terça-feira, 20 de outubro de 2020
MIRACEMA: ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 1972 E 1976
domingo, 11 de outubro de 2020
A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHUTEIRA QUE ATINGIU O MINISTRO DA HUNGRIA NA COPA DO MUNDO DE 1954 - POR ZEZÉ MOREIRA
Diante de mim estava o dilema: -
revide ou covardia. Tudo começou na humilhação de Maurinho. Por que eu dei com
a chuteira na cara de alguém.
O episódio do ministro Sebes é uma
das minhas fixações. Não consigo esquecê-lo.Vou contar como as coisas realmente
se passaram.
Eis a verdade: acabara o jogo Brasil
x Hungria, com a derrota brasileira por 4 x 2. Farei, mais tarde, uma
meticulosa reconstituição da partida, que tanto apaixonou o Brasil. No momento,
o que interessa é o incidente da chuteira. Ninguém podia estar satisfeito,
evidentemente. O jogador brasileiro não encara a derrota como uma contingência
normal do esporte, mas como uma tragédia. Especialmente nas partidas
internacionais e fora do Brasil. Quando pisa o chão estrangeiro ele pensa,
acima de tudo, nos patrícios que ficaram para trás. Digamos que vá competir na
Europa. Pois, muito bem: apesar do oceano, que o separa de sua terra, ele sente,
e sofre, e vibra em função do público ausente e longínquo. Assim foi na Suíça,
quando enfrentamos a Hungria. Cada elemento do escrete tinha a ilusão de que
estava sendo olhado por 55 ou 60 milhão de patrícios. E quando, por fatores
vários, perderam para os húngaros, a sua tristeza vinha menos da derrota em si
mesma do que do julgamento da distante torcida brasileira.
Pois bem: apesar do dramatismo
exagerado da situação, os nossos jogadores tiveram um mérito incontestável,
qual seja o de fazer um esforço para superar a amargura do revés. O gesto de
Maurinho foi típico.
Que fez Maurinho? Como eu ia dizendo:
terminada a partida. Do seu rosto escorriam, misturados, o suor e a lágrima da
derrota. Ele superou, porém, a sua tristeza. Viu um adversário próximo, que era
o Czibor, que lhe estendera a mão. Perto, à espera dos jogadores, estava eu,
assistindo à cena. Maurinho quer retribuir: estende a sua mão. E Czibor recolhe
a mão. E, lá, ficou no ar e desprezada, a mão brasileira de Maurinho.
Falei da mão de Maurinho, que o outro
se recusou a apertar. Mas é preciso não esquecer a cara de Czibor, na ocasião. A
cara! Um insulto, um nome feio, um palavrão, no rijo e incisivo idioma de
Camões, não seria mais grave, nem mais aviltante, que o ricto (riso forçado) do
jogador húngaro para o nosso. Compreendo a revolta deste. Eu já disse que o
craque brasileiro, no exterior, valoriza e dramatiza, ao máximo, a sua
responsabilidade nacional. Atrevo-me a dizer, com exagero: ele se supõe, em
campo, a própria pátria em calções e chuteiras. E o que teria dilacerado
Maurinho, diante de Czibor, foi, acima de tudo, o brio ferido de brasileiro. Eis
o que parecia exprimir o esgar (jeito do rosto) do adversário: nojo, desprezo,
e, numa palavra, um achincalhe total.
E, então, já que lhe recusavam a
cordialidade, já que lhe repeliam a efusão brasileira, Maurinho mudou de
atitude. Eu só vi Czibor torcer-se como numa cólica. Maurinho vibrava-lhe um
soco no estômago.
O que Czibor fez, em seguida, foi o
que o carioca chama, na sua alegre gíria, de “cinema”. Simulou um nocaute
espetacular. Dir-se-ia que o brasileiro lhe infligira um soco de fender
edifícios. E, na verdade, a pancada de Maurinho fora mais simbólica do que
outra coisa.
Vi que o incidente poderia
transformar-se num conflito de maiores proporções. Chamo:
- Vem cá, Maurinho!
Ele veio. Puxo-o para fora de campo.
