domingo, 15 de maio de 2022

O RACISMO NO FUTEBOL VEM DESDE OS PRIMÓRDIOS...

 

                                                                                      Foto: Arte GloboEsporte.com                                                                                         

O Vasco da Gama passou para a Série A da Divisão Principal em 1923 e nesse mesmo ano conquistou o título carioca, assinalando uma campanha admirável. O quadro principal vascaíno obteve 12 vitórias, 1 empate e uma derrota nos 14 jogos do certame.


Havia um segredo: ao contrário das demais equipes que disputavam os torneios de futebol, o Vasco arrebanhava para o seu time trabalhadores comuns e negros que, misturados aos portugueses, formaram a estrutura que mudaria os rumos do futebol brasileiro. Na época, Flamengo, Fluminense, Botafogo e América, os chamados grandes, só permitiam jogadores brancos em seus times. O Paysandu e o Rio Cricket iam mais longe: só aceitavam jogadores descendentes de ingleses.


Apavorados com o crescente prestígio vascaíno, especialmente depois da conquista do título de 1923, os clubes grandes de então se reuniram para exigir que o Vasco e os demais pequenos se submetessem a uma investigação em torno das posições sociais de seus atletas. A ordem era que se eliminassem os jogadores profissionais ou que não fossem capazes de assinar a súmula das partidas.


O Vasco contava com vários analfabetos no time e, numa iniciativa pioneira, costumava ofertar a seus jogadores galinhas, porcos e patos quando vencia seus jogos. Esse tipo de premiação acabaria apelidada de “bicho” e que ganharia outros contornos na fase do profissionalismo explícito. Desesperados, os grandes partiram para uma alternativa, onde ocorreu a primeira dissidência no futebol do Rio. Clubes na época aristocráticos, como Flamengo e Fluminense abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e criaram a Associação Metropolitana de Esportes Amadores (AMEA), sob condições baseadas em discriminação racial e social. Outros clubes foram admitidos na AMEA. O Vasco tentou filiar-se, mas foi impedido sob o argumento de que não possuía um campo apropriado – o clube disputava seus jogos no campo da Rua Moraes e Silva. Não era bem esse o problema. Tanto que foi proposto ao Vasco eliminar doze de seus jogadores, exatamente os negros e operários, por não atenderem aos requisitos impostos pela AMEA, para que o aceitasse na nova entidade. Não havia mais dúvida: era racismo mesmo.


Diante do ultimato, o presidente do Clube, José Augusto Prestes, assinou um ofício no dia 07 de abril de 1924, que ficou famoso na história do futebol carioca e brasileiro, desistindo de participar da nova liga criada. Campeão do ano anterior recusou-se a satisfazer estas condições indignas e preferiu não se filiar à AMEA, permanecendo na LMDT ao lado de outros clubes pequenos. No ano seguinte, entretanto, a AMEA abandonou o preconceito e os clubes da divisão principal da LMDT ingressaram na AMEA. Este episódio foi decisivo para a extinção do racismo no futebol carioca. Os campeões de 1924 foram o Fluminense (AMEA) e o Vasco (LMDT).

 

Nota: a título de esclarecimento, o Vasco não foi o primeiro clube a contar com jogadores negros em seu elenco. No entanto, o clube é muito lembrado pela grande resistência em defender seus jogadores negros e demais trabalhadores comuns, no início dos anos 20, o que é louvável e deve ser feito esse registro. Inclusive, em 1905 foi eleito um presidente negro, Cândido José de Araújo. Ao longo de sua história o Vasco sempre levantou a bandeira contra o racismo.

A Ponte Preta, em 1900, com Miguel do Carmo, um jogador negro que também era presidente e foi um dos fundadores do clube; o Bangu, em 1905, com Francisco Carregal, o primeiro jogador negro do futebol carioca; o Campos Atlético Associação, de Campos dos Goytacazes, que teve como característica o fato de ser fundado por e para os negros, em 1912, com as cores roxa, preta e branca, simbolizando a união das raças, são equipes que merecem ser citadas por essas iniciativas pioneiras no esporte brasileiro. Há de se destacar que o Fluminense – contra o Rio Cricket pelo Campeonato Carioca de 1910 – teve em seu quadro atuando apenas nesse jogo oficial, o atleta negro Alfredo Guimarães.


