terça-feira, 28 de julho de 2020

JOSÉ ITAMAR DE FREITAS: CRIADOR DE LINGUAGEM NA TV BRASILEIRA


Luiz Cláudio Latgé é jornalista. Foi diretor regional em Brasília e em São Paulo. Assumiu a direção da GloboNews em 2008 e, em 2013, tornou-se diretor adjunto da área de Comunicação. Latgé saiu da Globo em 2015.

O acaso às vezes nos deixa na condição de testemunhas e, sem que tenhamos escolhido isto, carregamos o peso de estabelecer os fatos, como uma intimação da História. Digo isto porque preciso falar de José Itamar de Freitas, jornalista, ex-diretor do Fantástico, e também um de seus criadores. Este é o ponto. Mais que jornalista, Itamar foi um dos criadores da linguagem da TV brasileira, como conhecemos hoje.

O Fantástico andará por volta de 50 anos, e é um programa singular, que fugia do modelo dos programas dominicais de auditório e muitos países tentaram imitar. Boni foi o idealizador, Sherman, Armando Nogueira, Borjalo, Vannucci e outros andaram juntos nesta construção. Jornalismo e entretenimento. Itamar tornou isto possível. A essência da TV. Quantas modas lançou na vida da gente! Grandes reportagens, a cobertura dos acontecimentos que fizeram a História, denúncias, o debate de temas polêmicos, modismos, os vídeo-clips, procure nos arquivos e vai encontrar clássicos lançados no Fantástico, de Roberto Carlos a Raul Seixas, a garota do Fantástico, a Zebrinha do futebol, hoje cavalinhos, as pautas sobre ciências, os mágicos, reportagens de aventura, viagens, escalou Glória Maria para percorrer as Maravilhas do Mundo, a paixão por medicina e saúde… Itamar era obcecado por saúde e bem estar.

As reportagens de Hélio Costa nos Estados Unidos sobre os avanços da medicina eram um clássico, matérias de 20, 25 minutos, difíceis de sustentar hoje, e na época o programa era uma das maiores audiências da casa. Itamar era obcecado por saúde e caminhava todos os dias de sua casa em Ipanema à TV Globo no Jardim Botânico. Se hoje nos obrigamos a caminhar diariamente muito se deve à campanha que Itamar promovia no Fantástico pela prática de atividades físicas.

Já tinha mais de 50 anos, quando trabalhei com ele; era final dos 80, início dos 90, eu tinha trabalhado no Jornal do Brasil e começava na TV. Era um aprendizado constante. Pelo cuidado na pauta, pela composição das matérias. Nos domingos, chegava às sete da manhã para revisar e finalizar todo o programa. Pedia um sanduíche de mortadela para comer na sala e regia a edição num telão como se fosse uma orquestra. Parava para corrigir uma imagem, que pedia mais tempo, um texto que não carregava a ênfase necessária, uma entrevista mal conduzida… Como notas fora do tom. Só saía quando o programa terminava, depois das dez da noite. Eu o acompanhava e, invariavelmente, acordava destruído na segunda-feira.

Era cheio de rituais, manias e superstições, distribuía santos e orações a quem o visitava. Difícil acreditar que a Covid o pegou. Lavava as mãos com álcool o tempo todo, na sala do quinto andar, de onde quase não saia. Era difícil trabalhar com ele. Podia ficar dois ou três dias amadurecendo o roteiro da semana. Só se convencia quando terminava a chamada da programação. Podia levar cinco horas fazendo uma chamada! Naquele momento, podia dizer se o programa seria bom ou não e que audiência teria. Difícil era garantir que a reportagem fosse tão boa quanto a chamada…

Com o tempo foi se isolando, desconfiado de todo mundo. Saiu do Fantástico. Se tornou diretor de Reportagem do Jornalismo da Globo. Mas foi chamado às pressas, menos de um ano depois, para socorrer o programa, quando o Fantástico começou a ter problemas de audiência. Me levou com ele. A mudança foi anunciada de uma hora para outra. Itamar estava fora, acompanhando a mãe numa cirurgia em São Paulo. Era uma das raras coisas que poderia afastá-lo da TV: a família e Miracema.

Cuidei de todo o programa, de toda a produção para a edição. Itamar só conseguiu chegar ao Rio na sexta-feira, na hora que finalizávamos a chamada. Ele viu o roteiro e decidiu mudar a estrutura da chamada. Criou o que chamamos de “cartola”. Uma palavra que remete ao assunto, como nas editorias dos jornais: cidade, economia, saúde, política, esportes. Digo que criou porque as “editorias” que ele botou na chamada não eram usuais.

Maurício Kubrusly tinha feito uma entrevista na Califórnia com um personagem da família Dinossauro que fazia sucesso na época. A chamada dizia, na abertura: Alegria! Me lembro de ver como escrevia o texto e de perceber que aquilo mudava tudo. Depois vinham outras retrancas: emoção, aventura, saúde…

Eu tinha produzido o programa inteiro, mas aquela chamada mudava tudo. O Fantástico na época patinava em torno de 23 pontos de audiência. Na edição seguinte, voltou a dar 40 pontos de Ibope. A chamada do Itamar deu 40 pontos. Esse era José Itamar de Freitas. Depois veio o Luizinho, mas essa é outra história… É o que eu tenho a declarar, Itamar, descanse em paz, no lugar que merece.

Uma anedota do Itamar, se você resistiu na leitura até aqui. Itamar morria de medo do Boni. Ficava nervoso quando o Boni ligava. Tinham trabalhado juntos e chegaram a ser bem próximos. Mas nesta altura, o Boni já era o “todo-poderoso Boni” e Itamar não sabia reagir bem aos comentários, críticas e interferências.

Muitas vezes vi quando ele pedia para dizer que não estava, embora nunca saísse da sala. Contou que uma vez teve uma dúvida sobre uma reportagem a ser exibida no Fantástico e dividiu o problema com o Boni. Boni disse que era para exibir, sem nenhum problema. No domingo, durante o Fantástico, Itamar no controle de exibição, o telefone toca: é o Boni, ferindo um trato que tinham, de nunca discutir durante o programa, mas de fazer as avaliações depois.

Boni disparou, no jeito acelerado, que os imitadores repetem sempre da mesma forma: “pôrra, pôrra, Itamar, que pôrra é essa?”. Era justamente a reportagem discutida. Boni não deu chance de nenhum comentário. Emendou. Não quero saber, Itamar. Quero você amanhã cedo na minha sala… Itamar ficava desconcertado nestas situações. Provavelmente não dormiu. Segunda-feira era seu dia sagrado de folga, único dia que não ia à TV. Lá estava às nove na sala do Boni. Boni não apareceu. Voltou no dia seguinte, ficou na espera, Boni não o atendeu. Na quarta-feira, prestes a enfartar, e contra seu feitio, Itamar pegou o telefone e pediu para a secretária interromper o Boni. Disse que ligava por causa da ligação de domingo, por causa da matéria…

Mas a conversa foi rápida: “Pôrra Itamar, não ia te chamar aqui na segunda, nunca, né? É que o doutor Roberto Marinho estava comigo e reclamou da matéria, eu tinha que fazer alguma coisa…”. Anos mais tarde, toda essa tensão custou de fato um enfarte a Itamar, que fez uma ponte de safena. Boni poderá desmentir essa história, conto como ouvi, e por isso não me protegi com teria, seria e disse-quês… Talvez Itamar tenha romanceado… Faz parte do ofício do contador de história. 

Nota: transcrito na íntegra do Observatório da Imprensa / Seção Memória, Edição 1095, de 7 de julho de 2020. 

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