segunda-feira, 16 de abril de 2018

MOTORISTAS E CAMINHÕES - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



Quando menino ficava embevecido ao ver passar em frente a minha rua, ainda sem calçamento, aqueles caminhões da época: Chevrolet tigre ano 38 carregado de tonéis de aguardente, escrito em sua traseira, Leão da Serra. Chevrolet Gigante ano 42 carregado de lenha para ser vendida para as padarias.

E foi em um caminhão Chevrolet 38 que João Cláudio levou a mulher e oito filhos em direção ao Paraná, atrás da corrida do ouro verde, que era o café, voltando somente após a guerra, com o dinheiro depositado no bolso da cueca, hospedando-se no hotel do turco José João na Rua das flores.

E tempos depois, já com mais idade, fiz diversas viagens de carona com motoristas meus conhecidos, só para matar meu desejo do passado. Aos 14 anos fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez, na carona do caminhão International que pertencia ao Djalma Candinho, levando quase uma semana para chegar. Pela primeira vez presenciei o sofrimento de um motorista que carregava ajudante, enxada, enxadão e correntes para serem amarradas nos pneus. No Morro do Serrote, era como se chamava a serra em direção a cidade de Leopoldina - MG, onde se pegava o asfalto Rio-Bahia, cinco ou seis caminhões ficavam atolados no barro por dois ou três dias até parar a chuva e desagarrarem. Sebastião Magalhães fornecia comida a todos os motoristas que ali ficavam dias e noites batendo papo, tomando pinga para debelar o frio, comendo feijão tropeiro e arroz carreteiro.

Com o passar dos tempos foi chegando novos caminhões da marca International NV-AC, L160, L180. Ford F6 escrito em sua traseira: adeus pampa mia, F8 Big Job, F600, Dodge, Studebacker. São muitas as histórias dos caminhoneiros que mantive relações de amizade, por motivos outros vou mudar o nome de alguns.

Na época da construção de Brasília, fui de carona com meu amigo Dalton levar pedras para a embaixada da Rússia. Dalton tinha mudado recentemente para Miracema, vindo de Mar De Espanha, lá deixando dívidas com um motorista seu amigo, e, nessa viajem, ao pararmos para jantar num vilarejo chamado Cristalina, terra de pedras coloridas onde os habitantes faziam anéis e outros objetos de adorno. Vejo que o Dalton começou a se esconder. Perguntei o que estava acontecendo. “Que azar, neste fim de mundo o meu credor está justamente onde estamos”. Teve que se desculpar com o credor, só não pagou.

João Bichoca foi parar na fazenda do Chicrala Amim em Rio Doce. Lá chegando, vestiu o pijama do Chicrala, fazendo-se passar por seu sobrinho. Mandou matar um garrote, fez um churrasco, comeu os perus bronzeados, carregou o caminhão de toras e veio vender para o próprio Chicrala para pagar as prestações que devia do caminhão.

Francisquinho trabalhava com aguardente, tinha dois caminhões. Um vermelho, outro branco. Carregava 10 mil litros toda semana para São Paulo, que entregava a uma firma revendedora. Como o gerente não conferia a carga, toda semana ele acrescentava 500 litros d’água, chegando ao ponto de um dia levar somente água. Quando o gerente o chamou atenção, ele se desculpou dizendo que havia levado o caminhão errado, o branco em vez do vermelho.

Genuíno fez uma sociedade com seu pai Olegário. Bate com o caminhão e pede ao Olegário 300 cruzeiros para o concerto. Diz o Olegário: somos sócios. Vou te dar 150. Mas eu bati do lado do carona, diz o Genuíno, é onde fica a sua parte na sociedade.
O Manoelzinho e o Gonzaga viajavam sempre juntos e todos os dois mancavam de uma perna. Procuravam carga sempre para os mesmos lugares, sempre levando com eles mulheres que apanhavam pelas estradas, e paravam sempre no bar do Antenor. Passando os dias, levaram consigo as esposas, e ao chegar ao bar do Antenor, para as refeições, Antenor chamou-os à parte e disse: vocês sempre trouxeram umas mulheres mais ou menos, mas hoje trouxeram dois bagulhos de dar pena!

