sexta-feira, 11 de maio de 2018

VIDA E OBRA DO MIRACEMENSE DIRCEU CARDOSO



Texto de 2001 de autoria de Rogério Medeiros.
Sugerido por Dr. Maurício Monteiro.

Dirceu Cardoso nasceu em Miracema em 4 de janeiro de 1913, filho do jornalista e político Melchíades Cardoso e Adalgisa Cardoso Leite. Melchíades foi Prefeito de Miracema por dois mandatos. Período em que Miracema e Pádua eram iluminadas pelos famosos lampiões belgas. Formou-se em direito pela Universidade Federal Fluminense, especializando-se em direito criminal. Retornando a Miracema lecionava no Colégio Miracemense. Nesta época, no internato do Colégio de Pádua havia uma grande quantidade de alunos oriundos da cidade de Muqui (ES), grande produtora de café. O Professor Lavaquial Biosca recebeu na ocasião um pedido da cidade capixaba para indicar um professor que iria dirigir o recém-criado Ginásio em Muqui. Lavaquial, conhecendo a capacidade do jovem advogado e professor Dirceu Cardoso, lhe fez o convite, prontamente atendido. Foi o seu primeiro desafio. Em pouco tempo transformou o Colégio de Muqui na maior e melhor escola do Sul do Espírito Santo. Líder inconteste e iniciando a sua extraordinária carreira política, foi eleito prefeito de Muqui, Deputado Estadual por duas vezes, Deputado Federal por mais dois mandatos e Senador da República. Foi ele quem leu na tribuna do Senado a carta de renúncia do presidente Jânio Quadros. No Espírito Santo foi ainda Secretário de Educação e Secretário de Segurança Pública. Faleceu aos 90 anos de idade, em 6 de maio de 2003, na cidade do Rio de Janeiro, mas foi enterrado em Muqui, onde iniciara sua carreira política.

Como os grandes felinos da Mata Atlântica, que chegam às margens dos rios e das lagoas na velhice à espera da morte, a figura mais lendária da política capixaba refugiou-se numa pequena cidade ao sul de Vitória com o mesmo propósito: “Estou esperando a morte aqui como compensação pela vida. Mas ela está demorando, já deveria ter chegado. O corpo fraqueja, a dor chega. Além do mais, eu quero ir dormir com a minha querida companheira, enterrada no cemitério daqui.”

Quem almeja a morte com tanta ansiedade é a própria figura da decência e da honestidade do político capixaba: o ex-deputado e ex-senador Dirceu Cardoso. Aos 88 anos de idade, ele voltou para Muqui, onde iniciou a sua vida pública, com este propósito, mas relativamente esquecido na memória do Estado e até na própria localidade que escolheu para homenagear com o seu cadáver.

Mas é difícil acreditar que o corpanzil que ele ainda ostenta hoje esteja já na hora de ir para o cemitério. O seu corpo com os devidos descontos do tempo é quase o mesmo que botou muita gente para correr nos seus cinquenta e tantos anos de vida pública. Bravo como uma onça, não foi, aliás, sem sentido que o repórter usou a imagem dos felinos para compará-lo. Dr. Dirceu, como sempre foi chamado na intimidade, resolveu muitos casos no muque.

Sua trajetória política é povoada de cenas de valentia. Quando líder do governo na Assembleia Legislativa, nos anos 50, ele acabou com a obstrução da oposição, feita por tenazes deputados, entre eles um célebre orador, Eurico Rezende, pegando o projeto das mãos dos adversários, rasgando-o como um brutamonte, pois era volumoso, lançando-o pela janela do plenário, numa época em que as janelas eram abertas, pois não havia ainda ar-refrigerado na Assembleia.

O forte do Dr. Dirceu sempre foi a honestidade e o seu zelo por ela. Construiu uma história neste ramo. Se em favor dela fosse necessário acabar com alguém, ele não pestanejava, fez inimigos às pencas. Seu lema era: “Para pôr fim a um corrupto, era necessário acabar com ele”. De temas como este, ele construiu sua vida pública, mas dando belos exemplos de honestidade. Tanto que vive hoje da renda de uma pequena propriedade agrícola, que lhe oferece, nos seus melhores anos, uma minguada safra de 200 sacos de café, que complementas sua aposentadoria.

