domingo, 11 de outubro de 2020

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHUTEIRA QUE ATINGIU O MINISTRO DA HUNGRIA NA COPA DO MUNDO DE 1954 - POR ZEZÉ MOREIRA

 


Diante de mim estava o dilema: - revide ou covardia. Tudo começou na humilhação de Maurinho. Por que eu dei com a chuteira na cara de alguém. 

 

O episódio do ministro Sebes é uma das minhas fixações. Não consigo esquecê-lo.Vou contar como as coisas realmente se passaram.

Eis a verdade: acabara o jogo Brasil x Hungria, com a derrota brasileira por 4 x 2. Farei, mais tarde, uma meticulosa reconstituição da partida, que tanto apaixonou o Brasil. No momento, o que interessa é o incidente da chuteira. Ninguém podia estar satisfeito, evidentemente. O jogador brasileiro não encara a derrota como uma contingência normal do esporte, mas como uma tragédia. Especialmente nas partidas internacionais e fora do Brasil. Quando pisa o chão estrangeiro ele pensa, acima de tudo, nos patrícios que ficaram para trás. Digamos que vá competir na Europa. Pois, muito bem: apesar do oceano, que o separa de sua terra, ele sente, e sofre, e vibra em função do público ausente e longínquo. Assim foi na Suíça, quando enfrentamos a Hungria. Cada elemento do escrete tinha a ilusão de que estava sendo olhado por 55 ou 60 milhão de patrícios. E quando, por fatores vários, perderam para os húngaros, a sua tristeza vinha menos da derrota em si mesma do que do julgamento da distante torcida brasileira.

Pois bem: apesar do dramatismo exagerado da situação, os nossos jogadores tiveram um mérito incontestável, qual seja o de fazer um esforço para superar a amargura do revés. O gesto de Maurinho foi típico.

Que fez Maurinho? Como eu ia dizendo: terminada a partida. Do seu rosto escorriam, misturados, o suor e a lágrima da derrota. Ele superou, porém, a sua tristeza. Viu um adversário próximo, que era o Czibor, que lhe estendera a mão. Perto, à espera dos jogadores, estava eu, assistindo à cena. Maurinho quer retribuir: estende a sua mão. E Czibor recolhe a mão. E, lá, ficou no ar e desprezada, a mão brasileira de Maurinho.

Falei da mão de Maurinho, que o outro se recusou a apertar. Mas é preciso não esquecer a cara de Czibor, na ocasião. A cara! Um insulto, um nome feio, um palavrão, no rijo e incisivo idioma de Camões, não seria mais grave, nem mais aviltante, que o ricto (riso forçado) do jogador húngaro para o nosso. Compreendo a revolta deste. Eu já disse que o craque brasileiro, no exterior, valoriza e dramatiza, ao máximo, a sua responsabilidade nacional. Atrevo-me a dizer, com exagero: ele se supõe, em campo, a própria pátria em calções e chuteiras. E o que teria dilacerado Maurinho, diante de Czibor, foi, acima de tudo, o brio ferido de brasileiro. Eis o que parecia exprimir o esgar (jeito do rosto) do adversário: nojo, desprezo, e, numa palavra, um achincalhe total.

E, então, já que lhe recusavam a cordialidade, já que lhe repeliam a efusão brasileira, Maurinho mudou de atitude. Eu só vi Czibor torcer-se como numa cólica. Maurinho vibrava-lhe um soco no estômago.

O que Czibor fez, em seguida, foi o que o carioca chama, na sua alegre gíria, de “cinema”. Simulou um nocaute espetacular. Dir-se-ia que o brasileiro lhe infligira um soco de fender edifícios. E, na verdade, a pancada de Maurinho fora mais simbólica do que outra coisa.

Vi que o incidente poderia transformar-se num conflito de maiores proporções. Chamo:

- Vem cá, Maurinho!

Ele veio. Puxo-o para fora de campo. No chão, Czibor continuava a dramatizar. Vários patrícios seus o acudiam, esbravejantes. Czibor gemia. Pensei, ao entrar no túnel, que tudo tinha começado e acabado ali. Mas estava enganadíssimo. O nocaute simulado do jogador húngaro exasperara os nossos adversários.

Agora um parêntese. Durante a partida, acontecera o seguinte: com chuteiras inadequadas, que não lhe ofereciam nenhuma estabilidade, Didi vivia caindo em campo. Ele escorregava, derrapava no campo molhado, como se o fizesse numa pista de gelo. Houve um momento em que ele e nós nos desesperamos. Deu-se um jeito de mudar as chuteiras para que Didi não patinasse tanto. Fiquei assistindo ao resto do jogo assim: segurando uma das chuteiras imprestáveis. Pois bem: passa-se o tempo e acaba o jogo. Quando Czibor estendeu a mão para Maurinho e, em seguida, a recolheu, eu estava, ainda, do mesmo jeito, isto é, com a chuteira na mão. Mas como ia dizendo: entro com Maurinho no túnel, certo de que estava tudo sanado.

O nosso vestiário era à esquerda, o dos húngaros à direita. E, súbito, vejo que um grupo adversário parte para cima de Maurinho. Era óbvio que se queria vingar o falso nocaute de Czibor. Trato de fazer a cobertura do meu companheiro. Foi então que se criou para mim o dilema de revide ou covardia. Mas vejamos como ocorreu o episódio da chuteira.

O sujeito que, num esgar de nojo, ou de ódio, cospe em alguém ou em alguma coisa, está na verdade tocando um limite extremo. Pergunto: existe alguma coisa de mais atroz, de mais nefando, do que um jato de saliva?