No chão, Czibor continuava a dramatizar. Vários patrícios seus o acudiam,
esbravejantes. Czibor gemia. Pensei, ao entrar no túnel, que tudo tinha
começado e acabado ali. Mas estava enganadíssimo. O nocaute simulado do jogador
húngaro exasperara os nossos adversários.
Agora um parêntese. Durante a
partida, acontecera o seguinte: com chuteiras inadequadas, que não lhe
ofereciam nenhuma estabilidade, Didi vivia caindo em campo. Ele escorregava,
derrapava no campo molhado, como se o fizesse numa pista de gelo. Houve um momento
em que ele e nós nos desesperamos. Deu-se um jeito de mudar as chuteiras para
que Didi não patinasse tanto. Fiquei assistindo ao resto do jogo assim: segurando
uma das chuteiras imprestáveis. Pois bem: passa-se o tempo e acaba o jogo.
Quando Czibor estendeu a mão para Maurinho e, em seguida, a recolheu, eu
estava, ainda, do mesmo jeito, isto é, com a chuteira na mão. Mas como ia
dizendo: entro com Maurinho no túnel, certo de que estava tudo sanado.
O nosso vestiário era à esquerda, o
dos húngaros à direita. E, súbito, vejo que um grupo adversário parte para cima
de Maurinho. Era óbvio que se queria vingar o falso nocaute de Czibor. Trato de
fazer a cobertura do meu companheiro. Foi então que se criou para mim o dilema
de revide ou covardia. Mas vejamos como ocorreu o episódio da chuteira.
O sujeito que, num esgar de nojo, ou
de ódio, cospe em alguém ou em alguma coisa, está na verdade tocando um limite
extremo. Pergunto: existe alguma coisa de mais atroz, de mais nefando, do que
um jato de saliva?
Foi o que fizeram nossos adversários.
Eu me interpus entre eles e Maurinho. E
eles ficaram, a poucos passos de mim, agrupados, num alarido (falatório)
infernal. Mas o sujeito que pragueja num idioma que não é o nosso fica mais
cômico do que ofensivo. Mas eles se fizeram entender, em seguida. Num coro
objeto, faziam a pergunta?
- Brésil?
E cuspiam, todos, em sincronismo.
Conseguiram repetir:
- Brésil?
Nova cusparada. Eu falei no momento
em que me vi diante do dilema da covardia ou revide. Foi este o momento,
exatamente este, o momento. Contei que carregava uma chuteira, como se esta
fosse algo de precioso como um sapato de Cinderela. Fiz, então, o que faria, no
meu lugar, cada um dos 55 ou 60 milhões de brasileiros: arremessei a chuteira
em cima dos cretinos ululantes. Foi chuteira e podia ter sido qualquer outra
coisa mais ou menos contundente.
Apagaram a luz, em seguida. Mas
antes, eu tive a imensa, a tremenda satisfação de ver que a chuteira atingira a
cara de alguém. De quem? Não identifiquei, de momento, a pessoa. Logo, alguém
apagou a luz e houve, no escuro, o diabo. Inclusive, Pinheiro levou, na cabeça,
uma garrafada. Pouco depois, já havia quem dissesse horrores de mim. Afirmava-se
que eu fizera aquilo por um motivo inferior: a “queimação” da derrota.
Posteriormente, vim a saber que a
vítima teria sido o ministro Sebes. Foi ministro e podia ter sido mais,
presidente, rajá, rei ou quem fosse. Digo, aqui, com a maior naturalidade: na
minha frente, ninguém ofende o Brasil. E foi esta uma das coisas boas, nobres,
que eu fiz na vida e da qual não me arrependerei, nem no céu, nem na terra.