DOIS EXEMPLOS DE PRECONCEITO NO FUTEBOL NO INÍCIO DO SÉCULO PASSADO

 - Nota oficial da Liga Metropolitana, publicada no jornal “Gazeta de Notícias” de 14 de maio de 1907:

“Comunicamos-vos que o Diretório da Liga, em sessão hoje, resolveu por unanimidade que não sejam registrados como atletas pessoas de cor.”

 

- ARTIGO 4: sobre registros de jogadores na Lei do Amadorismo, divulgada no Diário Oficial de 20 de dezembro de 1917:

“Não poderão ser registrados os que tirem os meios de subsistência de profissão braçal, aqueles que exerçam profissão humilhante que lhes permitam o recebimento de gorjetas, os analfabetos e os que embora tendo profissão estejam, a juízo do Conselho Superior, abaixo do nível moral exigido.” 

 


quarta-feira, 11 de maio de 2022

O MARACANÃ DOS VELHOS TEMPOS – POR SERGIO PUGLIESE

 

                                                                                        Foto acervo Sergio Pugliese

Nota: Sergio Pugliese é jornalista e fundador do Museu da Pelada, que retrata a memória do futebol. Essa crônica maravilhosa foi escrita em janeiro de 2021.

 

O velho Maracanã era abarrotado de personagens, era como se você mergulhasse em um livro de contos e fábulas. Havia o torcedor que cobria o corpo inteiro com pó de arroz, Dona Dulce Rosalina, que comandava a galera vascaína, o sósia do Obama, o carinha que vivia rezando com um galho de arruda acomodado na orelha, o alvinegro Russão, o Mr. M, o árbitro Armando Marques cheio de caras e bocas, o comentarista Mário Vianna gritando “errooooou!!!”, o locutor da Suderj anunciando as escalações, o velhinho das embaixadas, enfim, o Maracanã era uma espécie de ilha da fantasia, um mundo encantado que amenizava nossas dores e coloria nossas emoções. Mike Tyson, o maqueiro fortão, era mais uma dessas tantas figuras que ilustravam nossas tardes/noites e guardamos na memória até hoje.

 

O cara era um guarda-roupas e virou atração turística porque passou 20 anos entrando e saindo de campo carregando gênios, como Zico e Maradona, e grandalhões, como Júnior Baiano e Manguito. Quando sentia que a contusão era mais grave, nem esperava por Geraldo, seu grande parceiro de trabalho, entrava correndo em campo, colocava o atleta no ombro e voltava correndo com ele. A galera endoidava! Certa vez, tropeçou, caiu e a Geral pegou no seu pé... ”negão, tá na hora de se aposentar!”.

 

Quando o locutor Januário de Oliveira anunciava “tá lá um corpo estendido no chão, vem aí o primeiro carreto da noite”, ele entrava em ação, era seu estrelato. Vascaíno, o primeiro jogador a carregar foi Zico. Ficaram muito amigos. Malhava como um louco e nas horas vagas atuava como segurança de boates, clubes e para a família do Galinho de Quintino. Nos finais de semana de folga, para condicionar-se fisicamente, corria de Brás de Pina, subúrbio carioca, até a Praia de Copacabana. Na chegada triunfal, o filho acenava, orgulhoso, da areia. Durante o trajeto, muita gente o reconhecia e pedia autógrafos. O “negão da maca” fez história no Maraca, foi um de seus reis, como Romário, Túlio, Renato Gaúcho e Papai Joel. Claro, que tanto peso lhe rendeu problemas graves na coluna, mas o glaucoma, que o deixou cego, é o que mais o aflige.

 

Aos 80 anos, está frágil e saudoso da grama verde, de sua padiola e do respeitável público daquele circo chamado Maracanã. Em nossa despedida, tentou levantar-se do sofá, mas não conseguiu nem com o apoio de uma velha bengala. Segurei firme em seu pulso e ofereci apoio ao maior reboquista da história do Maracanã. “Quem diria, hein”, comentou. Quem diria. Rimos e caminhamos lentamente até a porta amparados por um abraço e por doces lembranças.