Foi o que fizeram nossos adversários. Eu me interpus entre eles e Maurinho.  E eles ficaram, a poucos passos de mim, agrupados, num alarido (falatório) infernal. Mas o sujeito que pragueja num idioma que não é o nosso fica mais cômico do que ofensivo. Mas eles se fizeram entender, em seguida. Num coro objeto, faziam a pergunta?

- Brésil?

E cuspiam, todos, em sincronismo. Conseguiram repetir:

- Brésil?

Nova cusparada. Eu falei no momento em que me vi diante do dilema da covardia ou revide. Foi este o momento, exatamente este, o momento. Contei que carregava uma chuteira, como se esta fosse algo de precioso como um sapato de Cinderela. Fiz, então, o que faria, no meu lugar, cada um dos 55 ou 60 milhões de brasileiros: arremessei a chuteira em cima dos cretinos ululantes. Foi chuteira e podia ter sido qualquer outra coisa mais ou menos contundente.

Apagaram a luz, em seguida. Mas antes, eu tive a imensa, a tremenda satisfação de ver que a chuteira atingira a cara de alguém. De quem? Não identifiquei, de momento, a pessoa. Logo, alguém apagou a luz e houve, no escuro, o diabo. Inclusive, Pinheiro levou, na cabeça, uma garrafada. Pouco depois, já havia quem dissesse horrores de mim. Afirmava-se que eu fizera aquilo por um motivo inferior: a “queimação” da derrota.

Posteriormente, vim a saber que a vítima teria sido o ministro Sebes. Foi ministro e podia ter sido mais, presidente, rajá, rei ou quem fosse. Digo, aqui, com a maior naturalidade: na minha frente, ninguém ofende o Brasil. E foi esta uma das coisas boas, nobres, que eu fiz na vida e da qual não me arrependerei, nem no céu, nem na terra.

 

NOTA: DEPOIMENTO DE ZEZÉ MOREIRA AO JORNALISTA NELSON RODRIGUES, PUBLICADO NA REVISTA MANCHETE ESPORTIVA EM 1957.

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

PELÉ: MEU PERSONAGEM DO ANO (1958) – POR NELSON RODRIGUES

 


Amigos, o meu personagem do ano tem de ser um jogador do escrete que levantou o campeonato do mundo. Mas é um problema catar, num time invicto, imbatível, um jogador que seja, exatamente, o símbolo pessoal e humano desse time e desse escreve. E, logo, um nome me ocorre, de uma maneira irresistível e fatal: - Pelé. Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot seria barrado, seria barrado, enxotado. Mas reparem: - é um gênio indubitável. Digo e repito: - gênio. Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com intima efusão: - "Como vai, colega?" De fato, assim como Miguel Ângelo é o Pelé da pintura, da escultura, Pelé, é o Miguel Ângelo da bola. Um e outro podem achar graça de nós, medíocres, que não somos gênios de coisa nenhuma, nem de cuspe à distância. E que coisa confortável para nós, brasileiros, saber que temos um patrício assim genial e assim garoto! Vejam: -17 anos! Na idade em que o pobre ser humano anda quebrando vidraça, ou jogando bola de gude, ou raspando perna de passarinho a canivete, Pelé toma-se campeão do mundo. Estava lá um rei, Gustavo da Suécia. E viu-se, então, essa coisa que estaria a exigir um verso de Camões: - o Rei desceu do seu trono e foi cumprimentar, foi apertar a mão do menino Pelé. Então, pergunto: - que experiência real teria o menino de cor? Havia de conhecer, no máximo, rei de baralho ou o "Rei Patusco" do "gibi". Gustavo foi o primeiro rei autêntico que lhe mostrou os dentes num soberano sorriso.

 

Eu sei que, na recepção ao escrete, houve quem rosnasse por aqui: - "Estão exagerando! Já é demais!” Está claro que não era demais, era de menos. Mas o brasileiro é assim mesmo. Em 50, quase houve um suicídio nacional quando não fomos campeões do mundo. Éramos, todos nós, brasileiros, uma nação que quase toma formicida. Pois bem: - e em 58, ao conquistarmos o titulo, eis que houve, aqui, um hábito instantâneo á glória jamais imaginada. O nosso pileque cívico durou até o desembarque. Já no dia seguinte, porém, havia os descontentes, os fartos, os saturados. Um conhecido meu que veio protestar - "Pelé não pode ser craque! Com 17 anos, ninguém pode ser craque!” Na minha cólera, tive vontade de subir pelas paredes como uma lagartixa profissional. Mas o meu consolo foi que, ao mesmo tempo, saia no "Paris-Match", que é uma revista mundial, uma vasta, erudita e compacta reportagem sobre Pelé. Lá vinha escrito: - Pelé. “Rei do Brasil”. Enquanto, aqui, o brasileiro achava exagerado o próprio entusiasmo, uma revista parisiense punha o garoto brasileiro nas nuvens. Direi mais: - "Paris-Match” comportava-se diante de Pelé com a histeria de uma macaca de auditório. Mas o que impressionou, na reportagem, foi a mentira que a entupia, de cabo a rabo. Nunca se mentiu tanto em seis páginas de revista! O repórter escrevia, por exemplo, que na sua euforia ululante, o Brasil dera o nome de Pelé a ruas, praças e obeliscos.

