sexta-feira, 29 de junho de 2018

O POETA - POR JOSÉ ERASMO TOSTES


Élcio Letiere de Souza. Este era o seu nome, mas todos o chamavam de Poeta. E de poeta não tinha nada. Jamais fez um verso. Por conversar muito e falar pelos cotovelos, lhe deram este apelido. Falava sobre tudo e de tudo dava definição. Usava sempre um gorro preto, cachecol, unhas grandes e um palito a rolar pela boca de um canto a outro.

Foi alfaiate no tempo que em Miracema havia mais de oito alfaiatarias, passando mais tarde para a profissão de capoteiro, profissão esta que exerceu até a morte. Exímio pescador e profissional, porém, um pouco sem compromisso. O freguês, com pressa do carro, e o Poeta ia pescar, e lá ficando vários dias.

Gabava-se de ser um bom cozinheiro. Ao fazer uma macarronada para os amigos, perdeu os óculos, achando-os mais tarde dentro da panela. De outra feita, não conseguiu fritar os bolinhos de mandioca, pois colocara cimento branco que havia deixado dentro da sacola de farinha de trigo. Numa de suas pescarias, ao passar pela fazenda onde estavam castrando os porcos, arvorou-se a castrador, e meteu mãos à obra, cortou, botou tripas para fora e meteu tripas para dentro, costurou, deu tapinhas na cabeça do porco de doze arrobas dizendo: “Levanta Mimoso”; e o Mimoso nunca mais levantou. 

Teve que sair às pressas, pois o fazendeiro queria fazer o mesmo com ele.E assim morre este tipo de poeta, que nos deixou fatos inesquecíveis, aos setenta e dois anos, que era mais para Magaiver que poeta. Fez tudo que tinha direito na vida, levando consigo, sobre o peito, o boné do glorioso Botafogo, time que era a paixão de sua vida.

2 comentários:

  1. Aqui comenta o filho único do Poeta, adotado por ele desde bebê, antes de completar um ano de idade. Minha mãe era de Caratinga, onde ele a conheceu quando trabalhava como capoteiro e estofador na concessionária da Chevrolet da cidade, que era uma filial da que existia em Miracema.
    Em fins de 1954 ou inícios de 1955, ele nos levou para Miracema, daí ter me tornado miracemense de coração. Foi em Miracema onde fiz quase toda trajetória escolar de base, desde o Jardim de infância Clarinda Damasceno, passando pelo G E Dr Ferreira da Luz até o ginasial e segundo ano do curso científico no CNSG.
    Em 1967, minha mãe se separou dele, fui acolhido por uma sobrinha do pai dele para terminar o ano letivo. Em 1868 fui terminar o curso científico em São Gonçalo, no grande Rio.

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  2. Tive o privilégio de conviver com ele quando trabalhei no Mine Mercado Luizinho. Ao lado da oficina ou atelier tinha o Vandinho do picolé, com seus picolés cremosos, creme Holandês e creme de ovos eram sucessos

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