 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

JOSÉ CARLOS ARAÚJO: VAI MAIS, VAI MAIS, GAROTINHO

 


José Carlos Lopes de Araújo, conhecido também como Garotinho, nasceu no Rio de Janeiro em 07 de maio de 1940. Aos 14 anos iniciou a carreira trabalhando em programas estudantis na Rádio Nacional e na Rádio Roquete Pinto.

 

Aos 15 anos assumiu o posto de repórter de cidade das rádios Continental e Metropolitana. Seu objetivo era ser locutor esportivo e na Rádio Continental não teve essa oportunidade. Transferiu-se para a Rádio Eldorado e tinha a função de anunciar programas musicais. Quando a Eldorado foi vendida para a Rádio Globo, surgiu a primeira chance para a área esportiva, assumindo o plantão esportivo em 1974. A partir daí exerceu os cargos de repórter, locutor e contato de publicidade. Em 1977, vai para a Rádio Nacional e monta uma equipe de esportes de respeito com outros nomes de destaques, como Washington Rodrigues, Luiz Mendes, Deni Menezes, entre outros. Foram anos de muito sucesso e com toda essa notoriedade a sua carreira deslanchou de vez.

 


Retornou para a Rádio Globo em 1984 e ficou até 2012. Ao sair da Globo passou pelas rádios Bradesco Esporte FM, BandNews FM, Transamérica do Rio de Janeiro e Super Rádio Tupi. Trabalhou também na TV e em jornais do Rio. José Carlos Araújo é um dos grandes nomes do rádio esportivo brasileiro.

 

O que muitos não sabem é que Garotinho é professor de Geografia formado pela UERJ e Oficial da Reserva R/2 do Exército Brasileiro pelo CPOR/RJ.

 

Garotinho é também famoso por suas frases que são marcas registradas, seja durante as partidas, seja nos programas diários.

 

“Seja paciente na estrada, para não ser paciente no hospital. Dirija com cuidado!”

“Voltei!”

“Sou eu!”

“Apontou, atirou, entrou!”

“Golão, golão, golão.”

“Se o jogo tá na tevê a gente se liga em você.”

“Gente que se liga na gente.”

“Apite comigo galera.”

“E o tempo vai passandoooo!” (Rádio Nacional)

“Olha a amarelinha (vermelhinha)! Parou, parou, parou.” (Rádio Nacional)

"Vai mais, vai mais, Garotinho"

"Loonge pra dedéu.... Pra lá de Marrakech!!! Ô xará, assim não dá!" (Rádio Nacional)

“Deu quebra de asa”'

“Você do volante obrigado pela carona que me dá”

“Brasileiro não vive sem rádio, o seu maior companheiro”

"E aí, tá gostando?"

"Garotinho vai bombar." (BandNews e Bradesco)

"Mandou mal. Lá na geral. Que nem perna de pau!"

"E no placar do estádio"

"Dá um cheguinho na meia."

"Tá na grama, tá no pé, tá no ar e a bola vai rolar!"

"Cheguei! Hoje é dia de jogão e jogão é na Tupi!"

"Mandou mal! Lá na geral"

"Ligado na Tupi, você sabe tudo primeiro"

"Terminou!"

"Corrupiou"

"Bom dia/Boa tarde/boa noite à maior plateia esportiva do rádio" (dependendo do horário)

"Só a Tupi tem Garotinho e Apolinho"

sexta-feira, 29 de abril de 2022

DONA MARIA PESTANA: A FÁBRICA DE TECIDOS SÃO MARTINO AINDA EMOCIONA SEUS EX-FUNCIONÁRIOS...

 


Dentro dos festejos de emancipação político-administrativa de Miracema, que tem o dia três de maio como data comemorativa, ocorria no dia 1º de maio, em honra ao Patrono São José Operário, uma missa no pátio da Fábrica de Tecidos São Martino. Tive a oportunidade de participar de uma das últimas missas que por lá aconteceram, em 1986, quando servia o Tiro de Guerra. A data em que se comemora o “Dia Trabalhador” era aguardada com muita expectativa por funcionários, que juntos aos familiares se dirigiam ao pátio para assistirem a celebração em homenagem ao trabalhador. Após as missas eram servidos chocolates, bolos e outras iguarias aos presentes. Esses momentos são marcantes e ficam na memória daqueles que tiveram, não só o privilégio, mas a honra de trabalhar e participar desses eventos.