Mora numa antiga casa no centro de Muqui (ES), herança da sua esposa, na companhia de um cozinheiro e um acompanhante, que o vigia como um cão de guarda. Dr. Dirceu é pai de quatro filhas, mas todas elas moram fora do Estado. Raramente o visitam. A que aparece é Liana, professora universitária, residente no Rio de Janeiro. Quando ela chega, ele vive doces momentos de carinho: Paizinho pra cá, Paizinho pra lá; A velha carranca se desmancha diante das manifestações de afeto da filha.

Mas a maior parte do tempo ele está sozinho, agarrado a uma leitura no porão da casa, onde conta com uma velha biblioteca e uma centenária cadeira, que faz parte do rol das suas preferências na casa. Mas todos os dias pela manhã, com uma pontualidade britânica, sai de casa para ir a agencia do Banco do Brasil conferir sua conta. Veste-se com o mesmo apuro de quando se dirigia ao Congresso Nacional. Coloca um velho terno de linho. Única mudança no traje está no chapéu que foi obrigado a usar para proteger sua vista deficiente.

À tardinha ele dá uma volta inteira no quarteirão da sua casa. Aos domingos, ele veste com o melhor traje, munido de um buquê de flores, visita o túmulo da sua mulher. A visita ao cemitério ocorre invariavelmente muito cedo. Costuma sair de casa as 5h 30 da manhã. No mês passado, protagonizou, por causa desta sua pontualidade, uma cena de alto risco: não tendo achado a chave do cadeado do portão, resolveu pular o muro. A sorte é que os vizinhos viram e o socorreram.

Mas há quem diga em Muqui, com alguma ironia política, é claro, que o Dr. Dirceu vai de madrugada ao cemitério para não ver a sepultura de seu principal inimigo político, que, por obra do destino, foi enterrado próximo à sepultura da sua mulher. A mágoa com o defunto vizinho é realmente grande, pois, como prefeito da cidade, ele mandou derrubar os pavilhões que formavam o conjunto do colégio do Dr. Dirceu. Foi inclusive, em seu tempo, anos 40/50, o maior educandário do sul do Espírito Santo. O colégio chegou a ter 430 alunos internos.

Arrependimento: ter trocado a vida de professor pela de político. Feitos que notabilizaram sua carreira política, lembrados na hora da entrevista pelo repórter, não foram, sequer, capazes de livrá-lo da angústia da renúncia do educador. E olha que na política ele contabiliza feitos memoráveis. Em certo momento, parou o Senado sozinho, impedindo que fossem votados inúmeros empréstimos externos. Foi uma luta titânica, ainda por cima temerária, pois foi feita em pleno regime militar. Dr. Dirceu foi senador de oposição pelo MDB.

Ao lembrar essa sua vitoriosa luta no Senado, o repórter mexeu com a sua memória e ele foi buscar outras imagens guardadas de sua trajetória política. Entre elas a de ter conseguido com o presidente Juscelino Kubitschek criar a Universidade Federal do Espírito Santo. Foi o último ato que o presidente assinou: “briguei até o fim para conseguir que o Espírito Santo também tivesse a sua universidade pública.”


Ele também foi um grande orador. É célebre seu discurso, no salão nobre da Assembleia Legislativa, na cerimônia de despedida de um colega deputado morto. Diante de uma plateia silenciosa e de uma família entristecida, ele finalizou sua fala dizendo: “e a política é assim, minha senhora (dirigindo-se à viúva), quando devolve o político à família, é dentro de um caixão. Leve-o que é seu.”

Mas hoje ele acha que a política não é bem assim. Já há muita gente tirando proveito dela. A honestidade que marcou a sua conduta não é mais tão primordial para os políticos de hoje. Provavelmente o barro que fez Dirceu Cardoso não é encontrado mais, escreveria, com certeza, um bom biógrafo. A grandeza do Dr. Dirceu está em transcender o papel do político honesto. Ele foi, sobretudo, um político que se lançou numa luta sem trégua pela moralidade pública, como o festejou, em recente encontro (aliás, um dos raros políticos que ainda o visita), o ex-deputado Roberto Valadão.

