix Mielli Venerando nasceu na capital paulista no dia 24 de dezembro de 1937. Goleiro ágil, de boa colocação e muito calmo. Apesar de sua estatura abaixo dos padrões para a posição – 1,79m – também ficou conhecido por seus milagres, principalmente em partidas decisivas, algumas memoráveis, como os jogos contra Inglaterra, Uruguai e Itália pela Copa do Mundo de 1970.

 

Por razões distintas e sem querer fazer nenhuma comparação entre eles, Barbosa e Félix de vez em quando têm seus nomes menosprezados por alguns setores. Os goleiros renomados, sem exceção, ao longo de suas carreiras também cometem falhas e nem por isso são “perseguidos” por parte da imprensa e torcedores. Em alguns casos a implicância é nítida. Termino esse parágrafo afirmando: o Félix merece respeito!

 

Félix iniciou bem cedo a sua carreira nas categorias de base do Juventus, do bairro da Mooca, onde nasceu. Ainda garoto, chegou a ser reserva do grande Oberdan Cattani, no próprio Juventus. De lá partiu para Portuguesa de Desportos em 1955, mas só assumiu a vaga de titular em 1960, depois de um período de empréstimo ao Nacional, também da capital paulista. Até 1963 reinou absoluto no gol da Portuguesa e de 1964 até 1968 revezou na posição com Orlando. Vestiu a camisa Rubro-Verde em 305 jogos. A sua passagem foi marcante e virou ídolo.

 

Chegou ao Fluminense já experiente, aos 30 anos, e nas Laranjeiras viveu a melhor fase de sua carreira, ficando no clube até 1978, quando encerrou a carreira. No Tricolor foi campeão carioca em 1969/71/73/75 e 76, e do Roberto G. Pedrosa em 1970). Atuou em 319 jogos e sofreu 260 gols, com a impressionante marca de 316 partidas como titular. Foi apelidado de “Papel” por ser magro e por seus saltos espetaculares. Deixou o seu nome marcado na história do Fluminense.

 

Participou da Copa do Mundo de 1970, sendo campeão da mesma. Disputou 47 jogos e sofreu 47 gols, sendo 39 oficiais e 37 gols. Ainda defendia a Lusa quando foi convocado pela primeira vez para defender o Brasil.

 

Félix sofria de enfisema pulmonar e depois de ficar internado por alguns dias, faleceu depois de parada cardiorrespiratória, em São Paulo, aos 74 anos, em 24 de agosto de 2012.

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

ARMANDO NOGUEIRA: UM POETA DA CRÔNICA ESPORTIVA

 


ARMANDO NOGUEIRA nasceu no dia 14 de janeiro de 1927, em Xapuri, no Acre. Chegou ao Rio de Janeiro em 1944, onde logo começou a trabalhar.

Iniciou a carreira de jornalista no “Diário Carioca”, em 1950, no qual trabalhou como repórter, redator e colunista. Em 1954, cobriu a sua primeira Copa do Mundo, na Suíça. Lá, flagrou aquela confusão entre os jogadores em que o técnico da Seleção, Zezé Moreira, arremessou uma chuteira que acertou o ministro de Esportes da Hungria. Desde então, participou da cobertura dos 13 Mundiais seguintes.

Após passagem pela revista “Manchete”, trabalhou como repórter fotográfico na revista “O Cruzeiro”. Por lá ficou dois anos, transferindo-se depois para o “Jornal do Brasil”, onde foi relator e colunista, no período de 1961 a 1973, responsável pela coluna “Na Grande Área.”

Foi para a Rede Globo em 1966, tendo papel fundamental no desenvolvimento do telejornalismo da emissora e do Brasil, atuando ativamente na criação do Jornal Nacional.  

Participou pela primeira vez da cobertura de uma Olimpíada em 1980, em Moscou. Acompanhou os Jogos Olímpicos em mais seis edições. Sua única ausência aconteceu em 2008, em Pequim, por problemas de saúde.