E na espera das cargas sempre batem um papo onde um diz Plimouth, o Citroen está uma Mercury. Ninguém tem Dodge da gente, mas eu não Lincol. A gente Nash, Ford, Ford faz Fiat, não sai de Simca nem Kaidelak. E quando os netos nos chama de Volvo, a gente Morris e Reossuscita. Outro diz, quando saí de casa a mulher me disse: deixa 100 reais para eu pagar o Supermercado. Fui à casa da amiga, ela me disse: deixa 200 para eu comprar umas roupas. Passo na casa de minha mãe e ela me diz: toma meu filho, 300, para você comprar o que precisar.

A vida de motorista de caminhão tem horas alegres e horas tristes. Horas alegres ao bater papo, jogar uma porrinha enquanto espera o frete, falando das garçonetes com os colegas quando bebem uma geladinha, ou água que gato não bebe. E as horas tristes em caminhos distantes ao lembrar-se da mulher e dos filhos que há muitos dias não se veem.     

quinta-feira, 12 de abril de 2018

TRIEL: UM ÍDOLO DO FUTEBOL GOIANO



Sebastião Hercules do Nascimento, mais conhecido como Triel, nasceu em Miracema (RJ), em 6 de novembro de 1950. Filho de Milton Pedro do Nascimento e Eva Rocha do Nascimento é mais um miracemense que se aventurou no mundo da bola. 
São Cristóvão 1972
Em pé: TRIEL, Norival, Celso, Jair, Dias e Almir;
agachados: Valdo, Alexandre, Eraldo, Madeira e Ivo.  
Esse ex-lateral-direito começou nas categorias de base do América, junto com o ex-lateral Nelinho, que naquela época jogava de volante, e por um breve período também teve a companhia de um garoto chamado Arthur, ainda muito franzino e que por lá ficou pouco tempo. Esse garoto em questão depois ficou conhecido como Zico. O resto da história todo mundo já conhece.
Botafogo-SP 1972
Em pé: TRIEL, Julio Amaral, Adalberto, Poli, Manoel e Roberto;
agachados: Geraldão, Maritaca, Alexandre Bueno, Jorge Demolidor e Luís Carlos. 
Voltando a falar do nosso conterrâneo, apesar de torcer pelo Vasco, uma de suas grandes decepções no futebol foi não ter assinado contrato com o Flamengo, onde fez testes e não ficou. Do América ele foi para o São Cristóvão e assim iniciou sua carreira profissional. Passou depois por Botafogo-SP (1972), Goiás (1972-1978) e Vila Nova-GO (1979-1981), onde pendurou as chuteiras. Além de ter sido um ótimo marcador, outra de suas virtudes era o potente chute.  
Em pé: TRIEL, Matinha, Marcus, Juci, Milton e Donizete;
agachados: Piter, Luciano, Pastoril, Lincoln e Rinaldo.

Triel foi ídolo do Goiás e um dos grandes jogadores do clube esmeraldino naquele período. Jogou ao lado do goleiro Amauri, outro destaque, nascido em Santo Antônio de Pádua. Transferiu-se para o maior rival do Goiás, o Vila Nova, onde também conquistou títulos e se preparou para encerrar a carreira. Essa transferência foi muito polêmica por se tratar de um jogador muito querido pelos torcedores do Goiás. Com toda sua experiência, Triel soube contornar a situação e também se destacou no Tigre goiano.
Em pé: TRIEL, Timora, Zé Luís, Roberto Oliveira, Valdo e Gabriel;
agachados: Zé Henrique, Erivelto, Roberto, Zé Ronaldo e Paulinho.
Com tudo isso, até hoje goza de muito prestígio no futebol goiano. Chegou a exercer a função de técnico e trabalhou em alguns times do estado de Goiás e da região central. Fixou residência em Goiânia onde curte sua aposentadoria.