A trajetória política do Dr. Dirceu fez com que se acumulassem muitos ódios contra ele. O episódio do colégio é um, assim como terem matado de inanição financeira o seu jornalzinho, que, por quase 30 anos, editou, com o nome de "Município", numa modestíssima gráfica. Era um semanário com o qual incomodou gregos e troianos. Hoje os restos da antiga gráfica enferrujam no fundo do seu terreno, corno uma lembrança cruel do seu combativo período de jornalista. 

O episódio do Colégio, bem como o do seu jornal, são duas lembranças terríveis. Ele fala deles com o sentimento da mágoa. Não mais como um leão rugindo, como foi a sua marca na carreira política. Seu único desejo, além da morte, é voltar ao Senado para repovoar a mente dos lances que viveu lá. Mas cadê dinheiro para a passagem? O político que tinha tudo à disposição nunca fez uso das facilidades e muito menos acumulou para o fim de vida. É pobre. 

Mas um pobre que vive em solidão com os seus pensamentos, sem ter praticamente com quem conversar. Daria até para parafrasear, apesar da angustiante comparação, um dos primeiros contos de Gabriel Garcia Marquez: Ninguém Escreve ao Coronel. Não é sem razão que ele vive a rogar a chegada logo da morte, mas observando alguns desejos seus. Por exemplo, não quer banda de música nos seus funerais, mas sim uma Folia de Reis (belo folclore da região) acompanhando o caixão. 

Sua expectativa ainda para esta hora é que possa se comportar como um legitimo cavalo árabe: que não baixa a cabeça e vai olhando para o céu.

Abaixo descrevo alguns tópicos de sua Biografia encontrada no site da Câmara Municipal de Muqui:

* Foram seus irmãos Nadeje, Danilo, Liége, Evelyn, Brissac e Expedito. Gostava de jogar bola e banhar-se no Ribeirão Santo Antônio e vendia goiabada pelas ruas para ajudar seus pais. Cursou o primário no Ginásio Estadual Dr. Ferreira da Luz, o secundário no Ginásio de Miracema.
* Formou-se aos 16 anos e manifestou desejo de estudar Direito. Foi para Niterói onde cursou os 4 anos de Universidade e aos 20 anos formou-se advogado. Sem dinheiro não pôde comprar o terno para a formatura, o que não lhe permitiu participar das solenidades. Voltando a Miracema, lecionou História Natural e Biologia no Ginásio de Miracema nos idos de 1933.
* Ao iniciar-se a Campanha Separatista (para separar Miracema de Pádua) já aos 20 anos tornou-se uns dos principais oradores dos comícios em cada esquina e com outros oradores formou um grupo chamado "Os Quatro Diabos", sendo um deles seu pai, um proeminente jornalista, entre outras atividades. Em 1934, o Interventor do Estado do Rio cedeu ao movimento e deu a Dirceu a incumbência de entregar uma carta ao Almirante Ary Parreiras onde concordava com a separação de Miracema da cidade de Pádua.
* Foi considerado pela Imprensa como o Senador mais atuante em 1980 e eleito O Senador do Ano em 1981 especialmente pela sua "luta de um homem só" contra a inflação, a corrupção, as mordomias e o desperdício de dinheiro público, sendo verdadeiro paladino da instituição parlamentar. Reeleger o grande senador capixaba foi um ato de justiça do povo do Espírito Santo.
* A idade já pesava e não concorreu a Governador do Estado do Espírito Santo. Foi convidado por Tancredo Neves para ser subchefe da Casa Civil, afirmando que não cederia Dr. Dirceu ao Estado. Depois de cumprir seu mandato de Senador, foi Secretário de Segurança Pública e Presidente do Porto de Vitória de 1985 a 1990. Voltou a Muqui, sua terra adotiva, neste meio século de vida política, raramente usava um carro oficial, não empregava familiares ou amigos e terminou seus dias em Muqui praticamente sozinho com uma modesta aposentadoria.
* A Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo em Vitória deu seu nome ao plenário, hoje Plenário Dirceu Cardoso, assim como Miracema, sua cidade natal, em 2005, ao prédio da Câmara Municipal, cujos móveis maciços, no local até os dias de hoje, foram entalhados por seu pai, Melchíades, além de jornalista e escritor, um excelente carpinteiro.