 

Então, eu concluí que, apesar de todo o seu passionalismo, a imprensa brasileira ainda é das mais sóbrias e das mais contidas. Aqui, nenhum jornal, nenhuma revista, teria o descaro de inventar reis, de inventar fantásticas homenagens nacionais. Não que Pelé e, de resto, todo o escrete não as merecessem. Por meu gosto, confesso: - eu teria enfiado no peito de Pelé a própria "Legião de Honra". Mas é que o brasileiro não é disso. Sim. Amigos: - o brasileiro reage ao bem que lhe fazem com uma gratidão amarga e quase ressentida. Que fez o escrete? Deu-nos a maior alegria de nossa vida. Tornou qualquer vira-lata em campeão do mundo. Mas a nossa gratidão logo secou como uma bica da Zona Sul. Tratamos de esquecer a jornada estupenda. Mas eu vos digo: - "esquecer” não é bem o termo. Ou por outra: - o brasileiro pode "esquecer” da boca paia fora. Mas na verdade um Pelé é inesquecível. Insisto: - apesar de toda a nossa ingratidão, Pelé é imortal. E por isso, porque ninguém pode enxotá-lo da nossa memória, eu o promovo a meu personagem do ano.

 

Nota: texto publicado no Anuário de Ouro 1958/59 da revista Manchete Esportiva. 

terça-feira, 28 de julho de 2020

JOSÉ ITAMAR DE FREITAS: CRIADOR DE LINGUAGEM NA TV BRASILEIRA


Luiz Cláudio Latgé é jornalista. Foi diretor regional em Brasília e em São Paulo. Assumiu a direção da GloboNews em 2008 e, em 2013, tornou-se diretor adjunto da área de Comunicação. Latgé saiu da Globo em 2015.

O acaso às vezes nos deixa na condição de testemunhas e, sem que tenhamos escolhido isto, carregamos o peso de estabelecer os fatos, como uma intimação da História. Digo isto porque preciso falar de José Itamar de Freitas, jornalista, ex-diretor do Fantástico, e também um de seus criadores. Este é o ponto. Mais que jornalista, Itamar foi um dos criadores da linguagem da TV brasileira, como conhecemos hoje.

O Fantástico andará por volta de 50 anos, e é um programa singular, que fugia do modelo dos programas dominicais de auditório e muitos países tentaram imitar. Boni foi o idealizador, Sherman, Armando Nogueira, Borjalo, Vannucci e outros andaram juntos nesta construção. Jornalismo e entretenimento. Itamar tornou isto possível. A essência da TV. Quantas modas lançou na vida da gente! Grandes reportagens, a cobertura dos acontecimentos que fizeram a História, denúncias, o debate de temas polêmicos, modismos, os vídeo-clips, procure nos arquivos e vai encontrar clássicos lançados no Fantástico, de Roberto Carlos a Raul Seixas, a garota do Fantástico, a Zebrinha do futebol, hoje cavalinhos, as pautas sobre ciências, os mágicos, reportagens de aventura, viagens, escalou Glória Maria para percorrer as Maravilhas do Mundo, a paixão por medicina e saúde… Itamar era obcecado por saúde e bem estar.

As reportagens de Hélio Costa nos Estados Unidos sobre os avanços da medicina eram um clássico, matérias de 20, 25 minutos, difíceis de sustentar hoje, e na época o programa era uma das maiores audiências da casa. Itamar era obcecado por saúde e caminhava todos os dias de sua casa em Ipanema à TV Globo no Jardim Botânico. Se hoje nos obrigamos a caminhar diariamente muito se deve à campanha que Itamar promovia no Fantástico pela prática de atividades físicas.

Já tinha mais de 50 anos, quando trabalhei com ele; era final dos 80, início dos 90, eu tinha trabalhado no Jornal do Brasil e começava na TV. Era um aprendizado constante. Pelo cuidado na pauta, pela composição das matérias. Nos domingos, chegava às sete da manhã para revisar e finalizar todo o programa. Pedia um sanduíche de mortadela para comer na sala e regia a edição num telão como se fosse uma orquestra. Parava para corrigir uma imagem, que pedia mais tempo, um texto que não carregava a ênfase necessária, uma entrevista mal conduzida… Como notas fora do tom. Só saía quando o programa terminava, depois das dez da noite. Eu o acompanhava e, invariavelmente, acordava destruído na segunda-feira.

Era cheio de rituais, manias e superstições, distribuía santos e orações a quem o visitava. Difícil acreditar que a Covid o pegou. Lavava as mãos com álcool o tempo todo, na sala do quinto andar, de onde quase não saia. Era difícil trabalhar com ele. Podia ficar dois ou três dias amadurecendo o roteiro da semana. Só se convencia quando terminava a chamada da programação. Podia levar cinco horas fazendo uma chamada! Naquele momento, podia dizer se o programa seria bom ou não e que audiência teria. Difícil era garantir que a reportagem fosse tão boa quanto a chamada…

Com o tempo foi se isolando, desconfiado de todo mundo. Saiu do Fantástico. Se tornou diretor de Reportagem do Jornalismo da Globo. Mas foi chamado às pressas, menos de um ano depois, para socorrer o programa, quando o Fantástico começou a ter problemas de audiência. Me levou com ele. A mudança foi anunciada de uma hora para outra. Itamar estava fora, acompanhando a mãe numa cirurgia em São Paulo. Era uma das raras coisas que poderia afastá-lo da TV: a família e Miracema.

Cuidei de todo o programa, de toda a produção para a edição. Itamar só conseguiu chegar ao Rio na sexta-feira, na hora que finalizávamos a chamada. Ele viu o roteiro e decidiu mudar a estrutura da chamada. Criou o que chamamos de “cartola”. Uma palavra que remete ao assunto, como nas editorias dos jornais: cidade, economia, saúde, política, esportes. Digo que criou porque as “editorias” que ele botou na chamada não eram usuais.