terça-feira, 3 de abril de 2018

MEU ALFAIATE - POR JOSÉ ERASMO TOSTES




Na década de cinquenta, em Miracema, havia nove alfaiatarias. Isto mostra como os homens se vestiam bem naquela época. Usavam tecidos como casimira Aurora, tropical Inglês, linho S-120, York Strit, Panamá, Caroá e até o brim cáqui. Em todas as solenidades e em todos os bailes os homens sempre se apresentavam de terno e gravata. A vida em nossa cidade era mais calma, poucos carros transitavam pelas ruas. Nas calçadas viam-se famílias sentadas reunidas batendo papo. Tínhamos o nosso médico de família; lembro-me certa ocasião em que meu pai mandou que eu chamasse o doutor Moacyr para uma consulta, e em menos de hora o mesmo estava chegando todo em terno de linho branco e gravata vermelha. Logo após a consulta a conversa descambou para o assunto de uma caçada, já que o mesmo era exímio caçador de paca. Ele começou a contar a caçada que fez junto com o seu amigo Manoel Valeiro, e fazia os gestos com as mãos como atirava, ajoelhava no chão e fazia a pontaria e imitava o cachorro latindo, até que o cachorro caiu numa fenda da pedra e ele teve que sacrificar o animal.

Mas voltando ao assunto dos alfaiates, as nove alfaiatarias eram do Sebastião Samel, Argeu Rangel, Zico Faria, Nilo Caldas na Rua Coronel Josino e outras três na Rua Direita: Amaro Leitão em frente ao Hotel Braga, em que trabalhavam os meus amigos apelidados de Botina e Coelho, a do Ernesto Granato, um italiano, em frente a Força e Luz. O Ernesto transformava em todos os carnavais a sua alfaiataria num bazar para vendas de artigos para o carnaval. Vendia de tudo: fantasias, máscaras, lança-perfume, confete e serpentina. Cem metros dali ficava a Alfaiataria do Dante Barbi, que tinha grande clientela. Às tardes, após o serviço, sempre tinha os jogadores de dama costumas, e nos fundos se jogava pif-paf. As outras duas ficavam na Rua Paulino Padilha, a dos irmãos Mercante, com o Noqueta talhando os ternos num corte mais moderno, como os de hoje. O Argentino e o Tiússa, seus irmãos, como ajudantes, além de diversos oficiais que trabalhavam na oficina e outros que faziam o serviço de acabamento em casa. Em certa ocasião, os Mercantes transferiram a alfaiataria para a Travessa do Ouvidor, no Rio de janeiro, mas depois retornaram. O Noqueta jogava bola no time do Tupã. Fazia ala de beque com o Jaminho.

Mas de todos esses alfaiates o meu era o Pepito. Talvez por ser o meu vizinho e ter ficado viúvo muito cedo. Ás vezes fazia as refeições em nossa casa. Pepito era baixo, meio gordo, pouco cabelo e gostava de usar chapéu, como era costume na época. Sua alfaiataria, que era simples, tinha dois manequins, um espelho, cadeiras de palha de taboa trançada, um ferro de brasa que deveria pesar seis quilos. Gostava de bater papo com ele, apesar de ser mais novo, mas gostava de ouvir as estórias que contava sobre os carnavais, onde ele passava todos os anos no Rio de Janeiro.

Pepito era meio excêntrico, ao mesmo tempo espirituoso, um pouco maldoso, como diziam, do bucho ruim. Tinha um freguês, o Sr. Amim do Cacheado, que pesava uns 150 quilos e era enjoado para roupa. Todo dia mandava ora abrir uma, ora apertar outra roupa, às vezes só passava, e ele ficava satisfeito. Pepito dizia que fazer roupa para o Sr. Amim era o mesmo que colocar lona em um circo. Certa ocasião o Adelino da padaria pediu que fizesse um terno para ser testemunha de um casamento. Diz o Pepito: “Me traz tantos metros”. E o Adelino, para fazer economia, trouxe menos um metro de pano.
 
- Não vai dá.
- Pode fazer que dá.