Obrigado, Dr. Dirceu Cardoso! Muqui se sente honrada por tê-lo recebido. 





BOB MARLEY: O REI DO REGGAE


Foi um cantor, guitarrista e compositor jamaicano, o mais conhecido músico de reggae de todos os tempos, famoso por popularizar o gênero. Marley já vendeu mais de 75 milhões de discos. A maior parte do seu trabalho lidava com os problemas dos pobres e oprimidos. Levou, através de sua música, o movimento rastafári e suas ideias de paz, irmandade, igualdade social, preservação ambiental, libertação, resistência, liberdade e amor universal ao mundo. A música de Marley foi fortemente influenciada pelas questões sociais e políticas de sua terra natal, fazendo com que o considerassem a voz do povo negro, pobre e oprimido da Jamaica.

Nascido em 6 de fevereiro de 1945, o cantor foi acometido por um câncer que logo espalhou-se para o cérebro, o pulmão e o estômago. Ele lutou contra a doença durante oito meses buscando tratamento na clínica do Dr. Joseph Issels, na Alemanha, no final de 1980 e início de 1981. Durante algum tempo, o estado de Marley parecia ter se estabilizado com o tratamento naturalista do doutor alemão.

Em maio de 1981, quando o Dr. Joseph Issels anuncia que nada mais poderia ser feito, Bob Marley já abatido pela doença, resolveu retornar para sua casa na Jamaica para passar seus últimos dias junto à família e amigos. Ele não conseguiu completar a viagem, tendo que ser internado em um hospital de Miami. A sua mãe segurava a sua mão aos prantos enquanto Bob a consolava pedindo que secasse as lágrimas dizendo: "Mãezinha não chores. Vou à frente para preparar um lugar.”

Faleceu pouco antes do meio-dia de 11 de maio de 1981, aos 36 anos, menos de 40 horas depois de deixar a Alemanha.

terça-feira, 8 de maio de 2018

PINGA: UM ARTILHEIRO NATO


José Lázaro Robles nasceu no bairro da Mooca, na capital paulista, em 11 de fevereiro de 1924.  Ponta de lança hábil, com ótima visão de jogo e muito eficiente nas finalizações, qualidades que fizeram dele o maior artilheiro da história da Portuguesa de Desportos – 190 gols em 236 jogos, e o quarto maior do Vasco da Gama – 252 gols em 466 jogos, atrás apenas de Roberto, Romário e Ademir Menezes.  

A carreira começou na década de 40, no Juventus, como um ponta de lança que tinha no pé esquerdo um chute forte e praticamente indefensável, que o transformou em artilheiro por onde passou. Em 1944, Pinga se transferiu para a Portuguesa, equipe que defendeu durante oito anos, período no qual seu futebol seguiu uma trajetória ascendente. A Lusa tinha um time que era respeitado e contava no elenco, ente outras feras, com Djalma Santos, Brandãozinho e o ponta Julinho Botelho, todos eles, ao lado de Pinga, com passagens pela Seleção Brasileira. Em 1952, na última temporada do atacante na Portuguesa, sagrou-se campeão do Torneio Rio-São Paulo.

Em 1953, na maior transação do futebol brasileiro à época, foi para o Vasco e os dirigentes não se arrependeram do negócio. Em São Januário, onde permaneceu até 1962, passou a atuar mais avançado, pelo lado esquerdo, mas os gols continuavam a sair da mesma forma.  Uma de suas melhores temporadas foi a de 1958, quando o clube conquistou o “supercampeonato carioca”, em um triangular junto com Flamengo e Botafogo. Conquistou também o título do carioca de 1956. Pinga deixou o seu nome na história dos dois tradicionais clubes de origem portuguesa. Em 1962, retornou às origens para encerrar a carreira no Juventus, da sua Mooca do coração.

