domingo, 11 de outubro de 2020

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHUTEIRA QUE ATINGIU O MINISTRO DA HUNGRIA NA COPA DO MUNDO DE 1954 - POR ZEZÉ MOREIRA

 


Diante de mim estava o dilema: - revide ou covardia. Tudo começou na humilhação de Maurinho. Por que eu dei com a chuteira na cara de alguém. 

 

O episódio do ministro Sebes é uma das minhas fixações. Não consigo esquecê-lo.Vou contar como as coisas realmente se passaram.

Eis a verdade: acabara o jogo Brasil x Hungria, com a derrota brasileira por 4 x 2. Farei, mais tarde, uma meticulosa reconstituição da partida, que tanto apaixonou o Brasil. No momento, o que interessa é o incidente da chuteira. Ninguém podia estar satisfeito, evidentemente. O jogador brasileiro não encara a derrota como uma contingência normal do esporte, mas como uma tragédia. Especialmente nas partidas internacionais e fora do Brasil. Quando pisa o chão estrangeiro ele pensa, acima de tudo, nos patrícios que ficaram para trás. Digamos que vá competir na Europa. Pois, muito bem: apesar do oceano, que o separa de sua terra, ele sente, e sofre, e vibra em função do público ausente e longínquo. Assim foi na Suíça, quando enfrentamos a Hungria. Cada elemento do escrete tinha a ilusão de que estava sendo olhado por 55 ou 60 milhão de patrícios. E quando, por fatores vários, perderam para os húngaros, a sua tristeza vinha menos da derrota em si mesma do que do julgamento da distante torcida brasileira.

Pois bem: apesar do dramatismo exagerado da situação, os nossos jogadores tiveram um mérito incontestável, qual seja o de fazer um esforço para superar a amargura do revés. O gesto de Maurinho foi típico.

Que fez Maurinho? Como eu ia dizendo: terminada a partida. Do seu rosto escorriam, misturados, o suor e a lágrima da derrota. Ele superou, porém, a sua tristeza. Viu um adversário próximo, que era o Czibor, que lhe estendera a mão. Perto, à espera dos jogadores, estava eu, assistindo à cena. Maurinho quer retribuir: estende a sua mão. E Czibor recolhe a mão. E, lá, ficou no ar e desprezada, a mão brasileira de Maurinho.

Falei da mão de Maurinho, que o outro se recusou a apertar. Mas é preciso não esquecer a cara de Czibor, na ocasião. A cara! Um insulto, um nome feio, um palavrão, no rijo e incisivo idioma de Camões, não seria mais grave, nem mais aviltante, que o ricto (riso forçado) do jogador húngaro para o nosso. Compreendo a revolta deste. Eu já disse que o craque brasileiro, no exterior, valoriza e dramatiza, ao máximo, a sua responsabilidade nacional. Atrevo-me a dizer, com exagero: ele se supõe, em campo, a própria pátria em calções e chuteiras. E o que teria dilacerado Maurinho, diante de Czibor, foi, acima de tudo, o brio ferido de brasileiro. Eis o que parecia exprimir o esgar (jeito do rosto) do adversário: nojo, desprezo, e, numa palavra, um achincalhe total.

E, então, já que lhe recusavam a cordialidade, já que lhe repeliam a efusão brasileira, Maurinho mudou de atitude. Eu só vi Czibor torcer-se como numa cólica. Maurinho vibrava-lhe um soco no estômago.

O que Czibor fez, em seguida, foi o que o carioca chama, na sua alegre gíria, de “cinema”. Simulou um nocaute espetacular. Dir-se-ia que o brasileiro lhe infligira um soco de fender edifícios. E, na verdade, a pancada de Maurinho fora mais simbólica do que outra coisa.

Vi que o incidente poderia transformar-se num conflito de maiores proporções. Chamo:

- Vem cá, Maurinho!

Ele veio. Puxo-o para fora de campo. No chão, Czibor continuava a dramatizar. Vários patrícios seus o acudiam, esbravejantes. Czibor gemia. Pensei, ao entrar no túnel, que tudo tinha começado e acabado ali. Mas estava enganadíssimo. O nocaute simulado do jogador húngaro exasperara os nossos adversários.

Agora um parêntese. Durante a partida, acontecera o seguinte: com chuteiras inadequadas, que não lhe ofereciam nenhuma estabilidade, Didi vivia caindo em campo. Ele escorregava, derrapava no campo molhado, como se o fizesse numa pista de gelo. Houve um momento em que ele e nós nos desesperamos. Deu-se um jeito de mudar as chuteiras para que Didi não patinasse tanto. Fiquei assistindo ao resto do jogo assim: segurando uma das chuteiras imprestáveis. Pois bem: passa-se o tempo e acaba o jogo. Quando Czibor estendeu a mão para Maurinho e, em seguida, a recolheu, eu estava, ainda, do mesmo jeito, isto é, com a chuteira na mão. Mas como ia dizendo: entro com Maurinho no túnel, certo de que estava tudo sanado.

O nosso vestiário era à esquerda, o dos húngaros à direita. E, súbito, vejo que um grupo adversário parte para cima de Maurinho. Era óbvio que se queria vingar o falso nocaute de Czibor. Trato de fazer a cobertura do meu companheiro. Foi então que se criou para mim o dilema de revide ou covardia. Mas vejamos como ocorreu o episódio da chuteira.

O sujeito que, num esgar de nojo, ou de ódio, cospe em alguém ou em alguma coisa, está na verdade tocando um limite extremo. Pergunto: existe alguma coisa de mais atroz, de mais nefando, do que um jato de saliva?

Foi o que fizeram nossos adversários. Eu me interpus entre eles e Maurinho.  E eles ficaram, a poucos passos de mim, agrupados, num alarido (falatório) infernal. Mas o sujeito que pragueja num idioma que não é o nosso fica mais cômico do que ofensivo. Mas eles se fizeram entender, em seguida. Num coro objeto, faziam a pergunta?

- Brésil?

E cuspiam, todos, em sincronismo. Conseguiram repetir:

- Brésil?

Nova cusparada. Eu falei no momento em que me vi diante do dilema da covardia ou revide. Foi este o momento, exatamente este, o momento. Contei que carregava uma chuteira, como se esta fosse algo de precioso como um sapato de Cinderela. Fiz, então, o que faria, no meu lugar, cada um dos 55 ou 60 milhões de brasileiros: arremessei a chuteira em cima dos cretinos ululantes. Foi chuteira e podia ter sido qualquer outra coisa mais ou menos contundente.

Apagaram a luz, em seguida. Mas antes, eu tive a imensa, a tremenda satisfação de ver que a chuteira atingira a cara de alguém. De quem? Não identifiquei, de momento, a pessoa. Logo, alguém apagou a luz e houve, no escuro, o diabo. Inclusive, Pinheiro levou, na cabeça, uma garrafada. Pouco depois, já havia quem dissesse horrores de mim. Afirmava-se que eu fizera aquilo por um motivo inferior: a “queimação” da derrota.

Posteriormente, vim a saber que a vítima teria sido o ministro Sebes. Foi ministro e podia ter sido mais, presidente, rajá, rei ou quem fosse. Digo, aqui, com a maior naturalidade: na minha frente, ninguém ofende o Brasil. E foi esta uma das coisas boas, nobres, que eu fiz na vida e da qual não me arrependerei, nem no céu, nem na terra.

 

NOTA: DEPOIMENTO DE ZEZÉ MOREIRA AO JORNALISTA NELSON RODRIGUES, PUBLICADO NA REVISTA MANCHETE ESPORTIVA EM 1957.

 

 

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