Maurício Kubrusly tinha feito uma entrevista na Califórnia com um personagem da família Dinossauro que fazia sucesso na época. A chamada dizia, na abertura: Alegria! Me lembro de ver como escrevia o texto e de perceber que aquilo mudava tudo. Depois vinham outras retrancas: emoção, aventura, saúde…

Eu tinha produzido o programa inteiro, mas aquela chamada mudava tudo. O Fantástico na época patinava em torno de 23 pontos de audiência. Na edição seguinte, voltou a dar 40 pontos de Ibope. A chamada do Itamar deu 40 pontos. Esse era José Itamar de Freitas. Depois veio o Luizinho, mas essa é outra história… É o que eu tenho a declarar, Itamar, descanse em paz, no lugar que merece.

Uma anedota do Itamar, se você resistiu na leitura até aqui. Itamar morria de medo do Boni. Ficava nervoso quando o Boni ligava. Tinham trabalhado juntos e chegaram a ser bem próximos. Mas nesta altura, o Boni já era o “todo-poderoso Boni” e Itamar não sabia reagir bem aos comentários, críticas e interferências.

Muitas vezes vi quando ele pedia para dizer que não estava, embora nunca saísse da sala. Contou que uma vez teve uma dúvida sobre uma reportagem a ser exibida no Fantástico e dividiu o problema com o Boni. Boni disse que era para exibir, sem nenhum problema. No domingo, durante o Fantástico, Itamar no controle de exibição, o telefone toca: é o Boni, ferindo um trato que tinham, de nunca discutir durante o programa, mas de fazer as avaliações depois.

Boni disparou, no jeito acelerado, que os imitadores repetem sempre da mesma forma: “pôrra, pôrra, Itamar, que pôrra é essa?”. Era justamente a reportagem discutida. Boni não deu chance de nenhum comentário. Emendou. Não quero saber, Itamar. Quero você amanhã cedo na minha sala… Itamar ficava desconcertado nestas situações. Provavelmente não dormiu. Segunda-feira era seu dia sagrado de folga, único dia que não ia à TV. Lá estava às nove na sala do Boni. Boni não apareceu. Voltou no dia seguinte, ficou na espera, Boni não o atendeu. Na quarta-feira, prestes a enfartar, e contra seu feitio, Itamar pegou o telefone e pediu para a secretária interromper o Boni. Disse que ligava por causa da ligação de domingo, por causa da matéria…

Mas a conversa foi rápida: “Pôrra Itamar, não ia te chamar aqui na segunda, nunca, né? É que o doutor Roberto Marinho estava comigo e reclamou da matéria, eu tinha que fazer alguma coisa…”. Anos mais tarde, toda essa tensão custou de fato um enfarte a Itamar, que fez uma ponte de safena. Boni poderá desmentir essa história, conto como ouvi, e por isso não me protegi com teria, seria e disse-quês… Talvez Itamar tenha romanceado… Faz parte do ofício do contador de história. 

Nota: transcrito na íntegra do Observatório da Imprensa / Seção Memória, Edição 1095, de 7 de julho de 2020. 

sábado, 18 de julho de 2020

IGREJA MATRIZ DE MIRACEMA – POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Foi inaugurada em 03 de Maio de 1900. O projeto da construção foi de um engenheiro alemão, usando estilo gótico com as torres em tamanho menor. Um grupo dissidente queria que fosse feita a obra da Igreja no triângulo entre a Rua Salvador Ciuffo e Avenida Eiras, logo abaixo da estação ferroviária. Joaquim de Araujo Padilha mandou fazer um sobrado com fundos para frente da atual Igreja, para entravar a obra, mas foi mandado demolir em 1931 pelo Prefeito Altivo Linhares. Em 1922, o Padre Julio Braga construiu as escadarias que dão acesso à Matriz e, em 1931, foi construída a praça em frente à Matriz. O primeiro nomeado foi o Cônego José Thomás de Aquino que se destacou na emancipação de Miracema com um discurso pronunciado pela causa da separação.

Em 1936, foi nomeado o Padre Jeferson Valgueiro Diniz que construiu a Gruta Nossa Senhora de Lourdes. Em 1938, foi nomeado o padre José Nicodemos do Santos que denunciou o Tenente Coracy por maus tratos aos presos que trabalhavam na construção do Campo de Aviação. Em 1939, na festa de Corpus Christi, foi inaugurado o novo sacrário por Dom José Pereira Alves, Bispo de Niterói.

Em 1945, foi nomeado o Padre Joaquim Taumaturgo que construiu a Casa Paroquial. Foram alteradas as torres da Igreja, adquiridos bancos novos feitos na serraria de Melchiades Cardoso e dois sinos novos, doação de Marcelino Pereira Tostes, Marcelino Tostes Jr e Antonio Ventura Coimbra Lopes.

Em 1966, foi construído o Salão Paroquial pelo Padre Jerônimo Bartem, Padre Crúzio, com projeto do Engenheiro Expedito Antônio. Em 1973, Padre José Olavo Pires Trindade remodelou a Matriz com nova pintura, piso de mármore no altar-mor e a construção do calvário com as estações da via sacra.

O padre Carlos do Nascimento, em 1984, iniciou a construção das Igrejas: Nossa Senhora Aparecida projetada pelo engenheiro Expedito Antônio, na Cehab, e Santa Teresinha no Bairro Santa Tereza. As obras foram concluídas pelo padre Luiz Carlos Amorim.