Pepito fez mais curto. Nas pernas das calças e nas mangas do paletó ficaram faltando pano. E o Adelino não foi ao casamento.
 

quinta-feira, 29 de março de 2018

JOSÉ GIUDICE - POR JOSÉ ERASMO TOSTES



José Giudice foi um imigrante italiano que fez fortuna em Miracema. O seu armazém era um verdadeiro empório, tinha de tudo que o freguês procurasse. Era representante de casas bancárias, comprador e exportador de café. Financiava os seus fregueses com “prazo de colheita”, emprestava o dinheiro e fornecia as mercadorias.

Foi um dos incentivadores do Movimento Separatista de nosso Município. Hoje, existe uma praça com o seu nome, antiga Praça dos Boêmios, agora Praça José Giudice, no início da Rua dos Gabrieis, ou Rua do Café. Com a derrocada do café em 1929, quando faliram muitos agricultores e comerciantes, ele também foi à falência.

No descrever desta crônica, vou contar fatos relatados por moradores mais antigos. O José Giudice tinha um caso com a mulher de seu compadre, também italiano. O compadre era sabedor, mas tirava proveito da traição, aceitava de bom grado aquela situação. Numa daquelas noites, chega o José Giudice na casa do compadre. Este, sem ter um lugar para ficar, se escondeu debaixo da cama. O José, depois de ter feito amor com a comadre, disse: vou trazer um par de botinas para o compadre, mas não sei o número. Grita o compadre debaixo da cama: “É trintoito compadre”!

Conta-se que, em certa ocasião, um freguês comprou um arreio. Ele, esquecendo para quem tinha vendido, debitou um arreio na conta de cada freguês. Somente dois reclamaram e todos os outros pagaram.

Um carioca gozador, sabendo da fama do comerciante italiano que dizia sempre que tinha de tudo, resolveu lhe pregar uma peça. Entrou em seu estabelecimento e pediu uma peça para o seu carro importado. Qual não foi a sua surpresa quando o José Giudice voltou do fundo do armazém e trouxe a mercadoria solicitada. O carioca foi para o Hotel Braga, onde estava hospedado, e ficou pensando num meio de tirar um sarro com a cara do José Giudice. Voltou no outro dia e pediu ao José: Quero dois quilos de PODELA. O José, espantado: O que será isto? Se não atender vou perder a fama, e disse - Passa aqui amanhã para pegar, são 30 mil reis. Volta o carioca para o hotel. Onde é que ele vai achar uma mercadoria com este nome de PODELA?
  
Vou dar o troco a esse carioca, pensou José Giudice. Mandou fazer uma feijoada, colocou um pouco de óleo de cróton para desandar, convidou todos os seus empregados e, após a feijoada, mandou que todos fossem ao banheiro. Recolheu todo aquele material com uma pá, colocou no forno por três horas, e, depois de seco, mandou moer e colocou numa lata bem fechada. Chega o carioca com ares de vitória. - Como é que é? Conseguiu a mercadoria? - Está aqui, são 30 mil reis. O carioca pegou um bocado do pó, cheirou uma pitada, encheu uma colher tentando descobrir o que era. “Mas isto é merda!”. O José Giudice rindo: “Não, é o pó dela!”

sábado, 24 de março de 2018

FAZENDA INVERNADA - POR JOSÉ ERASMO TOSTES

Fazenda Serra Nova
 Fonte: Internet

Quando os imigrantes chegaram à Miracema, italianos e Libaneses, foram direcionados para as fazendas e os italianos foram se radicando, formando lavouras, enquanto os libaneses, poucos ficaram na roça, foram logo dando um jeito de negociar como mascates e se estabelecerem como negociantes de tecidos e outros comércios.

Um desses imigrantes chamava-se José Berard, mas todos o conheciam como Raça, pois este era o tratamento que dava a todas as pessoas. Zé Raça morava na Praça Dona Ermelinda, numa casa antiga, onde hoje é a casa do Dr. Ney Gutterres. Na frente tinha uma oficina onde o Raça trabalhava junto com os filhos, todos da mesma profissão – bombeiro, latoeiro, ferreiro e fabricavam caldeiras e alambiques... e em seu sítio fabricava a cachaça. Após o serviço, na parte da frente da sua oficina, reuniam-se os vizinhos e amigos, conversando sobre todos os assuntos políticos e outros. O Zé Raça gostava de receitar remédios estranhos: pouco banho, óleo de rícino para tudo, assim como gotas de creolina para quem tinha problemas de pele e gotas de ácido muriático para quem estivessem com câncer. Os que tomavam a creolina, quando davam um pum, vinha um cheiro de desinfetante e os que tomavam as gotas de ácido, ficavam com as calças como se tivessem tomado tiro de espingarda de chumbo.