Afirmo que não teve em Miracema uma família sequer com um ou mais membros que trabalharam na fábrica. Da minha família materna, três tias fazem parte desse contexto. A nossa cidade perdeu uma parte de sua história com o fechamento da fábrica, e mais triste ainda ficou quando o prédio foi demolido.

 

Homenageando todos aqueles que dignificaram com seu trabalho em prol do crescimento e prosperidade da Fábrica e da Fiação e Tecelagem, destaco D. Maria Pestana, que em visita à Casa da Cultura Melchiades Cardoso, relembrou emocionada a sua época de funcionária ao tirar fotos com algumas das máquinas que durante trinta anos fizeram parte diária de sua vida profissional.



Clóvis Augusto de Souza (in memoriam), ex-funcionário da Torrefação de Café, e Maria Pestana de Souza formaram uma família de cinco filhos já com muitos descendentes: Carlos Augusto Pestana de Souza, Maria de Fátima Pestana de Souza, José Henrique Pestana de Souza (Quinho), Ana Lúcia Pestana de Souza e Cláudia Maria Pestana de Souza Fagundes. As tradicionais famílias Pestana e Souza tiveram muitos membros trabalhando na fábrica. Um adendo sobre os “Pestanas e Souzas” é o DNA de craques revelados para o futebol miracemense.





Francisco de Martino é um nome gravado para sempre na história de Miracema e do Estado do Rio, por ser o homem visionário que implantou uma grande fábrica no então distrito de Miracema, na época dos lampiões belgas. Para se ter uma breve noção da pujança da fábrica, em 1921, no ainda distrito de Miracema, empregava 50 operários e possuía 60 teares (máquinas para fins de tecelagem). Fabricava brins de algodão riscados, zíperes e tecidos de fantasia (algodão tinto e cru). Produziu 24.940 metros de tecidos de algodão cru e 59.024 metros de tecidos tintos e estampados.




 

Finalizando: Miracema respirava progresso.

domingo, 10 de abril de 2022

O FILÓSOFO DO FUTEBOL: CONSIDERAÇÕES DE ZEZÉ MOREIRA SOBRE O MUNDO DO FUTEBOL

 


Sobre previsões: “Jamais falei no sábado como meu time jogará no domingo. Futebol é imprevisível e na segunda-feira podem me chamar de mentiroso. Se tenho confiança na equipe, o que digo, na véspera, é que estamos preparados para enfrentar nosso adversário. Se não tenho, digo que será um jogo duro. Eis a chave”.

 

Sobre técnicos: “Bem, cada um tem sua norma de trabalho. Há alguns que transformam o time: ou encontram as soluções para suas deficiências ou dão maior confiança aos jogadores. Sinceramente, não sei se estou nesse grupo”.

 

Sobre métodos: “Estou no futebol há 48 anos e meu mérito, se tenho, é o de nunca deixar de trabalhar. Meu método é esse; talvez por isso tenho alcançado um milagre: fiquei quatro anos na Seleção Brasileira.

 

Sobre craques: “Não sou saudosista. O Friedenreich, o Leônidas, o Domingos da Guia e o Tim, para citar esses quatro, foram excepcionais em suas épocas, dentro de um tipo de futebol que se jogava na ocasião. Isso não quer dizer que defendo a tese de que não se adaptariam ao estilo atual. Absolutamente. O Leônidas seria hoje um fora de série, assim como o Pelé e o Tostão deslumbrariam as platéias da década de 40”.

 

Sobre ídolos: “Eles só se forjam nas grandes conquistas. Tenho a mais profunda certeza que Zito, Djalma Santos e até mesmo Garrincha – Pelé é um caso à parte – não teriam sido os ídolos que foram se não ganhássemos a Copa de 58. Por causa da derrota na Copa da Alemanha, não temos hoje ídolos nacionais; apenas de clubes, de cidades. O Marinho Chagas só será um ídolo verdadeiro se voltarmos vitoriosos da Argentina”.

 

Sobre estratégia: “Futebol, para mim, resume-se ao seguinte: o jogador deve facilitar a tarefa dos seus companheiros e dificultar a missão dos adversários, neutralizando seus pontos fortes e explorando seus pontos fracos. Elementar? Pois esse é o trabalho do treinador”.