Padre Matheus, atualmente Monsenhor, atua desde 1990. Construiu a Capela do Santíssimo Sacramento, em 1991, que foi inaugurada pelo Bispo Diocesano D. João Corso. Em 2002, o Salão Paroquial foi acrescido por mais um andar. No dia 14 de Maio de 2014, após 114 anos de fundação, a nossa Matriz sofreu uma completa reforma desde o telhado, forro, altares, parte elétrica com nova iluminação, os lustres todos passaram por uma revisão e limpeza e as portas todas pintadas.

Obra que levou uns dois anos para ser concluída com a ajuda dos fieis e a colaboração espontânea do Museólogo Gustavo Oliveira Tostes. Com pouca ajuda e muitas promessas de políticos, com exceção do Prefeito Juedyr Orçay que doou trinta mil reais. A missa foi rezada pelo Bispo de Campos Dom Roberto Francisco com a presença de padres de outras localidades. Engenheiros e operários foram homenageados pelo bispo de Campos. A IGREJA MATRIZ não comportou o numero de pessoas que vieram rezar e prestigiar a solenidade, pois muitas ficaram em pé ou pelo lado de fora.

sábado, 27 de junho de 2020

MAURO GALVÃO: UM ZAGUEIRO MULTICAMPEÃO



Mauro Geraldo Galvão é gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 19 de dezembro de 1961. Zagueiro extremamente técnico que gostava de dominar a bola e sair jogando com muita tranqüilidade e segurança, bom passe e muito eficiente na marcação. Por ser um jogador que se cuidava, teve uma carreira longa mantendo a mesma categoria que mostrou no início da carreira. Foi ídolo e deixou saudades por todas as equipes que defendeu, tornando-se um dos grandes zagueiros do futebol brasileiro.

Justamente por acharem um desperdício contar com um jogador tão talentoso lá atrás é que muitos técnicos resolveram exercitar a criatividade em cima do futebol de Mauro Galvão. Mário Juliato, por exemplo, queria vê-lo atuando como os antigos centro-médios (hoje volantes mais avançados). Cláudio Duarte lançou-o como meia-armador. Ernesto Guedes colocou-o na lateral esquerda, e Dino Sani chegou a dar-lhe a camisa 10. Na Copa do Mundo de 1990, na Itália, Galvão era o líbero do esquema de Lazaroni. E, pelo menos em termos de Seleção, acabou ficando muito marcado pelo fracasso daquela equipe. Em todas as funções ele se seu bem, mas em nenhuma tão bem como na quarta-zaga, onde se tornou o capitão da maioria das equipes que defendeu.

Com apenas 17 anos Mauro Galvão era titular do Internacional, campeão brasileiro invicto de 1979. Ao seu lado, craques como Falcão, Mário Sérgio, entre outros. Ficou no Inter até 1986 e conquistou o tetracampeonato gaúcho de 1981/82/83 e 1984. Chegou ao Bangu ainda em 1986 e por lá ficou até o ano seguinte, conquistando a Taça Rio de 1987, correspondente ao 2º turno do Campeonato Carioca, atuando em 68 jogos e marcando 3 gols. Em 1988 chegou ao Botafogo acompanhado de Paulinho Criciúma, Marinho e Cláudio Adão, numa “negociação” entre os presidentes Castor de Andrade e Emil Pinheiro, em que muitos afirmam que envolveu pontos de jogo de bicho na capital carioca. Ficou no Glorioso até 1990 e conquistou o bicampeonato carioca de 1989/90. Após a Copa de 90 se transferiu para o Lugano, da Suíça, onde ficou até 1996 e conquistou apenas a Copa da Suíça em 1993.

Voltou ao Brasil em 1996, conquistando o Campeonato Brasileiro de 1996 e a Copa do Brasil de 1997. Com a categoria de sempre e muito mais experiente, era apontado por muitos como o melhor zagueiro do Brasil e foi reforçar o Vasco, já com seus 36 anos, pelo qual jogou de 1997 a 2000, e foi peça fundamental nas conquistas do Campeonato Brasileiro de 1997 e 2000, da Taça Libertadores da América de 1998, do carioca de 1998, e da Copa Mercosul de 2000, naquela fantástica virada contra o Palmeiras, no Parque Antártica. Vestiu a camisa cruzmaltina em 178 jogos e marcou 12 gols. Em 2001, retornou ao Grêmio e de quebra foi campeão gaúcho e da Copa do Brasil, atuando como líbero e capitão no time montado por Tite. Entrou para a história dos rivais gaúchos. Em 2002, aos 40 anos, após a disputar mais uma Libertadores pelo Grêmio, Mauro Galvão decidiu encerrar a sua vitoriosa carreira.

Participou das Copas do Mundo de 1986 e 90, sendo essa última como titular. Foi campeão da Copa América de 1989 e conquistou a Medalha de Prata nos Jogos Olímpicos de 1984, quando o time do Internacional foi a base da Seleção, reforçado por mais alguns jogadores, e representou o Brasil na competição. Vestiu a camisa do Brasil em 26 jogos, sendo 24 oficiais.


sexta-feira, 26 de junho de 2020

SENHOR GARÇOM: GODOY, EXPOENTE DO MAU HUMOR ENTRE OS FUNCIONÁRIOS DO BAR LAGOA, RUMA PARA OS 100 ANOS



Eram tempos de ditadura militar. Um oficial de alta patente adentrou o Bar Lagoa — tradicional restaurante alemão da Zona Sul carioca — acompanhado de seu cão. Inábil, sentou-se à mesa do garçom João Godoy, por quem foi prontamente convidado a se retirar. Esclareceu, aos berros, que era coronel do Exército. Ouviu em resposta:
O senhor pode ser coronel, mas seu cachorro não é.