Dr. Moacyr Junqueira, João Cláudio, João Siqueira, Ventura Lopes, Chico Gama e Antônio Miranda faziam parte desse grupo de amigos de bate papo. Sentados em cadeiras de ferro, bancos de madeira e até em carcaças de motores. E, numa dessas conversas, o Miranda contou uma história sobre a Fazenda Invernada, que diziam, era assombrada desde o dia em que lá morreu o dono da fazenda, que era um amansador de cavalos.

Miranda era um homem alto, forte e um pouco surdo. Ao dialogar, levava as duas mãos na altura do rosto e falava baixo e compassado. Morava a poucas léguas da Fazenda Invernada. Um dia, arriou seu cavalo de nome Rosilho, por ser vermelho e branco, e partiu em direção à Fazenda. Ao se aproximar, já era tardinha e as sombras das árvores formavam figuras estranhas. Ao chegar mais perto, divisou a Fazenda, que tinha sete janelas fachadas e corroídas pelo tempo. Os esteios de braúna, embranquecidos, a porteira da entrada aberta até o batente.

Ao entrar pela porteira, olhando para cima, viu que o alpendre tinha os seus balaústres de madeira, com muitas falhas. Uma velha sentada numa cadeira de balanço, com os cabelos desalinhados, com o olhar distante sem se importar com sua presença.

Seu cavalo Rosilho começou a passarinhar, como se tivesse alguma coisa à sua frente. Um frio percorreu seu corpo, o cavalo começou a lhe tomar as rédeas. Esporeou o animal e voltou rapidamente em direção à porteira, saindo dali em disparada. E quanto mais corria em direção à divisa de suas terras, ouvia o tropel do outro cavalo que lhe seguia na mesma velocidade.
 
Ao se aproximar da divisa, onde o terreno era mais aberto, o chão coberto de areia branca e barrenta, continuou a ouvir o tropel do cavalo que lhe seguia. Transpôs a divisa, olhou para traz e nada, viu somente na areia as marcas das patas do seu cavalo.