NOTA: DEPOIMENTO DE ZEZÉ MOREIRA AO
JORNALISTA NELSON RODRIGUES, PUBLICADO NA REVISTA MANCHETE ESPORTIVA EM 1957.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
PELÉ: MEU PERSONAGEM DO ANO (1958) – POR NELSON RODRIGUES
Amigos, o meu personagem do ano tem de ser um jogador
do escrete que levantou o campeonato do mundo. Mas é um problema catar, num
time invicto, imbatível, um jogador que seja, exatamente, o símbolo pessoal e
humano desse time e desse escreve. E, logo, um nome me ocorre, de uma maneira
irresistível e fatal: - Pelé. Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das
nuvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de
Brigitte Bardot seria barrado, seria barrado, enxotado. Mas reparem: - é um
gênio indubitável. Digo e repito: - gênio. Pelé podia virar-se para Miguel
Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com intima efusão: - "Como vai,
colega?" De fato, assim como Miguel Ângelo é o Pelé da pintura, da
escultura, Pelé, é o Miguel Ângelo da bola. Um e outro podem achar graça de
nós, medíocres, que não somos gênios de coisa nenhuma, nem de cuspe à
distância. E que coisa confortável para nós, brasileiros, saber que temos um
patrício assim genial e assim garoto! Vejam: -17 anos! Na idade em que o pobre
ser humano anda quebrando vidraça, ou jogando bola de gude, ou raspando perna
de passarinho a canivete, Pelé toma-se campeão do mundo. Estava lá um rei,
Gustavo da Suécia. E viu-se, então, essa coisa que estaria a exigir um verso de
Camões: - o Rei desceu do seu trono e foi cumprimentar, foi apertar a mão do
menino Pelé. Então, pergunto: - que experiência real teria o menino de cor?
Havia de conhecer, no máximo, rei de baralho ou o "Rei Patusco" do
"gibi". Gustavo foi o primeiro rei autêntico que lhe mostrou os
dentes num soberano sorriso.
Eu sei que, na recepção ao escrete, houve quem
rosnasse por aqui: - "Estão exagerando! Já é demais!” Está claro que não
era demais, era de menos. Mas o brasileiro é assim mesmo. Em 50, quase houve um
suicídio nacional quando não fomos campeões do mundo. Éramos, todos nós,
brasileiros, uma nação que quase toma formicida. Pois bem: - e em 58, ao
conquistarmos o titulo, eis que houve, aqui, um hábito instantâneo á glória
jamais imaginada. O nosso pileque cívico durou até o desembarque. Já no dia
seguinte, porém, havia os descontentes, os fartos, os saturados. Um conhecido
meu que veio protestar - "Pelé não pode ser craque! Com 17 anos, ninguém
pode ser craque!” Na minha cólera, tive vontade de subir pelas paredes como uma
lagartixa profissional. Mas o meu consolo foi que, ao mesmo tempo, saia no
"Paris-Match", que é uma revista mundial, uma vasta, erudita e
compacta reportagem sobre Pelé. Lá vinha escrito: - Pelé. “Rei do Brasil”.
Enquanto, aqui, o brasileiro achava exagerado o próprio entusiasmo, uma revista
parisiense punha o garoto brasileiro nas nuvens. Direi mais: -
"Paris-Match” comportava-se diante de Pelé com a histeria de uma macaca de
auditório. Mas o que impressionou, na reportagem, foi a mentira que a entupia,
de cabo a rabo. Nunca se mentiu tanto em seis páginas de revista! O repórter
escrevia, por exemplo, que na sua euforia ululante, o Brasil dera o nome de
Pelé a ruas, praças e obeliscos.
Então, eu concluí que, apesar de todo o seu
passionalismo, a imprensa brasileira ainda é das mais sóbrias e das mais
contidas. Aqui, nenhum jornal, nenhuma revista, teria o descaro de inventar
reis, de inventar fantásticas homenagens nacionais. Não que Pelé e, de resto,
todo o escrete não as merecessem. Por meu gosto, confesso: - eu teria enfiado
no peito de Pelé a própria "Legião de Honra". Mas é que o brasileiro
não é disso. Sim. Amigos: - o brasileiro reage ao bem que lhe fazem com uma
gratidão amarga e quase ressentida. Que fez o escrete? Deu-nos a maior alegria
de nossa vida. Tornou qualquer vira-lata em campeão do mundo. Mas a nossa
gratidão logo secou como uma bica da Zona Sul. Tratamos de esquecer a jornada
estupenda. Mas eu vos digo: - "esquecer” não é bem o termo. Ou por outra:
- o brasileiro pode "esquecer” da boca paia fora. Mas na verdade um Pelé é
inesquecível. Insisto: - apesar de toda a nossa ingratidão, Pelé é imortal. E
por isso, porque ninguém pode enxotá-lo da nossa memória, eu o promovo a meu
personagem do ano.