 

Sobre títulos: “O treinador ganha para fazer sua equipe ganhar. Por isso, para a maioria, sua função resume-se em conquistar títulos. Eu, felizmente, sempre os conquistei”.

 

Sobre o jogador brasileiro: “A mistura da raça, notadamente a negra, ajuda muito o esporte. A subalimentação, por incrível que pareça, até ajuda. Ela não deixa o indivíduo com acúmulo de gordura, que é o maior inimigo do jogador de futebol”.

 

Sobre o futebol brasileiro: “Vivo há quase 50 anos no futebol e jamais tivemos uma fase tão ruim como esta. Onde estão os grandes craques do Brasil? Não os encontro. Há uma crise de talentos. Atualmente, não temos cinco grandes jogadores para integrar a Seleção”. (Maio de 1975)

 

Sobre o futebol: “Em futebol nada é impossível. Nada”.

 

Sobre a violência: “Se eu fui violento? Meu filho, futebol é jogado com os pés. Não se precisa pedir licença para usá-los. Eu, pelo menos, nunca pedi”.

 

NOTA: REPORTAGEM DE CARLOS MARANHÃO - REVISTA PLACAR/JANEIRO DE 1976.

 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

SEBASTIÃO BRUNO: O DR. BONZINHO

 


No dia 06 de Abril de 1996, Miracema se despedia de um filho ilustre que, honrou com maestria e grandeza de um verdadeiro ser humano, a profissão que escolheu para exercer. Profissão essa cheia de cuidado, amor e generosidade para aqueles que sabem honrá-la. Medicina é a arte de dedicar a vida a cuidar da vida dos outros, praticando o amor ao próximo em sua essência. A pessoa doente não coloca somente a espera pela cura nas mãos do seu médico, mas também a sua esperança de vida. O poeta e crítico inglês, Samuel Taylor, assim definiu o médico: “O melhor médico é aquele que mais esperança inspira”.


Dr. Bruno nos deixou, mas sua história segue viva para aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

 

Presto minha homenagem a esse guardião da saúde que a todos atendia com o mesmo carinho e determinação, sem fazer a mínima distinção de sua classe social. Vestiu o jaleco branco e honrou sua profissão com muito orgulho e amor, deixando um legado inquestionável de solidariedade ao próximo. Desempenhou a sua função na medicina como poucos.

 

O modo carinhoso que ele era tratado por todos resume a sua trajetória: “Dr. Bonzinho”. Esse não media esforços para socorrer quem dele necessitava, independente das condições financeiras do paciente. Era o médico da família miracemense.

 

Tive o prazer de sua convivência na minha adolescência, porque foi ele o responsável por trazer meu pai para Miracema nos idos dos anos 60. Enveredou-se na política e representou Miracema na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, mantendo a qualidade e seriedade do seu trabalho e conseguindo o respeito e admiração até dos adversários.

 

Em 03 de maio de 2008, durante os festejos de aniversário de emancipação, ocorreu a cerimônia de descerramento da placa denominando o PU (Posto de Urgência), DR. SEBASTIÃO BRUNO – DR. BONZINHO. Na oportunidade todos que fizeram uso da palavra enalteceram a brilhante trajetória do homenageado.

 

POR SÁVIO BRUNO

 

“De todas as pessoas que conheci em minha vida, não vi nenhuma que amasse tanto sua Terra Natal quanto o meu pai (Dr. Sebastião Bruno). Ele foi a pessoa com quem mais conversei. E nunca vi nem me deparei com ninguém que, como disse, louvasse tanto sua cidade, vivesse tão apaixonadamente para servi-la, aos cidadãos, a todo aquele que lhe acenasse carecendo de seus esforços ou que fosse, uma palavra amiga. Nunca vi. Trago meu pai como exemplo em cada passo que dou e, de alguma forma, caminhamos juntos.

 

Abraços a todos que tiveram a alegria de conhecê-lo. Ressalto a trajetória política que meu pai representou nossa cidade, de vereador a duas vezes Deputado Estadual, apaixonado por nossa terra Natal. Muito acompanhei de ambas as trajetórias - médico e representante de Miracema na Assembleia Legislativa da então capital, Niterói.”