Retirou-se.

O oficial não foi o único cliente a acoelhar-se nos 34 anos em que Godoy — ou, para os íntimos, Figueiredo — carregou copos de chope e pratos de kassler pelos salões do Bar Lagoa. O falecido jornalista Tite de Lemos foi repreendido por exagerar no café. A bailarina Nora Esteves, por antecipar-se à fila. E o compositor Martinho da Vila, autor de “Mulheres”, por fazer o que faz de melhor: cantar e batucar, em meio a mulheres.

Frequentador assíduo e secretário de Cultura do município do Rio em 1987 — ano em que o Lagoa foi tombado de forma provisória —, o ator Antônio Pedro diz que Godoy não inventou a carranca que define os funcionários da casa, “mas foi o ícone, a vedete, o ator principal”. Ao saber que o garçom, aposentado há mais de uma década, se aproximava do primeiro centenário, exclamou:
Meu Deus! Mau humor dá resultado!

Nascido em 1915 na pequena cidade de Miracema, ao Norte do estado, Godoy desceu para a capital fluminense com 21 anos. Trabalhou como garçom na Churrascaria Gaúcha, no Restaurante Salete, na quadra do Império Serrano e na Tribuna de Honra do Vasco da Gama — onde diz ter servido Getúlio Vargas — até integrar-se ao escrete do Lagoa, no fim dos anos 1960. A contratação se deu por intermédio de um amigo, também garçom.
Ele estava indo embora e me apresentou à dona Hilde (senhora alemã que foi a primeira proprietária). Cheguei de chapéu-panamá, e ela falou: “Garçom bonito’’ — conta, faceiro.

Acabou contratado.

Àquela época, a casa em estilo art déco, fundada em 1934 no longínquo bairro de Ipanema, já desfrutava de relativa fama. Em primeiro lugar, pela serpentina de 50 metros embebida em gelo, por onde o chope passava (e ainda passa) antes de ser servido. Em segundo, pelos sucessivos nomes que tivera até estabilizar-se como Bar Lagoa: nascera Bar Berlim (alcunha que lhe valera um injusto apedrejamento durante a Segunda Guerra Mundial), rebatizara-se Shangri-lá (em homenagem a uma embarcação brasileira afundada no mesmo período) e, finalmente, em 1944, por força do hábito, adaptou-se ao nome com que era chamado pela clientela.

Mas havia ainda um terceiro e principal motivo que fazia o local ser tão comentado à boca pequena: o folclórico mau humor de seus garçons. No livro “Bar Lagoa: Memória do Rio antigo’’, o empresário Antonio Grillo, atual proprietário, escreve que “com um certo ar de superioridade, os garçons pareciam os donos da casa, mandavam, desmandavam e resolviam os problemas" — o que gerou, por anos, a falsa suposição de que eram sócios do estabelecimento. Lembra ainda que seu falecido irmão Daniel — ex-garçom que foi promovido à gerente e, finalmente, a marido de Hilde Müller —, “sem pressa alguma, preparava os papéis para o contador e separava os cheques para depósito bancário’’ enquanto a freguesia reclamava “na varanda já lotada, à espera da casa abrir’’.

O engenheiro Sérgio Keller, de 82 anos — que diz frequentar o local desde 1942, quando ainda se chamava Bar Berlim —, acrescenta:
Os antigos garçons, como o Rodrigues ou o José (ambos já falecidos), sempre foram conservadores, insensíveis a pessoas novas ou espalhafatosas. O Godoy, que já tinha a natureza desse tipo, entrou no time.

Assim, respaldado pela tradição e por uma gerência simpática aos seus caprichos, o garçom reinou, solene, durante décadas. Como não gostasse do calor da varanda, apegou-se às mesas dos fundos e da praça cinco (localizadas no canto esquerdo do salão de entrada). Senhor de seu quinhão, passou a decidir, qual rei do camarote, quem nele teria o privilégio de entrar. Casais em mesas grandes eram terminantemente proibidos. Jovens mais dados à conversa do que à gastronomia eram publicamente malquistos. Para todo cliente não desejado havia sempre uma cadeira, colocada sobre a mesa, a mostrar que aquele lugar estava reservado.

Ex-sócio do restaurante Fiammetta, o pediatra Roberto Cooper — que lembra até a data em que Godoy nasceu (“24 de junho, Dia de São João, que nem o nome dele’’) —, conta que o garçom tinha “predileção por parecer carrancudo’’:
Se eu perguntasse “Godoy, essa mesa é sua?’’, ele respondia: “Não, é do restaurante.” Se eu quisesse saber como estava a carne, ele dizia: “Está na geladeira.”

Cooper cita ainda um segundo traço marcante do garçom:
Ele era corruptível sem ser por dinheiro. Se você pertencia ao curral dele, havia mesa. Bastava um lance de olhar para resolver. Se não pertencia, nem adiantava tentar.

Funcionário do Bar Lagoa há quase quatro décadas, o garçom José Alves de Oliveira, o Zeca, de 56 anos, comprova:
Uma vez ele tirou uns garotos que já estavam sentados na mesa, sob o argumento de que estava reservada. E não estava reservada coisa nenhuma!

Em sua defesa não muito apaixonada, Godoy diz que “isso de colocar as cadeiras em cima da mesa é conversa’’. Quanto ao filtro da clientela, diz tê-lo aplicado “só com quem era muito saliente’’.