Em 1990 deixou a Rede Globo e passou a se dedicar exclusivamente ao esporte. Escreveu para diversos jornais, foi comentarista da TV Cultura e da TV Bandeirantes, onde participou do programa Apito Final. No SporTV, participou dos programas Papo com Armando NogueiraEsporte Real e Redação SportTV, entre 1995 e 2007. Foi comentarista também da Rádio CBN.

Em agosto de 2007, afastou-se da televisão após o diagnóstico de um câncer no cérebro, que o levou a óbito em 29 de março de 2010, aos 83 anos, na capital carioca.  

Ao longo da carreira, Armando Nogueira escreveu dez livros, todos eles sobre esporte. Ainda em vida recebeu duas homenagens: a Suderj (Superintendência de Desportos da Cidade do Rio de Janeiro) inaugurou o Espaço Armando Nogueira, em 30 de março de 2008, no acesso à tribuna de imprensa do Maracanã (não sei informar se após a “demolição” do velho Maracanã a homenagem continua de pé); o Botafogo homenageou Armando Nogueira, em 2009, nomeando a sala de imprensa do Centro de Treinamento de General Severiano com o nome dele.  

Ao ser homenageado na Suderj, e já apresentando lentidão para falar, ele assim descreveu o caminho que viveu as maiores emoções em 58 anos de vida no futebol: “Meu maior prazer no Maracanã não vem de nenhum jogo, mas de subir até a tribuna de imprensa e ver o estádio lotado”. Sobre essa homenagem de 2008, na reportagem do jornal Extra assim foi descrito o 1º parágrafo: "Com os pés que nunca foram os seus, como diz em sua poesia 'Maracanã', Armando Nogueira perdeu a conta dos gols que fez ali. Usando as mãos, devolveu, com a genialidade dos craques, a inspiração recebida para perpetuar a mística do estádio. Pelos seus incontáveis gols de letra, o cronista, poeta e testemunha das últimas 15 edições da Copa do Mundo ganhou lugar cativo e destacado no Mundial de 2014, no Brasil". 

Considerado um dos maiores jornalistas esportivos, o botafoguense apaixonado e com uma escrita de fácil leitura e poética, apresentou novos significados à crônica esportiva.

O QUE ELES DISSERAM...

"Imagine uma reportagem escrita pelo Machado de Assis. O Armando Nogueira era desse jeito. Sua principal herança é inspirar as pessoas a escrever bem." 

(Sérgio Cabral)

"Ele fez uma crônica linda no dia da minha despedida. Já acordei chorando. Ele disse que 'A bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol'."

(Zico)

"Armando Nogueira era um homem extremamente inteligente, de uma cultura fora do comum. Espero que agora ele esteja lá em cima vendo os jogos."

(Zagallo)

"Seu texto era realmente maravilhoso. Ele era um poeta. Acho que, se os acadêmicos a ABL tivessem pensado bem, deveriam tê-lo eleito para uma cadeira."

(Luiz Mendes)






 

domingo, 28 de março de 2021

DELÉM : BRASILEIRO QUE VIROU ÍDOLO DO RIVER PLATE E REVELOU MUITOS CRAQUES ARGENTINOS


 

Vláden Quevedo Lazaro Ruiz, o DELÉM, nasceu na capital paulista em 15 de abril de 1935, mas foi criado no estado gaúcho. Atacante de futebol elegante e muito técnico, que iniciou sua carreira nas categorias de base do Grêmio e chegou ao time profissional antes de ser negociado com o Vasco. Foi bicampeão gaúcho em 1956/57 e carioca em 1958. Marcou 66 gols em 131 jogos pelo Vasco. Na Seleção foram 8 jogos e 5 gols, sendo 7 oficiais.


Após cumprir duas boas atuações pelo Brasil contra a Argentina, em jogos válidos pela tradicional Copa Roca, foi contratado pelo River Plate em 1961 e ficou até 1967. Poucos brasileiros conseguiram fazer sucesso no futebol argentino, um destes é o Delém, mesmo sem conquistar nenhum título nacional. Já no final de carreira foi jogar no futebol chileno, ficando uma temporada no Colo Colo e outra no Universidad Católica. Em 1969, retornou ao Brasil para jogar no América do Rio. Encerrou a carreira no ano seguinte. Fez curso de técnico e trabalhou como auxiliar de Didi no River Plate. Em 1973, assumiu o comando técnico do time argentino e ficou até 1975.