Fez parte da Seleção Brasileira que conquistou seu primeiro título no exterior: o Pan-Americano do Chile, em 1952, sob o comando técnico de Zezé Moreira. Participou da Copa do Mundo de 1954, na Suíça, e foi titular nos dois primeiros jogos. Pela Seleção foram 19 jogos e 10 gols, sendo 17 oficiais e  10 gols.  

Pinga faleceu em 08 de maio de 1996, na cidade de Campinas-SP, aos 72 anos. Ele era pai do ex-atacante Ziza, com passagens pelo Guarani, Atlético Mineiro, Botafogo (RJ) e futebol árabe. 

sábado, 5 de maio de 2018

NAPOLEÃO PEDREIRO - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Napoleão era pedreiro e mentiroso de nascença, gostava de frequentar velórios somente para contar anedotas que às vezes até o defunto achava graça. Era um mulato de pele manchada pelo vitiligo, cabelos grisalhos, analfabeto que fingia ler o jornal em voz alta com sua pronúncia nordestina, inventando as mentiras mais descabidas.

Fazia dos seus sapatos chinelos, cortando as partes traseiras. Batininha era seu irmão. Os dois foram fazer um muro para a dona Luzia Cava, uma italiana, e, ao terminarem o muro, Napoleão foi receber pelo serviço. Batininha ficou segurando o muro enquanto Napoleão recebia. Após o recebimento, antes de o galo cantar, o muro já havia caído.

Num desses velórios ele contou que foi pescar na Lagoa Preta, na fazenda do Zé Dono, onde dava muita traíra. Lá ficando horas e mais horas, sem nada pescar, resolveu fazer uma promessa: vou pegar duas traíras, uma para o Sr. Marcellino e outra para o Sr. José de Assis, os dois homens mais ricos da cidade naquela época.

Foi só botar o anzol na água e em poucos minutos pegou duas traíras daquelas bem grandes. Pegou as duas, botou dentro de bornal amarrando bem a boca. Olhou para a lagoa e, cruzando os braços deu uma banana: aqui para você sua puxa-saco, que vou dar os peixes nada!

Napoleão contava que, fazendo uma viagem pela estrada de ferro, veio sentar ao seu lado uma linda morena, cruzando as pernas, deixando aparecer as coxas grossas e rosadas. Ele, não resistindo a tentação, leva a mão devagarzinho para acariciar aquelas pernas, quando de repente a moça sacou uma Bíblia e começou a ler em voz alta o versículo dois, capítulo 23. 
Rapidamente, retirou a mão e saiu do banco em que estava indo sentar em outro lugar. Ao chegar em casa foi verificar o versículo dois, capítulo 23. E teve uma grande surpresa. Dizia: mais em cima entrará no Paraíso.

Em outro dia, acendeu um cigarro em volta de um caixão e continuou contando que, em certa ocasião, nossa cidade estava muito ruim de serviço. Resolveu sair à procura de emprego. Ia de um lugar para outro e nada, até que chegou a uma fazenda. O fazendeiro disse: o serviço que eu tenho é para amansar animais. Ele nunca tinha montado antes, mas resolveu, por força da necessidade, aceitar o emprego.

O fazendeiro, em seguida, mandou que ele e outros peões fossem buscar o touro chamado Corisco, o mais bravo da propriedade, que havia fugido. E lá foi Napoleão pegar um cavalo vermelho que foi logo murchando as orelhas. Foi pegar outro que foi logo dando coices. Até que viu um burrinho velho e resolveu montar no tal. Atravessou logo uma capoeira e viu o danado do boi bravo. É hoje que estou ferrado, disse para os seus botões. Jogou o laço e pegou o danado do boi, mas o laço estava amarrado na argola da sela e o boi saiu arrastando-o e esfregando o burrinho velho na cerca. Então começou a sentir uma coisa na barriga, as tripas se revolvendo. Daí a pouco desceu o barro e sujou toda a roupa. No mesmo instante chegaram outros peões e sentiram um cheiro danado vindo de cima da sela e começaram a rir. Ele olhou para eles e disse: Eu não sou igual a vocês que param para cagar quando estão pegando um boi.