 

 


domingo, 3 de abril de 2022

A NUVEM DO POLACA – POR ADILSON DUTRA






NOTA: ESSA CRÔNICA FOI PUBLICADA NO BLOG PAPO DE BOTEQUIM EM 27 DE DEZEMBRO DE 2009. 


A turma lá de cima parece que está com saudades da bola e com inveja daqueles que por aqui ficaram e fazem a festa neste final de ano. Sentado em sua nuvem particular, com mulatas, samba e um campinho particular, Jair Polaca mandou uma mensagem para Milton Cabeludo e o convidou para um papo cabeça no seu cantinho. 


Cabeludo foi e levou com ele o Juarez Beiçola e outros contemporâneos e no caminho pegaram o Pernoca e o Lauro, que estavam no entorno da nuvem do Silvinho, que tinha saído para visitar o pai, Maninho, que em outra parte observava os craques que chegavam para conversar com São Pedro.


Maninho foi localizado e levado para a nuvem do Polaca, que neste momento fazia uma ligação para o Gérson Coimbra já que a coisa fugiu do controle e precisava de uma organização no reduto. Seu Gerson chegou, botou a casa em ordem e começou a delegar poderes, mas para isto precisava da ajuda do Clarindo, que não fora localizado até aquele momento.

E a noticia do encontro se espalhou rapidamente e foram chegando os craques para uma pelada triunfal. Pintinho, com seu passo lento e tranquilo, chamou o Nenenzinho, que bateu uma mensagem para o Edil e todos seguiram rumo à nuvem do Polaca na maior prosa. O Nenenzinho queria saber se depois poderia colocar a fantasia de “mulinha” e sair pelas nuvens dançando e chamando a velha turma do “Fogaréu”. Nada disto, gritou o Cosme, se quiser samba terá que convidar o Zé do Carmo também e ele está preocupado é com o futebol de hoje. Samba é para o carnaval e é, comigo mesmo. O Mocinho e o Fota já estão de sobreaviso, disse o garoto que na terra ajudava o pai no comando da Unidos no Samba e Na Cor.


E os peladeiros foram chegando pouco a pouco, sem chuteiras, sem lenço ou documentos e o anfitrião já estava com seu livro de ouro rodando pelas nuvens e já tinha apanhado uns trocados com o Jamil Cardoso, Zé Carvalho e Nilo Lomba, seus amigos da prefeitura. E na passagem pela ala dos prefeitos o Maninho chamou o Olavo Monteiro para dar uma forcinha no meio campo de seu time, que teria, segundo ele, alguns craques da capital, levados pelo Caixa D’água e com o aval do Luiz Linhares, que a esta altura já fazia movimentação política no local.


O trio do Rink, Silvinho Moreno, Valcir Leite e Marcone Daibes, se animou e também armou uma lista de convidados, João Moreno e seu sobrinho Joltran, dois craques das peladas do Ginásio, se apresentaram imediatamente. A pelada prometia e ao que parece já tinha gente demais e faltava um homem para apitar. Pensaram em trazer um árbitro de outra nuvem, bem neutro, mas não tinham grana para levar um destes famosos e o jeito foi entregar o comando para o Rosário Mercante, que pelo menos tem crédito e sempre foi daqueles caras sérios quando apitava nos campos de grama aqui na terra.

Dirigentes demais reunidos e Caixa D’água queria fundar uma liga das nuvens, mas foi rechaçado pelo Luis Delco, mais novo no pedaço, que não queria um estranho no ninho e por isto foi chamar o Salim Bou-Issa para organizar a coisa, mas Altair Tostes passou rápido no espaço destinado as autoridades, bateu o martelo e decretou que a reunião seria entre colunas e o Farid Salim e seus manos José, Nacif e Jofre, cuidariam da alimentação enquanto o jovem Gustavo Rabelo cuidaria das camisas e das súmulas.


A turma se espalhava pela nuvem do Polaca, onze para cada lado e um punhado de reservas esperando vez no entorno do pedaço e aos poucos os dois treinadores foram chegando ao time correto e a festa estava pronta para ter o seu começo. 


Faltou espaço aqui e na nuvem do Polaca. Muitos queriam entrar em ação e o jeito foi fazer um torneio, tipo aqueles antigos Torneio Início, e a bola rolou macia durante todo o dia de Natal.