Nota: texto publicado no Anuário de Ouro 1958/59 da
revista Manchete Esportiva.
terça-feira, 28 de julho de 2020
JOSÉ ITAMAR DE FREITAS: CRIADOR DE LINGUAGEM NA TV BRASILEIRA
sábado, 18 de julho de 2020
IGREJA MATRIZ DE MIRACEMA – POR JOSÉ ERASMO TOSTES
sábado, 27 de junho de 2020
MAURO GALVÃO: UM ZAGUEIRO MULTICAMPEÃO
Mauro Geraldo Galvão é gaúcho de Porto Alegre, onde
nasceu em 19 de dezembro de 1961. Zagueiro extremamente técnico que gostava de
dominar a bola e sair jogando com muita tranqüilidade e segurança, bom passe e muito
eficiente na marcação. Por ser um jogador que se cuidava, teve uma carreira
longa mantendo a mesma categoria que mostrou no início da carreira. Foi ídolo e
deixou saudades por todas as equipes que defendeu, tornando-se um dos grandes
zagueiros do futebol brasileiro.
Justamente por acharem um desperdício contar com um
jogador tão talentoso lá atrás é que muitos técnicos resolveram exercitar a
criatividade em cima do futebol de Mauro Galvão. Mário Juliato, por exemplo,
queria vê-lo atuando como os antigos centro-médios (hoje volantes mais
avançados). Cláudio Duarte lançou-o como meia-armador. Ernesto Guedes colocou-o
na lateral esquerda, e Dino Sani chegou a dar-lhe a camisa 10. Na Copa do Mundo
de 1990, na Itália, Galvão era o líbero do esquema de Lazaroni. E, pelo menos
em termos de Seleção, acabou ficando muito marcado pelo fracasso daquela
equipe. Em todas as funções ele se seu bem, mas em nenhuma tão bem como na
quarta-zaga, onde se tornou o capitão da maioria das equipes que defendeu.
Com apenas 17 anos Mauro Galvão era titular do
Internacional, campeão brasileiro invicto de 1979. Ao seu lado, craques como
Falcão, Mário Sérgio, entre outros. Ficou no Inter até 1986 e conquistou o
tetracampeonato gaúcho de 1981/82/83 e 1984. Chegou ao Bangu ainda em 1986 e por
lá ficou até o ano seguinte, conquistando a Taça Rio de 1987, correspondente ao
2º turno do Campeonato Carioca, atuando em 68 jogos e marcando 3 gols. Em 1988
chegou ao Botafogo acompanhado de Paulinho Criciúma, Marinho e Cláudio Adão,
numa “negociação” entre os presidentes Castor de Andrade e Emil Pinheiro, em
que muitos afirmam que envolveu pontos de jogo de bicho na capital carioca. Ficou
no Glorioso até 1990 e conquistou o bicampeonato carioca de 1989/90. Após a Copa
de 90 se transferiu para o Lugano, da Suíça, onde ficou até 1996 e conquistou
apenas a Copa da Suíça em 1993.