Trabalhou por outros clubes da Argentina e foi técnico do Diego Maradona na equipe principal do Argentino Juniors, em 1979. Muito querido e respeitado no River Plate, retornou ao clube em 1990 para assumir o cargo de diretor geral das categorias de base, revelando diversos jogadores, tais como: Aimar, Saviola, Crespo, Gallardo, Ortega, D’Allesandro, Cavenaghi, Mascherano, Maxi Lopes e Matias Almeyda.


Delém faleceu em 28 de março de 2007, aos 71 anos, depois de passar mal numa confeitaria em Buenos Aires, na Argentina, onde residia.

 

 

sábado, 27 de março de 2021

MOACIR BARBOSA: O INJUSTIÇADO

 


Moacir BARBOSA é paulista de Campinas, onde nasceu em 27 de março de 1921. Apesar de baixo, fora dos padrões de um goleiro, era muito ágil e tinha uma elasticidade incomum para o seu tamanho. Excelente senso de colocação, arrojado e capaz de defesas impossíveis. Recebeu o apelidado de “Homem Borracha” pelos milagres que fazia embaixo das traves. Um dos maiores  goleiros de sua época e um dos melhores do futebol brasileiro de todos os tempos.


Acabou ficando marcado negativamente na história – injustamente, que fique bem claro! – por ter sofrido o segundo gol uruguaio na decisão da Copa do Mundo de 1950. Após essa derrota só voltou a jogar mais uma vez pela Seleção, em 1953, e só não foi para o Mundial de 1954 porque estava machucado. Veja esse depoimento amargurado de Barbosa:

O futebol me propiciou as melhores e as piores emoções de minha vida. Nos meus 26 anos de carreira, fui campeão várias vezes. Viajei pelo mundo, fiz alguns amigos. Mas ao perdermos para o Uruguai passei a ser o brasileiro mais criticado da história. Nunca consegui me livrar da sensação de fracasso.


Esperto, costumava usar camisa preta à noite para dificultar os atacantes. Faz parte da galeria histórica do Vasco, sendo o goleiro do famoso “Expresso da Vitória”, time que marcou época no final da década de 40. Foram 431 jogos defendendo o Vasco.


Começou no Ypiranga (SP), e brilhou no Vasco (campeão carioca em 1945, 1947, 1949/50, 1952 e 1958, do sul-americano em 1948 e do Rio-São Paulo em 1958), Santa Cruz (PE), Bonsucesso e Campo Grande, onde encerrou a carreira em 1962. Participou da Copa do Mundo de 1950 e foi campeão do Sul-Americano de 1949. Pela Seleção foram 22 jogos e 31 gols sofridos, sendo 20 oficiais com 24 gols.


Morreu pobre e passando dificuldades, aos 79 anos, dependendo da ajuda de amigos, em 07 de abril de 2000, em Praia Grande-SP, onde vivia com uma filha adotiva. A causa de sua morte foi problemas respiratórios, após complicações de um AVC.


Um fato ocorrido em 1953 serviu para mostrar ao Barbosa o quanto ele era querido pelos torcedores. Assim ele descreveu: “Constatei no dia em que quebrei a perna contra o Botafogo no Rio-São Paulo, em 1953. A depressão foi incrível, mas me recuperei do trauma ao descobrir que faziam filha no Hospital dos Acidentados para me visitar. Pela informação de um médico, só o presidente Getúlio Vargas tinha recebido um número maior de visitas. Não é uma felicidade?”



A respeito de Barbosa, assim escreveu o cronista Armando Nogueira: “Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mãos trocadas bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.”