E, desse dia em diante, passou a ser chamado de Peão Cagão.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

ROBERTO DINAMITE: A VOLTA TRIUNFAL AO VASCO EM 1980


Maior artilheiro e ídolo vascaíno, Roberto teve em sua carreira no clube uma infinidade de partidas e conquistas históricas, dentro de campo, é claro! No entanto, há uma particularmente especial, tanto para ele quanto para a torcida do Vasco: a partida contra o Corinthians, em 4 de maio de 1980, que marcou a sua volta ao gramado do Maracanã com a camisa vascaína. Naquele dia, Dinamite estava inspirado e não perdoou: marcou todos os cinco gols da vitória do Vasco sobre o Corinthians.  
Jornal O Globo: acervo particular 
Roberto estava voltando da Espanha, onde não teve o sucesso esperado – a sua passagem pelo Barcelona foi um fracasso – por vários motivos, entre os quais a pouca paciência do técnico Helenio Herrera, que não deu ao atacante o tempo necessário para uma adaptação adequada. O técnico que o indicou saiu após o terceiro jogo de Roberto pelo time espanhol. Sabendo de seus problemas na equipe catalã, o então presidente rubro-negro Márcio Braga acreditou que tinha chegado a hora de levar Dinamite para a Gávea. Diante do interesse apresentado, Jurema, esposa de Roberto, tomou as devidas precauções: telefonou imediatamente para o Vasco e alertou a direção do clube sobre o que estava acontecendo. A tropa de choque do Vasco entrou em ação, com a presença de Eurico Miranda, que, na época, já era um dirigente influente e foi de fundamental importância na volta de Roberto ao time de São Januário.  

No primeiro domingo de maio de 1980, Roberto se reapresentou à torcida vascaína no Maracanã. Estava programada uma rodada dupla, com Flamengo e Bangu na preliminar, e Vasco e Corinthians no jogo principal. O velho Maraca reuniu 107.474 pagantes: de um lado vascaíno e do outro rubro-negros e corintianos, a Fla-Fiel, como foi denominada.

O primeiro tempo terminou 4 a 2 para o Vasco, com Roberto marcando aos 13, 27, 37 e 39 minutos. Um verdadeiro bombardeio do Dinamite em cima da perdida zaga do Corinthians. Todos que estavam no estádio assistiam perplexos a uma atuação de gala do atacante. No início da 2ª etapa, a arquibancada do lado da torcida Fla-Fiel já estava quase vazia: a torcida adversária bateu em retirada e não viu o quinto gol, que completou o massacre na volta triunfal do ídolo ao Brasil, conforme descrito na reportagem do jornal O Globo. 


segunda-feira, 30 de abril de 2018

OBRIGADO, DR. NEY MENNA GUTTERRES!

Foto do Instagram de Ricardo Tostes 

HOMENAGENS EM VIDA SÃO MARCANTES E INESQUECÍVEIS PARA O HOMENAGEADO; HOMENAGENS PÓSTUMAS SÃO APENAS LEMBRANÇAS PARA OS FAMILIARES.

Um amigo é alguém que sabe a canção de seu coração e pode cantá-la quando você tiver esquecido a letra. 

Sem palavras para descrever o que presenciamos no encerramento do desfile cívico escolar no último domingo de abril (29), quando o Dr. Ney foi ovacionado do início ao fim da Rua Marechal Floriano, reconhecimento esse por todos os serviços prestados em prol da medicina. O seu nome, Dr, Ney, está escrito e gravado com letras douradas em nossos corações! Chega a ser difícil conseguir as palavras certas para traduzir o agradecimento que o senhor merece. As lágrimas que derramamos durante a homenagem foram de alegria por compartilhar da sua “alegria” ao lado de seus familiares e de seus amigos.

Ser médico, não é simplesmente fazer uma opção. Ser médico, não é uma profissão como outra qualquer, pois você vai cuidar de um ser humano, você tem que salvar vidas, e para isso tem que trabalhar com o coração. A sua área específica tem o dom único e o prazer de ajudar a trazer novas vidas a esse mundo. Há médicos do corpo e médicos da alma. Felizes são aqueles que, como o senhor, conseguem reunir as duas profissões. 