Voltou ao Brasil em 1996, conquistando o Campeonato
Brasileiro de 1996 e a Copa do Brasil de 1997. Com a categoria de sempre e
muito mais experiente, era apontado por muitos como o melhor zagueiro do Brasil e
foi reforçar o Vasco, já com seus 36 anos, pelo qual jogou de 1997 a 2000, e
foi peça fundamental nas conquistas do Campeonato Brasileiro de 1997 e
2000, da Taça Libertadores da América de 1998, do carioca de 1998, e da Copa
Mercosul de 2000, naquela fantástica virada contra o Palmeiras, no Parque
Antártica. Vestiu a camisa cruzmaltina em 178 jogos e marcou 12 gols. Em 2001, retornou ao Grêmio e de quebra foi campeão gaúcho e da Copa
do Brasil, atuando como líbero e capitão no time montado por Tite. Entrou para
a história dos rivais gaúchos. Em 2002, aos 40 anos, após a disputar mais uma
Libertadores pelo Grêmio, Mauro Galvão decidiu encerrar a sua vitoriosa
carreira. sexta-feira, 26 de junho de 2020
SENHOR GARÇOM: GODOY, EXPOENTE DO MAU HUMOR ENTRE OS FUNCIONÁRIOS DO BAR LAGOA, RUMA PARA OS 100 ANOS
Retirou-se.
O oficial não foi o único cliente a acoelhar-se nos 34 anos em que Godoy — ou, para os íntimos, Figueiredo — carregou copos de chope e pratos de kassler pelos salões do Bar Lagoa. O falecido jornalista Tite de Lemos foi repreendido por exagerar no café. A bailarina Nora Esteves, por antecipar-se à fila. E o compositor Martinho da Vila, autor de “Mulheres”, por fazer o que faz de melhor: cantar e batucar, em meio a mulheres.
Frequentador assíduo e secretário de Cultura do município do Rio em 1987 — ano em que o Lagoa foi tombado de forma provisória —, o ator Antônio Pedro diz que Godoy não inventou a carranca que define os funcionários da casa, “mas foi o ícone, a vedete, o ator principal”. Ao saber que o garçom, aposentado há mais de uma década, se aproximava do primeiro centenário, exclamou:
Nascido em 1915 na pequena cidade de Miracema, ao Norte do estado, Godoy desceu para a capital fluminense com 21 anos. Trabalhou como garçom na Churrascaria Gaúcha, no Restaurante Salete, na quadra do Império Serrano e na Tribuna de Honra do Vasco da Gama — onde diz ter servido Getúlio Vargas — até integrar-se ao escrete do Lagoa, no fim dos anos 1960. A contratação se deu por intermédio de um amigo, também garçom.
Acabou contratado.
Àquela época, a casa em estilo art déco, fundada em 1934 no longínquo bairro de Ipanema, já desfrutava de relativa fama. Em primeiro lugar, pela serpentina de 50 metros embebida em gelo, por onde o chope passava (e ainda passa) antes de ser servido. Em segundo, pelos sucessivos nomes que tivera até estabilizar-se como Bar Lagoa: nascera Bar Berlim (alcunha que lhe valera um injusto apedrejamento durante a Segunda Guerra Mundial), rebatizara-se Shangri-lá (em homenagem a uma embarcação brasileira afundada no mesmo período) e, finalmente, em 1944, por força do hábito, adaptou-se ao nome com que era chamado pela clientela.
Mas havia ainda um terceiro e principal motivo que fazia o local ser tão comentado à boca pequena: o folclórico mau humor de seus garçons. No livro “Bar Lagoa: Memória do Rio antigo’’, o empresário Antonio Grillo, atual proprietário, escreve que “com um certo ar de superioridade, os garçons pareciam os donos da casa, mandavam, desmandavam e resolviam os problemas" — o que gerou, por anos, a falsa suposição de que eram sócios do estabelecimento. Lembra ainda que seu falecido irmão Daniel — ex-garçom que foi promovido à gerente e, finalmente, a marido de Hilde Müller —, “sem pressa alguma, preparava os papéis para o contador e separava os cheques para depósito bancário’’ enquanto a freguesia reclamava “na varanda já lotada, à espera da casa abrir’’.
O engenheiro Sérgio Keller, de 82 anos — que diz frequentar o local desde 1942, quando ainda se chamava Bar Berlim —, acrescenta:
Assim, respaldado pela tradição e por uma gerência simpática aos seus caprichos, o garçom reinou, solene, durante décadas. Como não gostasse do calor da varanda, apegou-se às mesas dos fundos e da praça cinco (localizadas no canto esquerdo do salão de entrada). Senhor de seu quinhão, passou a decidir, qual rei do camarote, quem nele teria o privilégio de entrar. Casais em mesas grandes eram terminantemente proibidos. Jovens mais dados à conversa do que à gastronomia eram publicamente malquistos. Para todo cliente não desejado havia sempre uma cadeira, colocada sobre a mesa, a mostrar que aquele lugar estava reservado.