 

quinta-feira, 25 de março de 2021

SR. ABDO E D. OLÍVIA: UM CASAL QUE DEIXOU SAUDADE EM NOSSA TERRA

  


Falar do Sr. Abdo aguça a lembrança do kibe e do homus maravilhosos, de um picolé sem igual e de tantas outras iguarias deliciosas. E a vaca preta? Inesquecível para quem teve o privilégio de vivenciar aquela época. Mais um libanês que fincou raízes, formou família e abraçou essa terra como se aqui tivesse nascido.


Não se pode falar apenas das iguarias, há de se reverenciar aquele jeito único e especial de tratar o próximo. A fisionomia para quem não o conhecia mais de perto demonstrava seriedade, de pouca conversa, mas logo era quebrada após o início da prosa. Eu adorava o picolé de flocos, o que mais comprava. Ele conhecia muito o meu pai e depois foi se acostumando comigo. Ao chegar à sorveteria, só ou acompanhado, ele já dizia: “Vai de picolé de flocos”. Não tem como esquecer esses momentos maravilhosos da adolescência.


São esses e outros personagens inesquecíveis que ajudaram a escrever a história dos bons tempos da nossa tradicional Rua Direita. Naquele reduto da Marechal Floriano o tempo deveria ter parado... Nada contra o mundo moderno, mas convenhamos, bate uma saudade daquele picolé de flocos. rsrs


Quando o casal saiu de Miracema foi morar perto de seus familiares, em Bom Jesus do Itabapoana, cidade próxima e que também faz parte da Região Noroeste do estado do Rio. Residiram por muitos anos, até que o Sr. Abdo veio a falecer em 2014.

 

Abaixo transcrevo na íntegra a mensagem recebida de Gisela Nasser, filha do casal.

 

Estou compartilhando com os amigos, esta foto, já em Bom Jesus e gozando de merecido descanso depois de muitos anos dedicados ao trabalho. Junto vai um texto escrito por meu filho logo após seu falecimento, no ano de 2014. Orgulhosa de sua sensibilidade ao homenageá-lo, compartilho com vocês!

 

"Creio que se houvesse alguma maneira de o meu avô voltar pra esse mundo, ele seria desta vez uma árvore. Um Cedro do Líbano, com certeza. Raízes profundas, representando força e eternidade. Creio que essa seria sua escolha, dando-me o luxo de dizer que até onde eu o conhecia, ele daria um jeito de fazer tudo igual, só que diferente. Digo diferente apenas pela diferença física entre homem e Cedro, mas ao mesmo tempo igual, pois enquanto homem ele foi Cedro.

 

Veio de longe, deixou a família em busca de uma vida melhor. Não teve os resultados esperados e mesmo assim fincou suas raízes, que cada vez mais profundas, formavam um alicerce forte para acolher a família que ele criaria, numa demonstração de força e perseverança.

 

Trabalhou. E se é verdade que o trabalho dignifica o homem, posso dizer o quão digno este homem foi. Como dono de bar, deu conforto para a mulher e os filhos, e apesar de trabalhar em uma profissão considerada pouco gloriosa, conseguiu sua fama: modesta, porém concreta. Foi filho, marido, pai, avô.

 

Assim como o Cedro do Líbano, suas raízes não interromperam seu crescimento ao encontrarem a rocha. Abraçaram-na, tornando-se ainda mais fortes. A falta da mãe, dos irmãos e parentes e da vida que ele possuía no Líbano, só o fez se dedicar ainda mais à família que ele construiu no Brasil.

 

Mais uma vez como Cedro, viveu muitos anos. Agora, no auge da sua vida e com a certeza de missão cumprida, apenas ensinou. Foi sábio, carinhoso, companheiro. Talvez por isso ele gostasse tanto do Cedro, por se identificar com ele. Talvez por isso eu goste tanto de árvores.

 

Para mim, ele se imortalizou no legado que deixou. Haverá Abdo enquanto houver Cedro. E ouso dizer que sempre haverá Cedro, pois como se soubesse que estava fazendo tudo certo, ele semeou para perpetuar. A semente que caiu no meu coração farei questão de cultivar."