Em 15 de março de 1979, o general João Baptista Figueiredo foi eleito presidente do Brasil. O fato, além de anteceder a anistia e o fim do regime militar, atingiu Godoy de maneira comicamente particular. A autoridade inconteste, o semblante fechado, os óculos de aro grosso e o cabelo fixado à brilhantina tornaram a comparação inevitável. Do alto dos seus 64 anos, o garçom, contra sua vontade, passou a ser chamado de Figueiredo.
Ele era a cara do Figueiredo, mas ficava danado se fosse chamado assim — lembra o poeta Armando Freitas Filho, que costumava frequentar o restaurante com o jornalista Tite de Lemos.
Eu só o chamava de Godoy. Às vezes, de Seu Godoy. Achava o apelido injusto: ele era muito mais digno que o general.

Freitas Filho conta que, como bom cliente, seguia à risca as regras do garçom:
Ele não gostava que demorássemos com os pedidos. Uma vez, após comer um prato de carpaccio, o Tite pediu várias xícaras de café. O Godoy estava cansado de servir a mesma coisa e reclamou: “Isso parece uma fábrica de café!”

Ainda assim, fazia questão de escolhê-lo:
Porque além de servir bem, ele não tinha papo furado. Era concentrado, estava ali para fazer o serviço. Induzia todos a serem como ele, como Godoys. Traçava uma linha: o seu trabalho como garçom ia até certo ponto, o nosso, como freguês, começava a partir dali.

Foi por cruzar esta linha que Nora Esteves, primeira bailarina do Teatro Municipal, acabou recriminada. A história é narrada pela médica Eliane Castelo Branco, ex-diretora do Hospital São Vicente de Paulo:
Eu estava numa mesa com um casal de amigos, um deles também médico. Tínhamos acabado de jantar, e havia uma fila enorme do lado de fora. Uma bailarina que conhecia este médico puxou uma cadeira e sentou-se conosco, para herdar o lugar sem enfrentar a fila.

O relato prossegue:
O Godoy, então, se aproximou e disse: “Não gosto da senhora, mas vou servi-la.”

Nora Esteves, que morava ao lado do Bar Lagoa e, por isso, frequentava o lugar religiosamente, confirma:
Eu estou me lembrando de alguma coisa assim. Pode ter sido comigo. Eu ia muito lá e, durante um bom tempo, o Godoy me tratou extremamente mal. Mas à força de frequentar tanto o restaurante, ele acabou me adotando. Era como se aquilo fosse a casa dele. No final, viramos amigos.

Godoy — ou Figueiredo — tem hoje 98 anos. Só bebe cerveja quente. Joga no bicho na esquina de casa. Corta o cabelo uma vez por mês no Salão De Lagoas, em Cavalcante, bairro onde morou a maior parte da vida.
Ele vem aqui há mais de 50 anos — diz o barbeiro Belmiro Lagoas, de 73 anos. — É o mesmo corte desde que o conheci: simples, baixinho.

É praticamente surdo. Tem aparelho de ouvido, mas não usa. Tem que tomar remédio, mas não toma (quando forçado, joga os comprimidos sob a cama). Operou catarata, mas por força do hábito, ainda leva os óculos de aro grosso no bolso da camisa.
Godoy recebendo o carinho do
jornalista Chico Pinheiro. 

Aposentou-se com dois salários mínimos. Divide um apartamento de sala e quarto, na Tijuca, com a mulher, Maria de Lourdes, oito anos mais nova. O casal, que teve quatro filhos, está junto há 68 anos. Maria de Lourdes diz que apesar da fama de canhestro, o marido “é bom coração’’:
Até hoje ele fala do Bar Lagoa; tem paixão por aquilo. Às vezes, me espera sair de casa, pega um ônibus e vai para lá sozinho.

O filho Carlos Godoy, de 62 anos, diz que a saída do restaurante, em função da idade avançada (já tinha 83 anos), foi dolorosa.
Ele ficou abatido. Botava roupa de garçom para trabalhar na barraquinha de angu da minha irmã, em Cavalcante — conta. — Até hoje fala do Bar Lagoa. Quando vê a Regina Casé na TV, repete: “Essa não sentava comigo de jeito nenhum.”

Procurada pela Revista O GLOBO, a apresentadora contemporizou:
Todo mundo fala que os garçons de lá são mal-humorados, mas sempre me senti acolhida. Só que o meu é o Alfredo.

Nascido e criado em Cavalcante, o jornalista Sérgio Cabral diz que era fiel a Godoy “por razões óbvias’’:
As pessoas no fundo riam dele. Era o chamado mau humor engraçado.

O artista plástico Milton Machado, que também fazia questão de ser servido por Figueiredo, afirma que o garçom servia com “a doçura generosa de um morango com creme’’.
De presidente Figueiredo ele não tem nada, mas do alto de seus quase 100 anos é um garçom estadista — brinca.

Num texto publicado recentemente no jornal “Folha de São Paulo’’, o cronista Antonio Prata defendia que “o garçom carioca é antes de tudo um nobre’’. Ele perguntava: “Para onde você acha que foram os condes, duques e viscondes no dia 16 de novembro de 1889 pela manhã? Voltaram a Portugal? Fugiram pros Açores?’’ E, em seguida, respondia: “Nada disso: arrumaram emprego no Bar Lagoa e no Villarino, no Jobi e no Nova Capela, no Braseiro e na Fiorentina.’’

À revista, ele continuou:
A questão é que o garçom carioca tem mais que autoridade. É um saco, mas tem sua beleza, como uma pequena resistência ao mundo mercantil, da eficiência e da falsidade.