Ex-sócio do restaurante Fiammetta, o pediatra Roberto Cooper — que lembra até a data em que Godoy nasceu (“24 de junho, Dia de São João, que nem o nome dele’’) —, conta que o garçom tinha “predileção por parecer carrancudo’’:
Cooper cita ainda um segundo traço marcante do garçom:
Funcionário do Bar Lagoa há quase quatro décadas, o garçom José Alves de Oliveira, o Zeca, de 56 anos, comprova:
Em sua defesa não muito apaixonada, Godoy diz que “isso de colocar as cadeiras em cima da mesa é conversa’’. Quanto ao filtro da clientela, diz tê-lo aplicado “só com quem era muito saliente’’.
Em 15 de março de 1979, o general João Baptista Figueiredo foi eleito presidente do Brasil. O fato, além de anteceder a anistia e o fim do regime militar, atingiu Godoy de maneira comicamente particular. A autoridade inconteste, o semblante fechado, os óculos de aro grosso e o cabelo fixado à brilhantina tornaram a comparação inevitável. Do alto dos seus 64 anos, o garçom, contra sua vontade, passou a ser chamado de Figueiredo.
Freitas Filho conta que, como bom cliente, seguia à risca as regras do garçom:
Ainda assim, fazia questão de escolhê-lo:
Foi por cruzar esta linha que Nora Esteves, primeira bailarina do Teatro Municipal, acabou recriminada. A história é narrada pela médica Eliane Castelo Branco, ex-diretora do Hospital São Vicente de Paulo:
O relato prossegue:
É praticamente surdo. Tem aparelho de ouvido, mas não usa. Tem que tomar remédio, mas não toma (quando forçado, joga os comprimidos sob a cama). Operou catarata, mas por força do hábito, ainda leva os óculos de aro grosso no bolso da camisa.
![]() |
| Godoy recebendo o carinho do jornalista Chico Pinheiro. |
Aposentou-se com dois salários mínimos. Divide um apartamento de sala e quarto, na Tijuca, com a mulher, Maria de Lourdes, oito anos mais nova. O casal, que teve quatro filhos, está junto há 68 anos. Maria de Lourdes diz que apesar da fama de canhestro, o marido “é bom coração’’:
— Até hoje ele fala do Bar Lagoa; tem paixão por aquilo. Às vezes, me espera sair de casa, pega um ônibus e vai para lá sozinho.
O filho Carlos Godoy, de 62 anos, diz que a saída do restaurante, em função da idade avançada (já tinha 83 anos), foi dolorosa.
Nascido e criado em Cavalcante, o jornalista Sérgio Cabral diz que era fiel a Godoy “por razões óbvias’’:
O artista plástico Milton Machado, que também fazia questão de ser servido por Figueiredo, afirma que o garçom servia com “a doçura generosa de um morango com creme’’.
Num texto publicado recentemente no jornal “Folha de São Paulo’’, o cronista Antonio Prata defendia que “o garçom carioca é antes de tudo um nobre’’. Ele perguntava: “Para onde você acha que foram os condes, duques e viscondes no dia 16 de novembro de 1889 pela manhã? Voltaram a Portugal? Fugiram pros Açores?’’ E, em seguida, respondia: “Nada disso: arrumaram emprego no Bar Lagoa e no Villarino, no Jobi e no Nova Capela, no Braseiro e na Fiorentina.’’
À revista, ele continuou:
Garçom mais antigo em atividade no Bar Lagoa, Chico Barroso, de 62 anos, diz que Godoy tornou-se um mito tal que, certa feita, um grupo de jovens invadiu o restaurante com a missão de levá-lo dali: era o desafio máximo de uma gincana (conseguiram levar uma foto).