O ALGOZ (JOHAN CRUIJFF) – POR YUSSEF SEFINHO


Nota: Yussef Sefinho é meu conterrâneo e um flamenguista apaixonado, frequentador assíduo dos bons tempos do velho Maracanã e profundo conhecedor de futebol.
Em 1974 não tínhamos a internet, as TVs não mostravam os campeonatos europeus, se não me falha a memória, as transmissões europeias começam na Rede Bandeirantes nas manhãs de domingo e a partir da ida de Falcão para o Roma. Os jornais traziam na maioria das vezes apenas os resultados e as classificações nas edições de segunda-feira. Recordo-me de ouvir o Panorama Esportivo nas noites da Rádio Globo e sempre um locutor com sotaque forte lusitano nos informava sobre um ou outro jogador, e através dele tomei conhecimento de um time holandês com um nome de detergente e que nele jogava um cara de nome muito complicado parecendo muito mais com musico clássico e que logo se tornaria pra mim o sujeito mais antipático, desagradável e inoportuno do mundo do futebol.
Veio a copa de 1974 e fomos nós pra lá com um time que tinha o Mirandinha como centro avante, chega ou querem mais? Se mais, tinha o Valdomiro na ponta direita, Paulo Cesar Lima e Jairzinho já negociados com o futebol francês, enquanto a maior revelação de nosso futebol dos anos 70, aos 22 anos, em plena forma física e técnica ficou no Brasil como eu, vendo os jogos pela primeira vez em cores pela TV. Zico “poderia” ter sido o cara naquela copa, mas nem foi, e o cara da copa foi o holandês que escolheu o nº 14, esquisito pra época, e jogou num time bagunçado, que o lateral direito era ponta esquerda, que o centro avante jogava também de quarto zagueiro e que os meias eram goleiro e laterais e que nos derrotou por 2 x 0 e no final do jogo em entrevista nosso técnico disse ter sido “surpreendido” pelos laranjas, IMAGINEM EU (?), desde então passei a ficar com raiva desse holandês e seus coleguinhas, como brasileiro, estava de “CHUTEIRAS” como dizia o Nelson Rodrigues e perdoei o “Velho Lobo”. 
Os anos se passaram e o holandês sai do Ajax pro Barcelona e transformou não só o time, mas o clube e acabou ajudando a transformar o futebol no mundo, todos queriam atacar e defender, e me recordo de uma comparação (é certo que fraca) feito por uma amigo naqueles idos anos 70, dizendo que o primeiro a jogar de forma parecida como o holandês aqui no Brasil foi o Zenon ainda no Guarani, e tinha uma certa lógica em sua comparação. Mas eu a cada dia, a cada notícia ou a cada reportagem sobre o cara, mais eu o desprezava.
Veio a copa de 78 e o cara não apareceu, não quis ir, deu uma de Pelé(?!), só que o Rei podia ter feito o que fez, ele não, nem bobo da corte era na minha cega opinião. Meu ídolo maior não foi bem na copa de 78, continuou sendo “o” ídolo, e veio a de 82 e encantamos o mundo, mesmo contra a vontade do Categoria, e o cara da camisa 14 também não apareceu, já tinha uns 34 anos, porém fez escola e por lá apareceram diversos postulantes a melhores do mundo, como Van Basten e Gullit, e quase foram. Mas eu continuava desprezando o cara.
Aos 68 anos o cara saiu de cena, o cara, o da camisa 14, de gols e passes lindos, injustiçado na Alemanha 74, idolatrado por todos do mundo do futebol, o cara que ofuscou meu ídolo, meu algoz, mas genial e imortal Johan Cruijff. Desculpe-me, mas foi por ciúme.
Nota do blog: o "locutor com sotaque forte lusitano" que foi citado no primeiro parágrafo é o jornalista esportivo Jaime Luís. 




sexta-feira, 23 de março de 2018

HEI DE TORCER!!! – POR MARCOS SABINO

América de 1974
Em pé: Orlando, Geraldo, Rogério, Alex, Ivo e Álvaro;
agachados: Flecha, Bráulio, Luizinho, Edu e Gilson Nunes. 

Nota: Marcos Sabino é cantor, instrumentista, compositor e produtor musical. Texto publicado em março/2018, em sua página do facebook.  


O time que resolvi torcer desde menino caiu pela terceira vez pra segunda divisão do Campeonato carioca, estou falando do América Futebol Clube.


Resolvi torcer pelo América ainda muito pequeno sem nenhuma explicação, simplesmente resolvi, mesmo sendo meu pai torcedor e até conselheiro do Vasco da Gama, clube que por muitas vezes junto ao meu velho vi jogar na tribuna de honra de São Januário e mesmo tendo esse exemplo de amor ao Vasco da Gama e influência que meu velho exercia sobre mim, escolhi o América.

 

Meu pai como um homem muito liberal nunca me dirigiu nenhum tipo de repudio por essa decisão, talvez por ser naquele tempo o América o segundo clube de todo carioca, mas para mim ele sempre foi o primeiro!

 

Vi ao lado de amigos de infância o América ser campeão da Taça Guanabara de 1974, por ironia do destino me tornei amigo de Carlos e Luiz os gêmeos que eram mascotes do America (no Youtube existe muitos vídeos da década de 70 com eles entrando a frente do time) eles moravam em Icaraí e tínhamos um time chamado América Junior Futebol de Praia, que era patrocinado pelo pai deles, seu Afonso, americano dos bons. Eles tinham outro irmão, o Afonso, que era vascaíno e são os donos de um bar no Ingá, na Rua Nilo Peçanha, que tem um pastel delicioso e é claro uma foto dos tempos áureos do América.

