sábado, 24 de março de 2018

FAZENDA INVERNADA - POR JOSÉ ERASMO TOSTES

Fazenda Serra Nova
 Fonte: Internet

Quando os imigrantes chegaram à Miracema, italianos e Libaneses, foram direcionados para as fazendas e os italianos foram se radicando, formando lavouras, enquanto os libaneses, poucos ficaram na roça, foram logo dando um jeito de negociar como mascates e se estabelecerem como negociantes de tecidos e outros comércios.

Um desses imigrantes chamava-se José Berard, mas todos o conheciam como Raça, pois este era o tratamento que dava a todas as pessoas. Zé Raça morava na Praça Dona Ermelinda, numa casa antiga, onde hoje é a casa do Dr. Ney Gutterres. Na frente tinha uma oficina onde o Raça trabalhava junto com os filhos, todos da mesma profissão – bombeiro, latoeiro, ferreiro e fabricavam caldeiras e alambiques... e em seu sítio fabricava a cachaça. Após o serviço, na parte da frente da sua oficina, reuniam-se os vizinhos e amigos, conversando sobre todos os assuntos políticos e outros. O Zé Raça gostava de receitar remédios estranhos: pouco banho, óleo de rícino para tudo, assim como gotas de creolina para quem tinha problemas de pele e gotas de ácido muriático para quem estivessem com câncer. Os que tomavam a creolina, quando davam um pum, vinha um cheiro de desinfetante e os que tomavam as gotas de ácido, ficavam com as calças como se tivessem tomado tiro de espingarda de chumbo.

Dr. Moacyr Junqueira, João Cláudio, João Siqueira, Ventura Lopes, Chico Gama e Antônio Miranda faziam parte desse grupo de amigos de bate papo. Sentados em cadeiras de ferro, bancos de madeira e até em carcaças de motores. E, numa dessas conversas, o Miranda contou uma história sobre a Fazenda Invernada, que diziam, era assombrada desde o dia em que lá morreu o dono da fazenda, que era um amansador de cavalos.

Miranda era um homem alto, forte e um pouco surdo. Ao dialogar, levava as duas mãos na altura do rosto e falava baixo e compassado. Morava a poucas léguas da Fazenda Invernada. Um dia, arriou seu cavalo de nome Rosilho, por ser vermelho e branco, e partiu em direção à Fazenda. Ao se aproximar, já era tardinha e as sombras das árvores formavam figuras estranhas. Ao chegar mais perto, divisou a Fazenda, que tinha sete janelas fachadas e corroídas pelo tempo. Os esteios de braúna, embranquecidos, a porteira da entrada aberta até o batente.

Ao entrar pela porteira, olhando para cima, viu que o alpendre tinha os seus balaústres de madeira, com muitas falhas. Uma velha sentada numa cadeira de balanço, com os cabelos desalinhados, com o olhar distante sem se importar com sua presença.

Seu cavalo Rosilho começou a passarinhar, como se tivesse alguma coisa à sua frente. Um frio percorreu seu corpo, o cavalo começou a lhe tomar as rédeas. Esporeou o animal e voltou rapidamente em direção à porteira, saindo dali em disparada. E quanto mais corria em direção à divisa de suas terras, ouvia o tropel do outro cavalo que lhe seguia na mesma velocidade.
 
Ao se aproximar da divisa, onde o terreno era mais aberto, o chão coberto de areia branca e barrenta, continuou a ouvir o tropel do cavalo que lhe seguia. Transpôs a divisa, olhou para traz e nada, viu somente na areia as marcas das patas do seu cavalo.


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