Muitas vezes o remédio mais importante para o tratamento de seu paciente não se encontra nas farmácias. Ele é composto por respeito, carinho, dedicação e pode ser oferecido a cada consulta. Essas três palavras mágicas, “respeito”, “carinho” e “dedicação”, tão ausentes no mundo que vivenciamos, fazem parte de sua trajetória na medicina.

AVANTE MIRACEMA!


quinta-feira, 26 de abril de 2018

MINHA RUA - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Passamos a vida fazendo as mesmas coisas todos os dias. Às vezes em minha rua, fico reparando os meus vizinhos. Bem cedo, antes do amanhecer, escuto o barulho do varredor começando a sua lida diária. O barulho do cilindro da padaria já deixamos de ouvir há tempos, hoje são mais modernos.

Às seis da manhã chega o jornaleiro, entrega seus exemplares e na volta passa recebendo. O Altair passando assobiando baixinho e balançando a cabeça ao fazer seu cooper diário. Antes das sete, vejo o primeiro a abrir sua loja, o Chiquinho Alfaiate, que abre, pega a mangueira e molha a rua todos os dias, invariavelmente. Quando chega a noite, após a varredura, pega a vassoura, esfrega-a na árvore para eliminar a poeira e tira com as mãos alguma coisa que ficou agarrada na mesma.

Abaixo um pouco, o Thiara com seus badulaques a ornamentar a calçada, com bolas, calcinhas, óculos, cintos e muitos outros objetos que são protegidos do sol por uma lona azul. Mais acima, o Garibalde, sempre sentado numa cadeira de praia, onde fica por várias horas durante o dia. A Cilene, todas as manhãs a jogar água em frente ao Supermercado Real. A Tânia com sua barraca de bijuterias com relógios, carteiras, fitas, brinquedos e muitas outras coisas a mais, na calçada do Wilson há mais de dez anos.

A Cecéia coloca todos os dias na calçada os seus artigos para expor: pias, canos, arame farpado... mostruários para atrair os seus fregueses, de onde as mercadorias são levadas pelo seu caminhão.

As empregadas domésticas a descer todos os dias, carregando as suas bolsas, para o trabalho. O movimento dos alunos em direção à escola, o locutor da Rádio Princesinha que chega à porta para apreciar a paisagem enquanto a fita está rodando. O caminhão do lixo sempre ao meio-dia.

Ainda tem o Fernando Chaveiro, que conserta de tudo, amola tesoura e mais, sempre deixa uma placa com o aviso: “Volto já”. O Carequinha dentista, sempre atrasado e sem pressa para atender os seus pacientes. O Beto, no Bar do Pernoca, pintando na tabuleta: “Hoje tem feijoada”. No outro dia: “Hoje tem canjiquinha com costela”. O carteiro, que passa sempre às três horas da tarde há mais de vinte anos. No açougue do Betinho, que fica ao meu lado, começa cedo o movimento. Muita água para fazer a limpeza. Depois chega o caminhão do Matadouro, com o boi abatido, que vai para o gancho para ser desossado. Depois da venda diária, na hora de fechar, toma sua cervejinha no Zé Amim, porque ele não é de ferro. Do lado direito, o Tetinho, sempre cochilando numa cadeira. Quando acorda, queixa-se de uma injeção que tomou há mais de trinta anos. E o vigia noturno, que vejo mais de dia do que de noite. Cinco ou seis sexagenários (brochas) que após fechar a Loja do Marcellino, sentam na porta para falar de sexo e mulheres.

E assim a vida vai continuando sempre a mesma, a repetir dia-a-dia os nossos hábitos, e nessa trajetória diária, vamos vivendo, e junto conosco envelhecendo também as árvores de nossa rua, aonde os pardais, todas as tardes, às cinco e meia, vêm chegando com um alarido em profusão para buscar o abrigo e o agasalho das folhas para passarem a noite. No outro dia bem cedo, no alvorecer, parte em bando com seus trinados a procura de alimento.
Ouço o sino da Matriz bater as horas. E começa tudo outra vez.