Garçom mais antigo em atividade no Bar Lagoa, Chico Barroso, de 62 anos, diz que Godoy tornou-se um mito tal que, certa feita, um grupo de jovens invadiu o restaurante com a missão de levá-lo dali: era o desafio máximo de uma gincana (conseguiram levar uma foto).

Fonte: reportagem da revista do jornal O Globo, de 12 de janeiro de 2014. A matéria em questão foi cada da revista.

Nota: João Godoy morreu no dia 19 de junho de 2016, a cinco dias de completar 101 anos, em casa. Deixou a mulher, Maria de Lourdes, dois filhos, cinco netos e uma bisneta. Com toda certeza era o garçom mais folclórico da capital carioca.  
João Godoy era irmão de Tote Godoy, que trabalhou por muitos anos como motorista do DER.
Sentiu a aposentadoria, mas as lembranças acabavam mantendo-o ativo. Em casa, não tinha cara amarrada. Gostava de ajudar a mulher na cozinha, tomar seu vinho e de servir a todos. Não dispensava uma festa, uma oportunidade de dançar. E nunca deixava de fazer seu jogo do bicho. No caminho, conversava com todos que encontrava pela rua.


domingo, 21 de junho de 2020

OS DETALHES DOS TRICAMPEÕES QUE ENTRARAM PARA A HISTÓRIA



GOLEIROS
Félix (1): Fluminense - 32 anos (São Paulo-SP, 24 de dezembro de 1937 † 24/08/2012)
47 jogos e 47 gols sofridos, sendo 39 oficiais e 37 gols sofridos









Ado (12): Corinthians - 23 anos (Jaraguá do Sul-SC, 04 de julho de 1946)
7 jogos e 5 gols sofridos, sendo 3 oficiais e 3 gols sofridos











Leão (22): Palmeiras - 20 anos (Ribeirão Preto-SP, 11 de julho de 1949)
104 jogos e 64 gols sofridos, sendo 81 oficiais e 52 gols sofridos












ZAGUEIROS
Brito (2): Flamengo - 30 anos (Rio de Janeiro-RJ, 09 de agosto de 1939)
60 jogos, sendo 47 oficiais











Piazza (3):Cruzeiro - 27 anos (Ribeirão das Neves-MG, 25 de fevereiro de 1943)
65 jogos, sendo 52 oficiais











Carlos Alberto Torres (4): Santos - 25 anos (Rio de Janeiro-RJ, 17 de julho de 1944 † 25/10/2016)
69 jogos e 9 gols, sendo 54 oficiais e 8 gols











Marco Antônio (6): Fluminense - 19 anos (Santos-SP, 06 de fevereiro de 1951)
51 jogos, sendo 40 oficiais











Baldocchi (14): Palmeiras - 24 anos (Batatais-SP, 14 de março de 1946)
3 jogos, sendo 1 oficial











Fontana (15): Cruzeiro - 29 anos (Santa Teresa-ES, 31 de dezembro de 1940 † 09/09/1980)
11 jogos, sendo 7 oficiais











Everaldo (16): Grêmio - 25 anos (Porto Alegre-RS, 11 de setembro de 1944 † 27/10/1974)
28 jogos, sendo 22 oficiais











Joel (17): Santos - 23 anos (Santos-SP, 18 de setembro de 1946 † 23/05/2014)
36 jogos, sendo 28 oficiais











Zé Maria (21): Portuguesa - 21 anos (Botucatu-SP, 18 de maio de 1949)
64 jogos, sendo 48 oficiais











MEIO-CAMPISTAS
Clodoaldo (5): Santos - 20 anos (Itabaiana-SE, 26 de setembro de 1949)
51 jogos e 3 gols, sendo 39 oficiais e 1 gol











Gérson (8): São Paulo - 29 anos (Niterói-RJ, 11 de janeiro de 1941)
85 jogos e 19 gols, sendo 69 oficiais e 15 gols

1









Rivellino (11): Corinthians - 24 anos (São Paulo-SP, 1º de janeiro de 1946)
120 jogos e 40 gols, sendo 92 oficiais e 24 gols














Paulo César (18): Botafogo - 20 anos (Rio de Janeiro-RJ, 16 de junho de 1949)
76 jogos e 16 gols, sendo 58 oficiais e 11 gols











ATACANTES
Jairzinho (7): Botafogo - 25 anos (Rio de Janeiro-RJ, 25 de dezembro de 1944)
100 jogos e 40 gols, sendo 81 oficiais e 35 gols











Tostão (9): Cruzeiro - 23 anos (25 de janeiro de 1947)
65 jogos e 36 gols, sendo 54 oficiais e 32 gols







Pelé (10): Santos - 29 anos (Três Corações-MG, 23 de outubro de 1940 † 29/12/2022)
114 jogos e 95 gols, sendo 91 oficiais e 77 gols











Roberto (13): Botafogo - 25 anos (São Gonçalo-RJ, 31 de julho de 1944)
15 jogos e 7 gols, sendo 13 oficiais e 6 gols











Edu (19): Santos - 20 anos (Jaú-SP, 06 de agosto de 1949)
54 jogos e 10 gols, sendo 42 oficiais e 9 gols











Dario (20): Atlético Mineiro - 24 anos (Rio de Janeiro-RJ, 04 de março de 1946)
12 jogos e 2 gols, sendo 6 oficiais












TÉCNICO
Mário Jorge Lobo Zagallo – 38 anos (Atalaia-AL, 09 de agosto de 1931)
Como técnico da Seleção principal comandou o time em 135 jogos (com 99 vitórias, 26 empates e 10 derrotas).