 

Quantos domingos sofremos vendo nosso América jogar contra os grandes de hoje, pois, naquela época o América era igualmente grande e com o peso de sua tradição jorrando pela sua camisa rubra. Quantos Ídolos! Edu, Antunes, Flecha, Ivo, Bráulio, Luisinho, Alex, Orlando, era um timaço! E nessa época quando o América perdia sua torcida fiel e apaixonada saía cheia de orgulho, gritando Sangueeeeeeee pelas rampas do Maracanã. Nós os torcedores fanáticos do América aprendemos que a derrota ou a vitoria não importava, e sim o amor ao América do Rio de Janeiro, da Tijuca, da Rua Campos Salles do Andaraí, esse era o América, ERA do verbo foi um dia!

 

Uma vez encontrei com o Tim Maia nos bastidores do Chacrinha e perguntei pra ele... Tim vc é América mesmo? Ele me disse sou sim, mas às vezes ser América é foda!! E o Tim estava certo, é foda!!!

 

O América caiu pela terceira vez pra serie B do Campeonato Carioca depois de uma volta a 1ª divisão sendo o segundo colocado com uma campanha ridícula e um time de 10000 categoria. Já vi ser expulso sem explicações da elite do futebol brasileiro, mesmo depois de ser o terceiro colocado do campeonato brasileiro de 1986, mas isso acontecia com o América e nunca foi explicado o porquê dessa agressão com um clube tão tradicional e importante do nosso futebol.


Em todas as caídas do América eu pensei... bom, vai ser campeão e nunca mais vai voltar pra série B. Fui até com meu filho, o Felipe, que resolveu seguir meus passos e torcer pro América ver o time disputar a decisão do campeonato da serie B quando Romário, fingindo ser América jogou uns 10 minutos no segundo tempo pra homenagear o seu pai, e vimos ali o América ganhar do Cabofriense e voltar pra elite do carioca. No ano seguinte o América caiu outra vez ficando em último lugar e agora outra vez, e isso me fez pensar uma coisa... Meu coração vai bater mais forte ao ouvir esse nome, mas não da pra ficar assim, afinal sou avô agora e quero contar essa história pra minha netinha e pros que virão com um final feliz, e resolvi a partir de hoje despejar minhas energias ao Canto do Rio Futebol Clube, clube que foi importantíssimo em décadas passadas e que agora acende uma chama de nova vida tentando se reerguer e isso vai ser mais bonito e divertido do que ficar vendo esses dirigentes sem nenhum amor pelo América a acabar de vez com esse patrimônio do Rio de Janeiro.

 

Digo dirigentes sim! Muitos clubes menores que o América estão ai, o Madureira, o Boavista, o Macaé, Resende, Goytacaz e tantos outros e o América só faz inundar os olhos de seus torcedores apaixonados com lágrimas de desesperança por tempos melhores. Tenho certeza que esse é o sentimento de muitos torcedores que como eu, despejaram por toda uma vida um amor sem limites e sem interesses por esse clube de futebol.


Meu querido América assino hoje com vc uma separação que é dolorosa mais necessária, já tirei todas suas fotos e escudos do alcance de meus olhos, não estou trocando de clube e sim querendo ter alegrias e boas vibrações, as vitórias são consequências disso, se não vierem tudo bem, mas que haja amor e respeito por torcedores.

 


Sendo assim, decidi por uma causa justa torcer e acompanhar o clube que representa minha cidade que tanto amo, Niterói, e por um Clube que também faz parte de minha história, meu avo era o dono do Bar Dalila que ficava na esquina da Rua João Pessoa com Paulo Cesar, no Largo do Marrão, e ali era o point dos amantes do futebol da cidade nos bons tempos do Estádio Caio Martins, e muitos craques do Canto do Rio da época iam tomar uma boa cerveja preta com os bolinhos de bacalhau da minha saudosa avó Ignez, depois dos jogos no Dalila que tinha até um time com o mesmo nome. Dessa forma sou Canto do Rio desde criancinha e América na memória afetiva, assim fica mais tranquilo.